Passam 100 anos. Foi a 31 de janeiro de 1915 que 18 mil bombas de gás foram largadas sobre a frente russa, enquanto o general Hoffman, do Exército alemão, esperava o momento ansioso na torre da igreja de Bolimow, a leste de Varsóvia. Mas os resultados da ofensiva deixaram-no desiludido. Na altura, ainda não sabia que, se fosse exposto ao frio, o gás perdia algum efeito.

Na guerra, tal como na vida, aprende-se com os erros e, em abril, químicos alemães já tinham criado cápsulas com cloro pressurizado que foram largadas em cima das tropas franco-argelinas, causando uma verdadeira chacina na Batalha de Ypres. Uma mancha verde – efeito do cloro que saía lentamente das cápsulas – terá morto milhares de homens que sem proteção asfixiavam numa visível agonia, enquanto o tecido pulmonar inchava e bloqueava as vias respiratórias, o que o comandante das forças expedicionárias britânicas apelidou de “um cínico e bárbaro desrespeito pelas bem afamadas práticas da guerra civilizada”, lembra a BBC.

Depois de duras críticas, o Exército britânico usou aquela, que à data, era a mais letal arma contra as tropas alemãs na Batalha de Loos. O capitão E. E. Simeons explica como o feitiço se virou contra o feiticeiro: “Devido ao repetido uso dos gases asfixiantes pelo inimigo em ataques às nossas posições, vi-me obrigado a recorrer aos mesmos métodos (…) cobardes de fazer guerra.”

Há 100 anos, o uso do gás tornou-se um sucesso militar, mas não deixou de ser criticado e temido mesmo por aqueles que o usavam. O comandante do terceiro Exército alemão em França chegou a escrever acerca desse sentimento partilhado:

“Eu temo que irá produzir um enorme escândalo no mundo… A guerra já não tem nada a ver com cavalaria. Quanto mais a civilização evolui, pior o homem se torna.”

A disputa deixou de ser apenas sobre as vitórias na guerra. A partir do momento em que lançaram o gás pela primeira vez, os exércitos degladiaram-se pela criação do mais letal gás, a “arma suja”, como Jeremy Paxman, autor do livro “A Grande Guerra Britânica”, lhe chamou, acrescentando que era uma arma com “um problema de imagem desde o início.”

A arma do medo

Aqueles que eram atingidos morriam de forma dolorosa, lenta e agoniante. Os que não morriam viam os colegas a sofrer e neles crescia o medo de serem as próximas vítimas. Edgar Jones, professor no Centro de Investigação de Saúde Militar em Londres, contava que, entre os soldados, o medo se espalhava como um vírus. De tal forma que os soldados começavam a achar terem sido atingidos, entravam em pânico, mesmo sem apresentarem qualquer um dos sintomas físicos causados pelos gases utilizados na Grande Guerra. Mas, para estes, a solução era mais fácil do que para aqueles que haviam sido atingidos: um placebo e estavam “curados”, afirma a BBC.

O gás marcou a guerra e marcou os soldados. Ian Kikuchi, historiador no Museu Imperial de Londres, explica que o “gás que se movia como vapor trazia à ideia os espetros, os fantasmas e outras coisas associadas à morte.” E a solução para memorizar os problemas – uma pesada máscara, conhecida como caixa de respirar – tornou o símbolo da morte ainda mais forte.

Foi este pesado simbolismo associado à guerra e ao gás que inspirou Wilfred Owen, que, num poema intitulado “Dulce et Decorum”, descreve, na primeira pessoa, de forma ritmada o passo dos soldados, a propagação do gás, o medo que fazia os homens tremer e a falta de ritmo dos corações que sucumbiam aos horrores da guerra.

“Em todos os meus sonhos, perante a minha vista impotente, ele mergulha em mim, jorra, asfixia, afoga.” [Tradução livre].

Não há certezas de Owen ter estado presente em algum ataque com gás na frente ou se o que escrevia eram apenas testemunhos daquilo que os outros soldados lhe contavam. As descrições são perfeitas, as nuvens verdes e as asfixias, mas o escritor só foi para a frente em 1917 – altura em que já não se usava gás com cloro que provocava a nuvem verde. O final da nuvem verde significou uma ainda mais poderosa bomba em que o cloro foi substituído por fusgénio, um componente de ação lenta, que fazia com que os combatentes não tivessem sintomas durante semanas.

O gás mostarda, que na altura também era usado, matava quando inalado em exagero, e o processo era ainda mais doloroso do que o letal cloro por não ser célere. Os pulmões dos soldados ficavam com bolhas, assim como todo o corpo que absorvia o gás que tinha ficado nas fibras de lã dos uniformes.

Durante a guerra foram-se encontrando várias soluções para o gás, fosse para o tornar mais letal ou para menorizar os seus efeitos. A BBC lembra que não eram soluções fáceis, como, por exemplo, ter de se tirar os uniformes e lavá-los o mais depressa possível. O que não era simples para homens que combatiam enclausurados em trincheiras.