Ela nasceu com a fisiologia masculina, é mulher mas está detida numa ala masculina. Ela é o soldado americano que se tornou conhecido depois de ter hostilizado o Estado americano. Decidiu fazer a transição de homem para mulher num ambiente igualmente hostil. No verão passado permitiram-lhe começar uma terapia hormonal e mudar de nome. Só não permitem que tenha cabelo comprido.

Tudo começou quando Bradley, agora Chelsea, quis juntar-se ao exército dos EUA. Uma decisão que podia trazer uma vantagem: talvez o ambiente masculino a distraísse dos pensamentos femininos que já a acompanhavam desde criança. O primeiro treino ocorreu no Missouri em 2007 e Chelsea lembra a “rudeza” com que se deparou. “Um dos sargentos mexeu nos meus bens pessoais e fez comentários sobre o meu telemóvel: era cor-de-rosa. Nem pensei muito no facto de o levar comigo naquela ocasião. Simplesmente gostava dele”, lembra agora em entrevista por e-mail à Cosmopolitan — os prisioneiros não podem conversar com jornalistas pessoalmente nem por telefone.

O ex-soldado americano Bradley esteve em missão no Iraque e tornou-se conhecido depois de, em 2010, ter entregado documentos secretos do Departamento de Estado à organização Wikileaks. Na altura, depois do julgamento, afirmava que o seu objetivo não era ferir pessoas, mas sim ajudar. Queria dar a conhecer o “custo humano da guerra”, diz o El Mundo. Para justificar a atitude citou “a morte de muitos civis inocentes” no conflito, a falta de responsabilização pública e o ignorar da tortura. “Foi só depois de estar no Iraque e ler diariamente documentos militares secretos que comecei a questionar a moralidade do que estávamos a fazer”, referia na altura. Agora questionada sobre o assunto, Chelsea não quis acrescentar mais nada.

O soldado foi considerado um “traidor” ao Estado porque pôs em risco as forças americanas. Os procuradores argumentaram que os documentos revelados tinham informações que punham os soldados americanos em risco de serem alvejados, de acordo com o Serviço de Notícias do Exército.

Em agosto de 2013 foi condenado a 35 anos de prisão. Está na ala masculina de Fort Leavenworth, no Kansas. Foi-lhe diagnosticada disforia de género (quando alguém se identifica com o género oposto àquele que lhe foi atribuído biologicamente à nascença) e Bradley conseguiu começar a terapia hormonal indicada, bem como alterar o nome legalmente para Chelsea. Conseguiu também que lhe enviassem maquilhagem e roupa de mulher. Só não lhe é permitido ter cabelo comprido. Diz que às vezes se sente como “uma brinquedo” para os funcionários da prisão.

A experiência no Iraque deu-lhe o pior e o melhor. “Lidar com e-mails, notas e relatos de pessoas a morrer à minha volta fez-me perceber como a vida e curta e preciosa. Quando fui de licença em janeiro de 2010 comecei a vestir-me de mulher. Não teria sido capaz de fazer isso antes, conclui.