Shoshana B. Roberts andou durante dez horas em silêncio pelas ruas de Nova Iorque. Pelo caminho, piropos. Muitos piropos. E uma companhia igualmente silenciosa que a acompanhou durante mais de cinco minutos. O passeio foi filmado por Rob Bliss, da Rob Bliss Creative, que caminhava à frente da atriz com uma máquina de filmar na mochila. Calças de ganga, uma t-shirt básica preta e dois microfones escondidos nas mãos de Shoshana. O passeio tinha um propósito: ajudar a Hollaback! a arrecadar donativos para acabar com o assédio na rua.

A Hollaback! é uma instituição sem fins lucrativos que pretende acabar com o assédio sexual em espaços públicos, que, além de piropos, inclui stalking (perseguição), masturbação em público ou agressão.  A Hollaback! explica que este tipo de assédio pode ser sexista, racista, “transfóbico” (preconceito contra transexuais), homofóbico, entre outro tipo de discriminações, e que a experiência varia de pessoa para pessoa.

“Na Hollaback!, acreditamos que que o que entra especificamente para aquilo que é considerado assédio público é determinado por quem o vive. Se já passou por esta experiência, nós apoiamo-lo”, lê-se no site da instituição.

De acordo com a instituição, o assédio público tem um impacto desproporcional em mulheres, pessoas de cor, LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e travestis) e jovens. Durante as dez horas em que Shoshana B. Roberts passeou em Nova Iorque, ouviu vários comentários. Nos dois minutos de filme, são vários os exemplos: “Hey Baby”, “God bless you Mami'”, “Damn”ou “Sweetie” constam entre os piropos.

A Hollaback avança que, de acordo com estudos internacionais, entre 70 e 99% de mulheres passa por uma experiência de assédio na rua, em determinada fase da sua vida. A instituição também refere que as pessoas de raça negra ou asiática, por exemplo, e as que pertencem ao núcleo LGBTT sofrem ofensas mais severas e têm maior probabilidade de serem agredidas.

Dois dias depois de ter sido publicado no Youtube, o vídeo já tinha sido visto quase 14 milhões de vezes. E começaram os problemas: vários comentários foram publicados a ameaçarem com violação a protagonista do filme. “Estas ameaças indicam que tocámos numa ferida”, argumentou Emily May, ao falar com o Newsday, site norte-americano ao qual defendeu, contudo, que o objetivo é “fazer mais do que tocar na ferida — queremos que os nova-iorquinos percebem que o assédio em público não é aceitável e a cidade recusa-se a tolerá-lo”.