O ouro ainda se via. A geração estava lá, com Figo, Rui Costa, Fernando Couto e João Vieira Pinto. Todos com vinte e tais anos e promessas por cumprir. O talento estava à vista de todos. De resultados, porém, nada. Mas tinham mais uma oportunidade — o Europeu de 2000 já estava à vista. Faltavam dois anos, sim, mas a caminhada começava logo em outubro de 1998. E foi aí, também em casa, que pela primeira vez se viu o motor a pifar no arranque de uma qualificação.

Não foi ao primeiro jogo, mas ao segundo. Não tão grave como no domingo, quando a seleção nacional foi a Aveiro jogar e perder à Albânia, adversário que, com o 1-0 final, conseguiu pela terceira vez na sua história vencer, fora de casa, um jogo de qualificação para um Europeu. Até Edi Rama, o primeiro-ministro do país, fez questão de celebrar o feito aos olhos de todos. “Portugal atacava e nós ganhámos. Portugal rematava e nós ganhámos os pontos. Fizeram história”, sublinhou, na sua conta oficial de Twitter.

Foi obra. Da Albânia e de Portugal. Quase 16 anos depois, a seleção nacional conseguiu voltar a perder um encontro de qualificação para um Europeu. Em casa. Paulo Bento, aliás, também lá estava. Nos tempos em que ainda usava calções, meias e chuteiras para andar a correr no relvado, o hoje seleccionador estava no meio campo da seleção. E a 10 de outubro de 1998 esteve durante 70 minutos, até Humberto Coelho ver o suficiente e trocá-lo por Sérgio Conceição.

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O homem do Real Oviedo, então com 29 anos, foi para o banco de suplentes. Sentou-se. E foi assim que viu Dorinel Monteanu, aos 90’, pregar uma partida a Vítor Baía, o capitão da seleção, e fazer a bola passar pela sua mão direita, vinda de um livre direto. Faltavam três minutos para jogar. Havia tempo, mas não o suficiente. A vitória acabaria mesmo a falar romeno.

Agora o contexto. Portugal, na altura, vinha da ressaca de um falhanço. A seleção não conseguira estar no Mundial de 1998 e passara o verão a ver os outros jogarem em relvados gauleses, onde a França de Zinedine Zidane conseguiu que o troféu ficasse em casa (3-0 na final, contra o Brasil do ‘Fénomeno’ Ronaldo). Em outubro, portanto, à segunda jornada da fase de qualificação para o Euro 2000, era preciso procurar até à 39.ª posição para encontrar a equipa de Humberto Coelho no ranking da FIFA. Para o entender, basta recordar a década de 90 da seleção nacional: falhou também os Mundiais de 1990 e 1994, o Europeu de 1992 e, em 1996, conseguiu chegar aos quartos-de-final do Euro de Inglaterra.

A Roménia, porém, era diferente. O país ocupava na altura o 12.º posto no ranking da FIFA, uma recompensa por ter dito ‘presente’ em quatro das cinco provas de seleções realizadas desde 1990. E mais: deu nas vistas. No Mundial de Itália chegou aos oitavos de final; em 1994 chegou aos ‘quartos’ do Campeonato do Mundo dos EUA e, em 1996, ficou-se pela fase de grupos do Europeu. Moral de tudo isto — custou, mas Portugal perdeu na altura com uma seleção que, segundo a FIFA, era melhor.

Foi remédio santo. A derrota com a Roménia terá doído à seleção, tanto que não mais perderia um jogo no resto da qualificação. Portugal venceu os seis encontros seguintes e apenas empataria os últimos dois — incluindo o 1-1 com que saiu de Bucareste, em setembro de 1999. Pouco importou: o apuramento foi garantido. A seleção viajou até ao Europeu de 2000 e foi lá que devolveu aos romenos uma amostra do veneno que deixaram no Estádio das Antes, quase dois anos antes.

O sorteio mandou e Portugal ficou no mesmo grupo que a Roménia. Portanto, à segunda jornada da prova, houve novo duelo. E a seleção esperou, esperou e aguentou até aos 94 minutos para marcar. Aí apareceu a cabeça de Costinha e com ela o 1-0. Festa. E Paulo Bento viu tudo de perto, pois ainda estava em campo. A vingança era servida, mesmo que a Roménia tenha acompanhado Portugal rumo aos quartos-de-final do Europeu.

No domingo, em Aveiro, contudo, também foi diferente. Outra derrota apareceu, mas agora contra a Albânia, que nunca se qualificou para um Europeu ou um Mundial e está no 70.º lugar do ranking da FIFA. E, desta vez, Paulo Bento viu mesmo tudo a partir do banco de suplentes.