Naquele dia estava aborrecida com a vida de 15 anos. Aqueles dias maus típicos de uma jovem. Léa, como foi chamada pelo jornal francês que a descobriu, Le Nouvel Observateur, acabou por soltar o desabafo no seu mural da rede social Facebook. Dizia qualquer coisa como: “um dia gostaria de perdoar-me pelos meus disparates”. As palavras valeram-lhe uma série de “novos amigos”. Seguiram-se conversas via chat. Muitas. A jovem acabou intercetada pelas autoridades francesas quando se preparava para fugir para a Síria. Queria juntar-se à Jihad.

Nascida no seio de uma família sólida e ateia, Léa cresceu numa casa de província. Boa aluna, estava longe de obedecer aos clichés usados para caracterizar os jovens recrutados pela Jihad do Estado Islâmico (EI). Na rede social do Facebook tinha a sua fotografia e o desejo de ser enfermeira. E quando desabafou na rede e mostrou fragilidade, foi imediatamente abordada.

Os “novos amigos” foram chegando amiúde. Primeiro homens, depois mulheres. Quando deu por isso eram 50. Começaram a dizer-lhe que devia ir para a Síria fazer voluntariado, até que a convenceram de que nascera com uma missão no mundo. O plano: partir de França, passar pela Turquia onde casaria com um homem prometido. Depois de engravidar e ter um filho já podia entrar na Síria.

Estava tudo combinado quando os pais suspeitaram do seu comportamento. Léa fechava-se no quarto horas a fio, na internet. Já não falava com ninguém. No dia que tentou abandonar a França com um passaporte na mala, foi intercetada pelas autoridades. Os pais tinham conseguido uma interdição de abandonar o país num tribunal de Família e Menores.

O assédio não acabou aqui. Continuaram a telefonar-lhe e a mandar vídeos na tentativa de a manter fiel à Jihad. Mas traçaram-lhe um plano B: como estava debaixo de olhos das autoridades, teria que preparar um ataque em território francês. Léa começou a ser acompanhada num centro criado para acompanhar famílias que perderam os filhos para a Jihad, o Centre de Prévention contre les Dérives sectaires liées à l’Islam. Ao mesmo tempo planeava onde arranjar armas para o atentado. Recentemente caiu em si. Os testemunhos que ouviu fizeram-lhe eco na cabeça. E acabou por contar o que até aqui ainda não tinha assumido:

“Um dia que não me sentia muito bem deixei uma mensagem no Facebook a dizer que gostava de, um dia, me perdoar por todos os meus disparates. Houve pessoas que me enviaram pedidos de amizade e que depois vieram falar-me. Vieram sozinhos, muito depressa. Como escrevi que queria ser enfermeira, disseram-me que podia ir para a Síria ajudar, para ajuda humanitária. E que não havia melhor no mundo para me perdoar que o Sham [que inclui a Líbia, a Palestina, a Síria, a Jordânia e Israel]”.

“Enviaram-me vídeos de crianças gaseadas por Bachar [al-Assad, o presidente da Síria], sobre as mentiras dos políticos, sobre a islamofobia (…). Diziam-me que não devia obedecer aos meus pais, porque só devemos obedecer a Alá e às suas leis, senão seria uma descrente, uma ignorante, uma infiel”

“Pouco a pouco deixei de falar com as pessoas, nem na escola, nem em casa, ficava no meu quarto, de estores fechados. E ligava-me à internet. Vinham cada vez mais (…), eram pelo menos 50, primeiro homens, depois mulheres, de França, da Bélgica, da Síria”

“É muito fácil encontrar os intermediários. Telefonamos-lhes ou damos-lhe o número de telefone na internet. Explicaram-me que devia primeiro ir para a Turquia. Lá devia casar-me e engravidar para que me pudessem levar para a Síria com a criança. ”

“Os meus pais perguntaram-me se tinha mudado, se tinha renunciado às minhas ideias, dizia-lhes que sim mas, na verdade, foi de pior a pior. Eles diziam-me na internet para dizer-lhes que estava tudo bem, que eu tinha acabado com tudo, que já não queria partir e que tinha sido um disparate”.

“Um dia disseram-me: esquece, com todos atrás de ti nunca vais conseguir vir. Tens que passar aos atos em França. Começaram a mostrar-me vídeos de crianças mortas na Palestina e a falar-me da necessidade de agir contra os judeus. Quando somos bloqueados nas fronteiras, pressionam-nos para que façamos atentado Kamikazes ou à “Merah” [em nome de Mohmaned Merah, o homicida de Toulouse]. Foi uma mulher que me falou disso primeiro. Já tinha encontrado o lugar e o meio para obter as armas”.

“Agora é duro… Tenho problemas em assumir que me deixei levar (…).  Sinto-me mal por ter influenciado também outras meninas, não foi de propósito, mesmo mais novas que eu… Queria de tal forma partir que invejava todas as que conseguiam lá chegar. Agora algumas vão morrer lá, na Síria ou no Iraque. Se calhar por minha causa”.