São seis colegas de curso da Universidade do Porto com uma solução inovadora em mãos: querem ajudar os agricultores a satisfazer as necessidades reais das suas plantações e a reduzir custos. Imagine uma vinha, com vários pontos de medição instalados no terreno e ligados a um software, que permite fazer previsões sobre o clima, pragas ou doenças. Depois, basta aceder à informação num site ou na app que o agricultor descarrega para o smartphone ou tablet, onde também pode ligar e desligar sistemas de rega remotamente, sem ter de se deslocar ao local.

A WiseCrop é isto: um sistema de monitorização sem fios, que trata dados recolhidos por sensores, alerta o produtor para eventuais riscos no terreno e permite intervir remotamente. A ideia surgiu numa disciplina do curso de Engenharia Eletrotécnica e levou Tiago Sá, Ricardo Neves, Sandro Vale, Flávio Ferreira, Miguel Rodas e Luís Azevedo a integrarem o programa de aceleração de empresas do UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, em março de 2013, onde ficaram incubados. Em junho de 2014 lançaram a empresa.

“O nosso objetivo é ajudar os produtores a tomarem decisões baseadas nas necessidades reais das suas plantações. Damos as informações necessárias para que possam gerir os seus recursos e reduzir custos de operação, nomeadamente com a água e eletricidade”, explica Tiago Sá, 25 anos, cofundador do projeto.

A WiseCrop é uma das 185 empresas que está atualmente incubada no UPTEC, onde trabalham cerca de 1.540 pessoas. Desde 2007, já passaram pela incubadora que nasceu em pavilhões prefabricados cerca de 300 empresas, atualmente composta por quatro edifícios. Os 1350 metros quadrados que iniciaram o UPTEC deram origem a um polo tecnológico, outro para as indústrias criativas, um para a biotecnologia e outro no porto de Leixões. Tudo graças aos apoios vindos de Bruxelas. Foram cerca de 15 milhões de euros que o UPTEC recebeu para financiar a construção dos edifícios, respetiva adaptação e outras atividades.

“No início, não tínhamos nada. Não tínhamos nenhum edifício que nos tivesse sido destinado”, relembra José Novais Barbosa, presidente do UPTEC, ao Observador. “O apoio europeu foi essencial”, acrescenta. Esta quinta-feira, o UPTEC é apresentada como um “caso de sucesso” de aplicação do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

Já em 2013, a incubadora de empresas foi distinguida pela Comissão Europeia com um dos prémios Regio Stars, na categoria de Crescimento Inteligente. Desta vez, é o exemplo da campanha de informação pública “UE trabalhamos para si”, que pretende explicar aos cidadãos como a União Europeia contribui de forma concreta para fomentar o crescimento económico e criar emprego em cada um dos Estados-Membros.

“O crescimento económico e a criação de emprego, sobretudo jovem, são as prioridades da Comissão para a Europa. O novo presidente Juncker vai lançar, até ao final do ano, medidas que terão um impacto de 300 mil milhões de euros no crescimento económico e criação de emprego”, explica ao Observador Maria d’Aires Soares, chefe da representação da Comissão Europeia em Portugal.

A iniciativa vai arrancar no próximo dia 28 de novembro, com a emissão de spots televisivos e publicação de anúncios em imprensa, e o lançamento de uma plataforma online que lista mais de 80 projetos e programas sobre inovação, infraestruturas, educação, saúde pública, entre outros domínios. Maria d’Aires Soares acrescenta que é preciso estimular o empreendedorismo para criar emprego. “Sem crescimento económico, não há criação de emprego, por isso, temos de encontrar estímulos e apostar no empreendedorismo”, referiu.

21 mil milhões para combater o desemprego

Até 2020, Portugal tem um orçamento europeu de 21 mil milhões de euros para contribuir para a diminuição do desemprego, que continua a afetar um em cada seis portugueses e mais de um em três jovens. Com esta campanha, a Comissão pretende mostrar como é que a União Europeia pode melhorar o empreendedorismo e a inovação empresarial em Portugal.

“O UPTEC representa, neste âmbito, um excelente exemplo da utilização de fundos da união na ligação das universidades ao crescimento regional”, lê-se no comunicado enviado às redações a apresentar a iniciativa. Em causa está o facto de a incubadora ter contribuído para o desenvolvimento de uma “verdadeira economia de conhecimento no norte do país”.

José Novais Barbosa conta que a ideia de lançar o parque tecnológico nasceu na década de 1990, mas só se concretizou em 2007. A WiseCrop é uma das empresas que está a tentar desbravar caminho sob o teto que é financiado com dinheiro europeu. A quem quiser apostar na solução, que dizem ser única no mundo – por juntar três componentes num só hardware – afirmam que preveem um aumento de até 30% de produtividade da plantação, acompanhado do aumento da qualidade do fruto, evitando deslocações. 

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A solução desenvolvida pela WiseCrop numa das plantações em que está a ser testada

A ideia já os levou ao Chile, no âmbito do Startup Chile, onde receberam cerca de 32 mil euros para puderem desenvolver o projeto. Do Passaporte para o Empreendedorismo, receberam cerca de 25 mil euros, mas precisam de 350 mil euros para “crescerem rapidamente”.

“Achamos que o projeto tem uma janela de entrada no mercado estreita por causa da oportunidade que nos surge, na área da ‘internet of things’, que liga o mundo real ao mundo virtual. É uma oportunidade excelente para entrarmos no mercado e, quanto mais rápido o fizermos, melhor”, diz Tiago Sá.

O investimento, que está a ser discutido com capitais de risco e business angels, permitiria comprar o material e internacionalizar o mais rápido possível. A ideia é validar o primeiro ano de atividade em Portugal e entrar nos mercados externos no início de 2016. O arranque pode estar em França, país que Tiago Sá considera ser o mais interessante para as produções alvo da empresa: vinha, mirtilo, kiwi, maçã e pera.

“O UPTEC foi crucial para o desenvolvimento do projeto, por toda a formação que foi dada. Até há bem pouco tempo não havia nada nas faculdades, não existiam cadeiras deste género. Toda a formação e apoio que o UPTEC deu nesse sentido foram importantíssimas”, explicou Tiago Sá ao Observador.