A propriedade da Mesquita-Catedral de Córdova foi registada, em 2006, em nome da Santa Sé, pela módica quantia de 30 euros, valor isento de imposto. Mas não é caso único: só na cidade da região da Andaluzia foram feitos 500 registos nos mesmos termos de vários bens, entre templos, praças e até um quiosque, escreve o jornal espanhol El Confidencial.

Os registos de propriedade em nome da Igreja Católica estão a ser conduzidos à luz da reforma da lei de hipotecas introduzida pelo Governo de José Maria Aznar, primeiro-ministro de Espanha de 1996 a 2004, que permitiu que a Santa Sé registasse várias propriedades e monumentos, com os bispos como notários, que antes não pertenciam legalmente a ninguém.

O caso está a gerar controvérsia em Espanha, sobretudo na cidade de Córdova. Antonio Manuel Rodríguez, representante da plataforma cidadã “Por uma Mesquita-Catedral de Todos”, que já reuniu 400 mil assinaturas, considera que se está a assistir ao “maior escândalo imobiliário da história de Espanha”.

Mas isto é apenas “a ponta do icebergue”, acrescenta Antonio Manuel Rodríguez. Em Sevilha, por exemplo, a Catedral da cidade encontra-se também em nome da Igreja Católica, sem que o Governo espanhol se tenha pronunciado, mesmo confrontado com os protestos dos parlamentos da Andaluzia e de Navarra. O tema já chegou, inclusive, ao senado e ao congresso espanhol.

Entretanto, os movimentos de cidadãos organizados nas regiões em que vão sendo conhecidos casos como o da Mesquita-Catedral de Córdova estimam que a Santa Sé tenha registado cerca de cinco mil bens, naquilo que descrevem como “a colonização da Igreja Católica” e “uma apropriação indevida e clandestina”.

Aqueles que estão contra esta medida fazem questão de afirmar que esta não é uma disputa política, nem religiosa, contra a Igreja Católica. Todavia, não aceitam que a Mesquita-Catedral de Córdova, “reconhecida pela Unesco, em 1984, como símbolo de harmonia” entre fés e religiões, se “transforme num símbolo da intolerância”.