Título: Visual Families: Graphic Storytelling in Design and Illustration
Autor: Antonis Antoniou et al. (editores)
Editora: Gestalten Verlag
Páginas: 224
Preço: 42,75€ (Amazon Espanha)

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É duvidoso que os nossos antepassados do Paleolítico tivessem sentido uma forte pulsão para elaborar listas, mesmo que tivessem meios e discernimento para o fazer. Afinal de contas, o seu mundo era relativamente simples e depois de listar as rochas de acordo com a aptidão para produzir pontas de lança, as bagas silvestres e besouros de acordo com a sua sapidez e as serpentes de acordo com o seu grau de perigosidade, o listómano das cavernas não teria muito mais para inventariar.

A presente popularidade e dependência do Homo sapiens em relação às listas decorre da extraordinária complexificação e diversificação por que o mundo está a passar e que deixam o nosso cérebro desorientado perante a multiplicidade de opções e a sobrecarga de informação. É aqui que entram as listas, ajudando a ordenar e estruturar o mundo, material e imaterial, que nos rodeia, permitindo detectar padrões e facilitando comparações e a definição de prioridades.

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A Gestalten Verlag, que tem créditos firmados como editora de livros de grande originalidade e infalível qualidade gráfica sobre as mais diversas vertentes da imagem, recolheu em Visual Families uma assombrosa colecção de listas visuais, desenhadas por designers, infografistas, ilustradores e artistas de todo o mundo nos últimos três ou quatro anos, alguns como apontamento pessoal, outros para ilustrar um texto na imprensa, outros para publicitar um produto ou serviço.

O conceito pode parecer vago, mas o resultado é um festim de criatividade e humor: Christina Christoforou organizou uma galeria de cabelos e barbas de vedetas pop-rock (de Abba a Iron Maiden), Joanna Neborsky desenhou os 155 objectos arrolados no inventário dos bens de Flaubert realizado após a morte do escritor, Max Dalton concebeu uma colecção de cartas com personagens de filmes de Wes Anderson, Grant Snider identificou os temas recorrentes nos romances de Haruki Murakami, a Nomo Design converteu os mais movimentados aeroportos do mundo numa austera colecção de arte abstracta, Mickey Duzyj cristalizou as poses e gesticulações típicas de grandes tenistas (de Pete Sampras a Rafael Nadal), Hugo Yoshikawa compactou os monumentos e edifícios icónicos de 26 cidades europeias num alfabeto, Wendy MacNaughton elaborou um menu visual com os alimentos/bebidas que sustentaram a criatividade de escritores famosos (de Lord Byron a Kafka) e Rob Loukotta inventariou os 126 artefactos diferentes utilizados por Wile E. Coyote na sua vã porfia para capturar o Road Runner.

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Se há “famílias” cujo interesse está na disparidade dos seus membros, outras vivem das variações em torno de uma estrutura ou conceito. Ao submeterem-se todos os elementos de uma “família” a um mesmo registo de desenho, as diferenças e semelhanças entre eles tornam-se mais evidentes – a depuração e estilização implicadas pelo desenho logram um efeito revelador que dificilmente está ao alcance da fotografia. É o caso da “família” de antenas de televisão coligida por Ian McDonnell, que tem o condão de tornar visível um artefacto omnipresente no nosso quotidiano mas que costuma passar-nos despercebido, ou da “família” de estádios de futebol de Jacopo Ferretti.
A “família” mais disfuncional – e também a mais excêntrica ao conceito do livro – são as ilustrações do turco Murat Palta, que adaptam cenas memoráveis de filmes célebres (de A Laranja Mecânica a Pulp Fiction) segundo o estilo e convenções das miniaturas do período otomano e recorrendo ao vestuário, arquitectura e adereços dessa época e tradição, num diálogo intercultural bizarro, azougado e assumidamente irónico.