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Foram mais de meia dúzia de telefonemas, entre ontem e hoje. Pedro Passos Coelho e Jean-Claude Juncker estão a negociar um cargo de topo na futura Comissão Europeia, sem o qual o primeiro-ministro português não aceita prescindir da ministra das Finanças. Em cima da mesa têm estado várias possibilidades, começando por uma vice-presidência — cargo que seria sempre acumulado com uma pasta económica.

Ao início da tarde desta quinta-feira, o ministro da Presidência admitiu que o assunto foi levado pelo primeiro-ministro ao Conselho de Ministros. Sem dizer o nome escolhido, o ministro disse que Passos anunciará hoje uma decisão “aos portugueses”.

Segundo apurou o Observador, o luxemburguês está confiante em levar a atual ministra das Finanças portuguesa que conheceu quando ainda presidia ao Eurogrupo.

A hipótese de Maria Luís Albuquerque rumar a Bruxelas é conhecida de todos dentro do Governo — e tem deixado sobretudo o Ministério das Finanças em alerta. Desde que voltou de Timor-Leste, no fim de semana, que Passos retomou contactos com alguns conselheiros no Governo. Paulo Portas esteve em São Bento na terça-feira. Duas fontes contactadas pelo Observador dizem que transmitiu a Passos que preferia que Maria Luís Albuquerque ficasse em Lisboa, mas deixando claro que não vetaria a saída, deixando o primeiro-ministro com mãos livres para negociar com Juncker um cargo específico. O Observador não conseguiu confirmar esta informação com o vice-PM.

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Em Lisboa, algumas pessoas próximas de Passos garantiram nas últimas horas ao Observador que o chefe de Governo ainda não tinha fechado acordo. Porque, para além do cargo, faltava ainda uma ponderação final dos “custos e benefícios” da saída de uma peça-chave do Executivo. “Não é uma decisão fácil”, dizia uma dessas fontes, admitindo que a saída não estava de todo excluída.

Um puzzle difícil 

As conversas têm sido intensas. E há novas hipóteses que se abrem, até aqui desconhecidas. Esta quinta-feira, o Financial Times diz que Jean-Claude Juncker está a preparar uma reconfiguração das pastas, criando a dos Serviços Financeiros (que juntará assuntos até agora divididos entre o comissário do Mercado Interno e o comissário do Euro). Isso permitirá manter, adianta o jornal, sob controlo mais apertado os mercados financeiros europeus, especialmente praças fortes como a City de Londres, mas também garantindo o acompanhamento de temas essenciais no próximo mandato como a União Bancária.

Existem já vários candidatos ao cargo, acrescenta a Reuters: a Holanda, que pode enviar para Bruxelas o seu ministro das Finanças e atual presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem; a Finlândia que nomeou o seu ex-primeiro-ministro Jyrki Katainen; e a Letónia, que indicou também o ex-primeiro-ministro Valdis Dombrovskis, estão a disputar o lugar de acordo com a Reuters. Qualquer dos dois primeiros casos significa que será um país do Norte a ter esta importante pasta económica, levando a que um país do Sul possa ficar com os Assuntos Económicos, hoje nas mãos da Finlândia, mas cujo comissário pretende agora ter nas mãos o comércio da UE.

No difícil puzzle que Juncker está a tentar fechar, também há candidatos fortes para esta pasta central na coordenação das políticas orçamentais da Europa. Desde logo Pierre Moscovici, o ex-ministro das Finanças francês. Espanha também se candidatou.

Na área económica, o que mais tem corrido em Bruxelas é que Maria Luís teria hipóteses na pasta dos Fundos Estruturais ou na do Orçamento Comunitário. Mas fontes ouvidas pelo Observador indicam que Passos terá tentado nestes dias que Maria Luís Albuquerque ficasse mesmo com os Assuntos Económicos (informação que não conseguimos confirmar). O facto de praticamente não existirem mulheres indicadas — factor que é determinante para Juncker não ter vetos em Estrasburgo — poderia ajudar.

Neste difícil jogo negocial, há até outras hipóteses menos ‘naturais’ que se abrem. Se Jeroen Dijsselbloem saísse do Eurogrupo e entrasse na nova pasta que Juncker quer criar, até a presidência do Eurogrupo poderia ficar vaga para um país do Sul. Nessa longínqua hipótese, também referida informalmente ao Observador por uma fonte que tem acompanhado o processo, Maria Luís Albuquerque nem teria de sair do Governo: o Eurogrupo é composto pelos ministros das Finanças do euro e é presidido por um desses 18 ministros.

Saída não tem de ser imediata

Um dos problemas que têm sido ponderados é o do timing da saída de Maria Luís. A nova equipa da comissão só toma posse em novembro, mas os nomes indicados terão de passar por testes difíceis no Parlamento Europeu, pelo que a sua disponibilidade nessa altura dificilmente será compatível com outros cargos. Mas nada impede que possa ficar mais umas semanas nas Finanças, enquanto Passos procura outro nome.

Maria Luís Albuquerque não é, aliás, a única governante que tem sido apontada para a Comissão de Juncker. Na lista oficial contam-se três atuais governantes – da Grécia, República Checa e Lituânia. Pelo menos dois deles, os ministros grego e checo, continuam no cargo mesmo depois de oficializada a nomeação, confirmou o Observador.

Segundo o jornal grego Kathimerini, Dimitris Avramopoulos, ministro grego da Defesa, que foi nomeado no domingo pelo Parlamento helénico como o nome escolhido para representar o país em Bruxelas, vai manter a sua posição no Governo” nos próximos tempos, lê-se. A sua saída, tanto do Governo como do Parlamento, só acontecerá depois dessa data e “vai significar a entrada de um novo deputado da Nova Democracia, Thanasis Plevris”. Mas ainda não saiu e ainda não há certezas sobre quem o irá substituir. Até lá, deverá continuar em funções.

O mesmo deverá acontecer com Vera Jourová, ministra do Desenvolvimento Regional da República Checa, que já foi nomeada no dia 21 e continua a figurar como ministra no site do Governo checo. O facto de ser mulher foi fundamental para a sua nomeação, já que Jean Claude-Juncker tem batalhado pela existência de mais do que nove mulheres na sua equipa em Bruxelas.

O caso da Lituânia não é tão claro. Vytenis Andriukaitis foi escolhido pelo Governo lituano como comissário no último dia 11 de julho e no site do Governo já foi aparentemente substituído. No entanto, de acordo com as informações veiculadas na imprensa pelo Seimas (Parlamento lituano), “caso o Presidente da Comissão Europeia aprove a nomeação” do ainda ministro da Saúde, “Vytenis Andriukaitis começará o seu serviço em Bruxelas entre outubro e novembro”. Antes disso, portanto, não é claro se abandona ou não o Ministério.