A esquerda portuguesa reagiu este domingo à vitória do Syriza nas eleições gregas, com o Bloco de Esquerda (BE) a celebrar a “vitória da dignidade contra a austeridade” e da “democracia contra a chantagem” e o Partido Comunista (PCP) a sublinhar a “clara derrota dos partidos que têm governado a Grécia e que são, com a União Europeia, os responsáveis pelo desastre económico e social” no país.

Para o deputado João Ferreira, do PCP, estes resultados, que colocaram o Syriza à beira de uma maioria, “representam também uma derrota para aqueles que, no quadro da União Europeia, procuraram – através de pressões, chantagens e ingerências inaceitáveis – condicionar a expressão eleitoral de profundo descontentamento e de profunda vontade de mudança que hoje percorre a sociedade grega”, expressando, também, “uma rejeição clara da política imposta pelos sucessivos programas de ajustamentos acordados com a ‘troika'”, acrescentou.

“Essa rejeição desse rumo, essa rejeição do desastre económico e social, do empobrecimento a que o povo grego foi conduzido nos últimos anos, traduziu-se na vitória do Syriza”, disse João Ferreira à agência Lusa. O deputado alertou para “as manobras daqueles que, no quadro da União Europeia (UE), irão procurar, e já o anunciaram, assegurar o prosseguimento do essencial das políticas que têm vindo a ser levadas a cabo na Grécia”.

Questionado sobre os impactos deste resultado nos outros países europeus, nomeadamente naqueles que tiveram um programa de ajustamento, João Ferreira disse que “a solução dos graves problemas económicos e sociais que afetam vários países da UE, como a Grécia e Portugal, exige uma rutura com as políticas, os instrumentos, os mecanismos que têm vindo a ser postos em marcha no plano da UE”.

“Foram essas políticas, esses instrumentos, que geraram esses problemas económicos e sociais e a sua solução só virá na base da rutura com essas políticas”, disse. Em Portugal, prosseguiu, “o caminho passa necessariamente com a rutura com essas políticas, com esses instrumentos, esses mecanismos, e passa por uma política que afirme o primado dos interesses nacionais, que afirme a defesa da soberania e independência nacionais, face a quaisquer outros interesses”.

O Syriza é um “partido irmão”

Para Catarina Martins, “a vitória do Syriza hoje na Grécia, esta vitória tão expressiva, é a vitória da dignidade contra a austeridade, é a vitória da democracia contra a chantagem”, afirmou Catarina Martins, numa declaração na sede do BE em Lisboa, onde esta noite cerca de meia centena de ‘bloquistas’ acompanham a noite eleitoral grega.

Sublinhando que o Syriza é um “partido irmão”, a porta-voz do BE adiantou que, em nome do BE, já enviou uma mensagem ao líder do partido anti-austeridade, Alexis Tsipras, felicitando-o por ter alcançado esta “vitória da democracia”.

“Os gregos deram esta lição de democracia à Europa ao escolher a alternativa, ao dizerem em alto e bom som que querem que se reestruture a dívida soberana da Grécia para que a Grécia tenha os recursos para criar emprego, para ter salário, para ter dignidade”, frisou. Catarina Martins reconheceu que “o caminho não vai ser fácil”, mas insistiu no que representa este “virar de página na Europa”, considerando que “é o princípio do fim da austeridade”.

Para Portugal, continuou, o desafio agora é fazer com que o Governo e todos os partidos esclareçam de que lado vão estar: “se do lado do primeiro Governo da Europa que quer a reestruturação das dívidas soberanas de todos os países do sul” ou se “querem continuar numa política de submissão a Angela Merkel, de submissão aos mercados financeiros, a destruir a Europa”.

Questionada sobre as semelhanças entre Portugal e a Grécia, a porta-voz do BE disse que, apesar de serem países diferentes e terem realidades políticas diferentes, têm em comum anos de imposição da austeridade. “Portugal como a Grécia tem de ter política diferente, precisamos mesmo de mudar de vida”, sublinhou.

CDS não comenta vitória do Syriza e fala diretamente ao PS

Num comunicado enviado às redações, o CDS disse “respeitar o resultado das eleições na Grécia, ganhas pela Coligação de Extrema Esquerda Syriza”, acrescentando que “não faz comentários sobre a política interna da Grécia”, pelo respeito que tem “pelo princípio da soberania democrática de cada Nação”.

Sem comentários diretos sobre o Syriza, o CDS deixou uma nota ao Partido Socialista. Este domingo, o líder socialista António Costa afirmou que as eleições gregas mostraram que a democracia resiste na Europa e que é possível encontrar alternativas à política que tem vindo a ser seguida. “E hoje muito claro na Europa que a política de austeridade fracassou como estratégia, quer de relançamento da economia, quer de consolidação orçamental”, disse.

“O CDS regista o júbilo manifestado hoje pelo Partido Socialista com os resultados, o que certamente se deve atribuir aos 4,8% obtidos pelo seu Partido homólogo (PASOK)”, lê-se no comunicado do Partido Popular português, numa referência ao mau resultado dos socialistas gregos.