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Cowspiracy: É preciso ser radical?

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O documentário promove o veganismo enquanto expõe os problemas ambientais causados pela alimentação à base de animais. Mas há quem defenda que não é preciso ser tão radical, o que é preciso é mudar.

O documentário estreou este sábado Lisboa

©D.R.

“Cowspiracy”, um documentário centrado nos problemas ecológicos causados pela produção animal, estreou este sábado em Lisboa, no Saldanha Residence. O filme que tem feito com que muitas pessoas mudem os hábitos alimentares, incluindo o apresentador João Manzarra, encontrou uma sala maioritariamente composta por vegetarianos e veganos, muito deles já sensibilizados para as questões ambientais abordadas ou com uma perspetiva mais centrada no bem-estar animal como a associação Animal, promotora do evento. Para chegar a mais pessoas, incluindo os “carnívoros” que não estavam presentes, os realizadores esperam que o documentário chegue aos canais de televisão.

João Manzarra, vegano há cerca de dois meses, foi convidado para apresentar o documentário e moderar o debate. Mudou os hábitos alimentares e abdicou da petisqueira do qual era sócio depois de ter visto o filme quando viaja de Amesterdão para Lisboa. “Já sei o que estão a pensar: a erva era boa!”, diz no tom humorístico que o caracteriza. Aliás, faz questão de frisar que é o mesmo Manzarra de sempre – “não sou ambientalista, nem nutricionista”, “não sou uma pessoa muito espiritual, sou mais prático”.

Tal como o apresentador, outras pessoas se sentiram tentadas a mudar os hábitos alimentares depois de verem o documentário que aponta a produção animal como a atividade humana com maior impacto no planeta, seja pela produção de gases com efeito de estufa, pela destruição das florestas para pastagens ou para produzir alimento para os animais, ou pela poluição da água e dos solos. Muitas das pessoas presentes vieram à procura de mais informação. Mas o canadiano Stephen Leahy, jornalista de ambiente, disse ao Observador que considera que o filme perde na parte em que tenta convencer as pessoas que a única solução para o planeta é se todos se tornarem veganos.

O jornalista critica ainda a acusação que o realizadores do documentário, Kip Andersen e Keegan Kuhn, fazem às organizações ambientalistas. Estas organizações são acusadas, no documentário, de não assumirem que o consumo de animais tem um enorme impacto no planeta e de não quererem falar do assunto. Durante o debate Keegan Kuhn referiu mesmo que os maiores fundos recebidos pela Greenpeace provêm dos maiores exploradores de gado nos Estados Unidos.

MORRINSVILLE, NEW ZEALAND - APRIL 18:  A herd of cows are seen through the lush green grass at a dairy farm on April 18, 2012 in Morrinsville, New Zealand. Raw milk sales are growing as more people are educating themselves on what they believe healthy food is. (Photo by Sandra Mu/Getty Images)

“O gado produz 130 vezes mais excrementos do que a população humana”, Nuno Sequeira, presidente da Quercus – Sandra Mu/Getty Images

Ao Observador, a Greenpeace respondeu que “encorajava iniciativas como o ‘Cowspiracy’ que expõe o lado destruidor da indústria agropecuária intensiva e os efeitos negativos no nosso planeta”. Cientes de que a desflorestação na Amazónia ocorre também para a plantação de soja que servirá de alimento aos animais, a Greenpeace conseguiu em 2006, o McDonald’s e outras empresas de fast food, mas não o Kentucky Fried Chicken (KFC), aceitassem deixar de vender galinha que tivesse sido alimentada pela soja plantada em terrenos de floresta amazónica.

A World Wide Fund for Nature (WWF) – que não foi entrevistada no âmbito do documentário – tem como objetivo de trabalho ter 10% da carne de vaca consumida no mundo certificada como sustentável até 2020. Ângela Morgado, responsável pelo Programa Mediterrânico da WWF em Portugal explica ao Observador que o objetivo da associação é envolver todas as partes – desde o produtor ao consumidor, passando pela distribuição, transformação, transporte e Estado – para se chegar a uma solução sustentável tendo em conta os aspetos ambientais, sociais e económicos. “Não dizemos que ninguém pode comer ou produzir carne, mas dizemos que tem de o fazer de uma forma sustentável.” Em Portugal o principal foco da organização são a produção de madeira e papel e as pescas.

A sobrepesca e a quantidade de animais que são apanhados involuntariamente nas redes são outro dos problemas abordados por Kip Andersen e Keegan Kuhn. Na Oceana, associação ligada à conservação dos oceanos, ambientes e espécies marinhas, não encontraram as respostas que procuravam. Ao Observador, a Oceana respondeu que não tinha ninguém neste momento que pudesse comentar o filme.

O documentário defende que ao ritmo a que se pesca, ao ritmo a que se destroem florestas para plantar soja ou produzir óleo de palma e ao ritmo a que aumentam o número de cabeças de gado para alimentar a população humana o planeta não resistirá. “Cada cidadão na Europa vive como se tivesse quatro planetas à disposição. Em termos mundiais, como se tivéssemos um planeta e meio”, refere Ângela Morgado. Mas há quem defenda que as vacas poderão ter um papel importante no sequestro de carbono, na fertilizar os solos e combate à desertificação e no desempenho das funções que outrora couberam aos animais selvagens, que pastavam nas áreas agora ocupadas pela agropecuária.

Fishermen collect bonitos as they sail on the Black Sea, near Zonguldak, on September 1, 2013, during the start of the fishing season. Horse mackerel and bonito are caught in nets during the beginning of the fishing season. AFP PHOTO/GURCAN OZTURK        (Photo credit should read GURCAN OZTURK/AFP/Getty Images)

“Se os oceanos morrerem, nós também morremos”, Chad Nelsen, Surfrinder Foundation (documentário) – GURCAN OZTURK/AFP/Getty Images

Nuno Sequeira, presidente da associação ambientalista portuguesa Quercus, confirma que “existem muitos bons casos de compatibilização do ambiente com a atividade agrícola, porque Portugal tem um longo historial de agricultura tradicional”. Em projetos realizados em conjunto com os agricultores, a associação ajuda-os a angariar fundos para uma agricultura tradicional ao mesmo tempo que promove a conservação da natureza. Numa zona de produção extensiva de de gado bovino em Elvas colocaram uma estrutura para a nidificação do peneireiro-das-torres. “As aves estepárias [que vivem em zonas de pastagem de gramíneas] são dependentes de um tipo de ambiente que não seria possível manter no mediterrâneo sem a intervenção humana.”

O ambientalista acrescenta que “quando feita de uma forma tradicional pode ser importante para a preservação da biodiversidade” e dá o exemplo da gralha-de-bico-vermelho. Esta espécie prefere as zonas de clareira na Serra de Aire e Candeeiros. Estas zonas de clareira eram abertas tradicionalmente pelos rebanhos, por isso a Quercus arranjou, para o projeto, um rebanho de cabras criadas de forma tradicional que além de abrirem clareiras para as gralhas, ajudavam a controlar o crescimento dos matos e consequentemente a prevenir incêndios.

A associação considera que acabar com a produção animal é inviável, mas defende que é importante que as pessoas reduzam o consumo de carne. “Não é preciso ser radical, mas se forem alterando os hábitos alimentares gradualmente estão a fazer mais pela saúde pessoal e pelo ambiente.” A saúde era o mote para a alimentação vegetariana que Célia Bastos, mãe de João Manzarra presente no debate, começou a praticar há 40 anos. E a espiritualidade também. Ao longo do tempo viu juntar-se aos princípios do vegetarianismo o bem-estar animal e mais recentemente o impacto no ambiente. Durante a intervenção mostrou-se satisfeita pela escolha do filho, mas também pela quantidade de caras jovens que a acompanhavam na audiência. “No meu tempo, eu era uma jovem, mas o resto estava tudo na casa dos 50 anos.”

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“Se todos comermos menos carne e menos peixe, estaremos a fazer melhor”, diz Pedro Costa, do Geota.

João Manzarra diz que se sente como se estivesse em plena faixa de Vegano (numa ligação ao que se passa na faixa de Gaza) – “é uma guerra”, uns adoram-no, outros odeiam-no -, mas no geral sente-se bem com a opção que tomou e muito mais honesto consigo e com os outros. Entre a audiência estão duas amigas veganas que trazem uma amiga “carnívora” para ver se a convencem a mudar de alimentação, mas acima de tudo as três procuram mais informação.

Tânia Simões é “vegetariana a caminho do vegano” – uma descrição escutada entre outros presentes – e explica que ainda tem de mudar a forma como compra os produtos de higiene e limpeza ou a roupa. Lucia Antunes já se preocupa com o tema a algum tempo e além da alimentação que já mudou – é vegetariana – quer ter uma atitude mais ativa, fazer mais coisas.

Kip Andersen também começou por mudar alguns comportamentos. Seguia os conselhos do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore e reduzia o tempo no duche, separava o lixo e optava pela bicicleta em vez do carro. Até que descobriu que a produção animal era uma das grandes responsáveis pela emissão de gases com efeito de estufa – 14,5% das emissões causadas por atividades humanas, segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Os números e percentagens expostos são uma das formas de impressionar quem vê o documentário a julgar pelas reações obtidas, mas Stephen Leahy alerta que o relatório de Robert Goodland and Jeff Anhang, citado no filme, em que se afirma que a produção animal emite acima de 50% dos gases com efeito estufa, não foi revisto por outros cientistas e não reúne consenso na comunidade científica.

Kip Andersen lamenta que Al Gore nunca tenha feito referência ao problema da produção animal no documentário “Uma verdade inconveniente”. Mas durante o debate afirmou saber que o político se afirmou vegano, mas sem atribuir essa decisão a questões ambientais. O realizador especula que pode ser porque parte da família de Al Gore tem ligações com a indústria agroalimentar.

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