A alta diplomacia esteve em Kiev e ruma agora para Moscovo, com um plano na manga. Angela Merkel e François Hollande, que estiveram (juntamente com o secretário de Estado norte-americano John Kerry) reunidos na Ucrânia com o Presidente Petro Poroshenko, estão hoje reunidos com Vladimir Putin em Moscovo. O objetivo é só um: pressionar a Rússia a assinar um acordo de cessar-fogo com a Ucrânia. Mas o porta-voz de Merkel, Stefen Seibert, já fez saber que “não há sinais de possíveis avanços em Moscovo”.

Falando ainda a partir de Berlim esta manhã, a chanceler alemã deixou claro que uma eventual solução diplomática terá em vista a “integridade territorial da Ucrânia” e que não passará por uma “solução militar”. “Como chanceler alemã nunca questionaria a integridade territorial de nenhum país, por isso nunca o vou fazer no caso da Ucrânia, está fora de questão”, disse Merkel esta manhã em Berlim, deixando claro que “fará tudo o que estiver ao seu alcance para encontrar uma solução para o conflito”. “Não sabemos se vamos ser bem sucedidos hoje ou se serão precisas mais conversações, se as reuniões hoje em Moscovo serão rápidas ou demoradas, nem tão pouco se serão as últimas”, ressalvou a chanceler.

Na quinta-feira, já o Presidente francês tinha anunciado a iniciativa diplomática conjunta, mostrando-se contra o fornecimento de armas a Kiev, mas deixando um aviso claro a Putin: A diplomacia tem limites e, no caso específico da Ucrânia, cujo confronto já se arrasta há quase um ano, não “pode ser prolongada indefinidamente”.

De acordo com a agência Bloomberg, a conteúdo do plano Merkel-Hollande para a paz na Ucrânia está a ser mantido em segredo. Sabe-se apenas que surge no seguimento de uma proposta de Putin, altamente improvável de ser aceite, de criar um território similar ao da Abecásia, região separatista da Geórgia também sob a alçada russa. E que, na retaguarda, pode ainda passar por aumentar a lista negra de personalidades e entidades afetadas pelo pacote de sanções económicas impostas pela União Europeia, caso Putin não aceite um acordo.

As conversações do eixo franco germânico com Moscovo, no entanto, decorrem num clima de desconfiança de ambos os lados, com o Ocidente a afirmar que a Rússia continua a enviar tropas e ajudas militares para o leste da Ucrânia, e Putin a responder que são os seus inimigos ocidentais que estão a tentar cercar a Rússia, isolando-a na geopolítica mundial.

A verdade é que não há muitas esperanças neste encontro da alta diplomacia, uma vez que a Ucrânia não deverá ceder em nada do que a Rússia aspira, não aceitando nada menos do que a desmilitarização total do leste e o retomar do controlo administrativo das regiões que entretanto se autoproclamaram repúblicas populares, com o apoio da Rússia.

A decisão de Merkel e Hollande de viajarem para Kiev e Moscovo surge numa altura em que o conflito ucraniano mergulhou a Europa na pior crise diplomática desde a Guerra Fria – e o cenário parece ser apenas de agravamento. Em quase um ano de disputa dos territórios do leste, o conflito já fez mais de 5.200 vítimas, de acordo com as Nações Unidas. Recentemente, o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev deixou um alerta preocupante de que a Guerra Fria que opôs a Rússia ao mundo Ocidental pode rapidamente dar origem a uma Guerra Quente, ou seja, com riscos sérios de confrontos militares a larga escala.

“Já não tenho a certeza de que a Guerra Fria não vá dar origem a uma Guerra Quente, receio que [o ocidente] se esteja a arriscar a que isso aconteça”, disse em declarações à agência de notícia Interfax, referindo-se ao novo prolongamento das sanções russas aprovado ontem pela União Europeia.

A par do eixo franco-alemão, também o secretário de Estado norte-americano John Kerry tentou progressos em Kiev. Kerry esteve na quinta-feira na capital ucraniana, onde pôs em cima da mesa a hipótese de Washington poder ajudar militarmente a Ucrânia a combater os rebeldes separatistas pró-russos. Para já, no entanto, não passa de uma hipótese. Os olhos estão agora postos no plano Merkel-Hollande, e na esperança de que haja resultados. Pelo menos resultados mais visíveis do que aqueles que têm saído das negociações de Minsk, onde mais do que uma vez se chegou a um plano de tréguas, que acabaria rasgado nos dias seguintes.