O ministro das Finanças alemão mostrou-se hoje “muito cético” sobre a possibilidade de chegar a acordo com a Grécia na reunião do Eurogrupo e lamentou que os gregos tenham eleito um governo “que se comporta de maneira irresponsável”. “Sinto muito pelos gregos. Elegeram um governo que de momento se comporta de maneira bastante irresponsável”, disse Wolfgang Schauble em declarações a uma rádio alemã.

Segundo Schauble, a Grécia estava no bom caminho para resolver a crise até que chegou o novo governo presidido por Alexis Tsipras. O ministro alemão insistiu que, para receber ajuda dos outros países da zona euro, a Grécia tem que mostrar como no futuro vai assegurar os meios suficientes para financiar as suas próprias pretensões, Ou seja, os gregos terão de cumprir alguns requisitos mínimos para continuarem no euro. De momento, segundo Schauble, não há nada que indique que o Governo de Tsipras vai apresentar uma proposta.

Entretanto a Irlanda, um país que teve de recorrer à ajuda da União Europeia, do BCE e do FMI em 2010, mas já deixou o memorando e regressou aos mercados, acusa o programa de Tsipras de ser irrealista e recusa aliviar o nó da gravata dos gregos, conta o Financial Times. Está agendada para esta segunda-feira uma reunião em Bruxelas entre os ministros das Finanças da zona euro, na qual será discutida a possibilidade de prolongar os prazos para o pagamento da dívida grega. A Irlanda, que acabou por antecipar alguns pagamentos ao FMI, está contra.

O que os irlandeses “estão a dizer é: ‘nós fizemos o nosso trabalho de casa, não foi fácil, e parte desse trabalho de casa é deixar a Alemanha feliz, e os gregos estão a ser irrealistas'”, explica ao FT Tom Healy, diretor do Instituto de Investigação Nevin Economic.

O diário britânico descreve a atitude irlandesa, semelhante às de Portugal e de Espanha, como refletindo falta de solidariedade. Na génese desta postura, diz o FT, estão os esforços e as reformas levadas a cabo por cada um destes governos, e que a Grécia não fez. Esta posição irlandesa está a merecer várias criticas por parte da oposição, comentadores e economistas, que consideram que a Grécia mereceria outro tipo de apoio, mesmo que a Irlanda não tenha tido direito à folga que agora os gregos pedem (ou exigem).

“Temos desconsiderado os gregos e a sua situação. Não fizemos nada para nos posicionarmos para os ajudar”, acusou Michael McGrath, o porta-voz para as Finanças do partido da oposição Fianna Fáil. Já Stephen Kinsella, um economista da Universidade de Limerick, foi mais corrosivo na critica: “Eles [governantes alemães e irlandeses] têm os números de telefone uns dos outros; eles vão jantar fora juntos.”

Apesar do crescimento que se tem verificado da economia irlandesa, dos empregos criados e da boa performance nos mercados sem que o Estado Social sofresse um grande impacto, o FT recorda que existem eleições legislativas no espaço de um ano, o que pode, em caso de mudança de governo, levantar pontos de interrogação. E esta atitude do Governo poderá não ajudar a suavizar a situação no caso de os ventos mudarem. “Devíamos ser mais solidários quanto ao debate pan-europeu sobre a sustentabilidade da dívida”, defende a oposição pela voz de McGrath, recordando que a Irlanda é ainda “um país altamente endividado”.

Saída da Grécia da zona euro seria a pior solução, diz diretor do fundo de socorro do euro

Já Klaus Regling, o diretor do fundo de socorro do euro (ESM na sigla inglesa), prefere uma atitude mais cautelosa quanto à eventual saída dos gregos do euro, conta o Wall Street Journal. “Seria a pior solução para a Grécia e para a zona euro”, disse numa entrevista televisiva no domingo, garantindo que tudo terá de ser feito para travar a situação.

“Quando um governo recentemente eleito tem diferentes prioridades do anterior é compreensível e não é nada de novo”, explicou Regling. “Também vimos este cenário quando o governo na Irlanda mudou a meio do programa”, disse, avisando que é possível fazer algumas alterações na caminhada sem que “a principal direção” seja afetada.

Kinsela, o economista da Universidade de Limerick, também prefere uma atitude prudente, que afaste esse cenário. “Se isso é um risco, a Irlanda deveria fazer mais ‘barulho’ construtivo.”

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