Rádio Observador

Salário Mínimo Nacional

Mais vinte euros no final do mês fazem a diferença?

Para muitas famílias portuguesas, é um truque de magia em contínuo sobreviver com o salário mínimo nacional. Vinte euros ajudam, mas não resolvem.

Isabel Teixeira sai, em passo apressado, do barco que faz a ligação do Barreiro a Lisboa.

© André Correia

É oficial: o salário mínimo nacional vai aumentar 20 euros e 91 cêntimos, já em outubro, de acordo com um decreto-lei publicado no “Diário da República nesta terça-feira. A história de Isabel é singular porque é pessoal, mas plural porque é um desafio com que 400 mil portugueses se debatem. Em vez de 485 euros, vai passar a receber 505. Pelo menos, até 31 de novembro de 2015. Mas vinte euros fazem a diferença?

Na estação de barcos do Barreiro, vê-se Lisboa por entre um filtro de neblina. Milhares de pessoas fazem este trajeto, todos os dias. Isabel Teixeira, 58 anos, recebe o salário mínimo nacional há 17 anos e está à espera do próximo barco para Lisboa. Tem um colar prateado com um “i” no pescoço. Veste uma camisa com um padrão axadrezado vermelho, preto e branco, e anda com o passe na mão.

Em 1997, Isabel começou por receber 282,40 euros, o salário mínimo à época – o custo de vida era outro, o euro ainda não tinha chegado a Portugal. Em 2011, recebia 485 euros. Em 2012, recebia 485 euros. Em 2013, recebia 485 euros.

Para ir trabalhar, gasta quase quatro horas por dia em transportes públicos – duas para ir e duas para regressar. “São horas que uma pessoa perde assim no nada.” Para passar o tempo, vai jogando “qualquer coisa no telemóvel” ou conversa com o grupo de amigas que criou e que fazem o mesmo trajeto, todos os dias.

Apanha um autocarro do bairro do Vale da Amoreira, nos arredores da Moita, às 13h25. Depois, às 13h55, apanha um barco para o Terreiro do Paço. E ainda tem uma saga “quase militar” de metro até à estação da cidade universitária. Isabel percorre os corredores do metropolitano de Lisboa, mexendo os braços como um soldado em marcha, atalhando caminho por todas as frinchas entre pilares e escadas. Entra de esguelha na fila das escadas rolantes, para chegar a horas ao hospital de Santa Maria.

Andreia Reisinho Costa

Andreia Reisinho Costa

 

 

Sempre a subtrair

Cortar e subtrair são verbos centrais na vida de Isabel. É muito raro fazer contas de somar. Por mês, paga 167 euros em prestação da casa e seguro de saúde. Mais 92,40 euros em passes, para se deslocar do Vale da Amoreira para Lisboa. No gás, luz e eletricidade “perdem-se” mais 100 euros mensais. E 52 euros na televisão, telefone e internet.

Sobram-lhe 73,60 euros, em média, “para comer”. Nuns meses compra mais peixe, noutros, “quando aperta”, compra mais arroz e cereais. É assim que é feita a ementa. “Não existem milagres da multiplicação.” Corta na roupa e no calçado, principalmente, explica. Uma das filhas mais velhas é hospedeira de bordo da Sata Internacional e voa regularmente para os Estados Unidos da América. “Vai-me trazendo algumas peças de roupa”, confessa.

Na semana passada, a greve do metropolitano de Lisboa pregou-lhe uma rasteira no orçamento. “Paguei 10 euros de táxi para chegar do hospital ao Terreiro do Paço, às 23 horas, quando saí”, conta, num tom de voz que demonstra algum ressentimento. É auxiliar hospitalar, há 17 anos e há 13 que faz parte dos quadros da função pública. O salário foi sempre o mínimo nacional. Lembra-se que entrou lá, no hospital, através de um concurso em que abriram 60 vagas. Tinha a intenção de, mais tarde, entrar para os quadros administrativos. Da única vez que houve um concurso para essas posições, ficou em “centésimo e tal lugar”. No ano passado, passaram-lhe o horário semanal de 35 para 40 horas, “sem receber mais nada.” “Quando se fala de saúde, só se fala de enfermeiros e médicos. A nós [auxiliares] não valorizam – não somos qualificados”, conta. No dia-a-dia, Isabel percorre os corredores do Santa Maria com os enfermeiros a mudar fraldas, despeja urinóis. Tudo o que não é trabalho especializado.

“Se tivesse 20 anos, já tinha saltado dali para fora. Tinha, tinha”, diz. Mas a idade pôs-lhe os pés no chão, à força. O divórcio, há 11 anos, duplicou-lhe o peso das despesas. Isabel tem quatro filhos e, neste momento, vive com a mais nova, que tem 25 anos, e um neto. “Quem aguenta a casa, sou eu”, conta. A filha mais nova “trabalha e não trabalha.” Há três meses, que está a trabalhar numa loja de roupa no Colombo, “para já.”

Formada em contabilidade, trabalhou na gestão financeira de um supermercado “Pão de Açúcar” (atualmente, Pingo Doce), mas despediu-se devido às “crises de ciúmes” do marido, de quem veio a divorciar-se mais tarde. Aos 58 anos, com 13 a pertencer aos quadros da função pública, Isabel confessa nunca ter pensado que ia chegar à atual idade “assim”. Arrepende-se de ter ido “na conversa do marido”. “As pessoas à minha volta sabiam como eu era, como vivia”, fala, aos bocados, como se estivesse a descrever uma miragem.

Que significa um aumento de 20 euros? “Não dá para nada”, diz, sem pensar dois segundos. Respira profundamente e acrescenta à pressa, como se tivesse medo que as suas palavras fizessem o Governo voltar atrás na decisão: “Mas, ao menos, que aumentem”.

 

Andreia Reisinho Costa

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