Título: Manhã
Autor: Adília Lopes
Editora: Assírio & Alvim
Páginas: 144
Preço: 13,30€

Em 2014, o encenador António Rodrigues estreou no Teatro do Bairro uma pequena peça composta por poemas e fragmentos diarísticos de Adília Lopes. “Mana, solta a gata”, feita com enorme sensibilidade e inteligência, mostrava o belo e o terrível que sempre viveram sob os jogos de palavras, as histórias non-sense, a alta erudição e o risível da autora. No palco, dois atores e um balão em forma de gato, viravam Adília Lopes do avesso (de certa forma aquilo que através dos seus poemas ela tentou fazer com o mundo) e a sua poesia feita conversa mostrava-se mais forte, mais criativa, mais intemporal que nunca.

Por esses dias dizia-se que Adília estava muito doente, que já não saía de casa, que não voltaria a escrever. Mas, como tudo nela tem sempre uma consistência ambígua entre a realidade e Os Desastres de Sofia (Condessa de Ségur), eis que, em Março deste ano, ela não só regressa com um livro novo, Manhã, na editora Assírio & Alvim, como volta a ser fotografada, a dar longas entrevistas sempre naquele seu eterno estilo de presente-ausente, vagamente louca, vagamente autista. Sempre com as suas roupas fora de moda, a sua expressão de menina-velha (não de velha-menina), desajustada de um mundo que não compreende.

O livro, esse, já se sabe que é o que menos conta no circo mediático, sobretudo quando em causa está uma das poetas mais singulares das últimas décadas. Certamente aquela que conseguiu criar em torno de si uma aura de loucura, marginalidade e genialidade que desperta tantas paixões quanto embirrações.

Adília (e é de propósito que abandonámos o sobrenome, ela já não precisa dele) não terá honras de Panteão mas tem versos que entraram e se incrustaram na nossa linguagem quotidiana. O verso “um dia tão bonito/e eu não fornico” tornou-se uma forma prosaica de suspirar a passagem do tempo com a mesma concisão trágica do tempus fugit. Sendo que o verso de Adília tem muito mais graça e comunica muitos outros cambiantes da vida. A mesma vida que nos foge, seja em latim, seja em anedota. Nos seus grandes momentos, a poeta tem a mesma ironia que nos explode nas mãos numa tristeza dilacerante como tinha Alexandre O’Neill: “ó Portugal, se fosses só três sílabas/de plástico, que era mais barato!”. Mas Adília não tem só grandes momentos.

“Eu sou 8 ou sou 80. É uma das coisas mais acertadas que há a dizer sobre mim”, escreve Adília num dos fragmentos diarísticos que integra este novo livro. E assim é. E assim continua a ser. Dona de uma imaginação vocabular notável, de jogos de palavras e de sentidos que misturam a cultura erudita de Proust, Roland Barthes, Hölderlin, Camões, Espinosa com a Condessa de Ségur, as tias velhas, as bonecas de louça, os gatos e as baratas, a autora criou um imaginário poético único. De tal forma siderante que não há um só poeta com ou sem qualidades, cultor do quotidiano, que lhe chegue aos pés. Porque a poesia de Adília é uma espécie de “máquina ativadora da melancolia” com as suas paisagens construídas sobre memórias íntimas, restos de uma infância nunca deixada, espantos de um mundo adulto nunca inteiramente compreendido. O seu quotidiano traduz sempre a passagem do tempo vivida no envelhecimento do corpo próprio e nos objetos que a rodeiam, infalivelmente partidos, gastos, esquecidos…

A solidão, a impossibilidade do amor, as exigências impossíveis que o mundo faz às mulheres, a inevitável desilusão e o sentimento de perda face a tudo, fazem com que a sua poesia se fixe em nós com uma carga mais trágica que anedótica e nunca como uma mera mimesis da realidade.

Como escreveu a ensaísta Rosa Maria Martelo somos sempre “desarmados pela sua imagem de anti-poeta e de menina. E, todavia, esta condição desarmada de Adília Lopes também é a sua arma mais desarmante. Porque é ela que lhe permite ser especialmente eficaz na denúncia da hipocrisia, da crueldade, da cupidez e da estupidez do mundo em que vivemos (…) o modo como olha para a linguagem, a maneira como persistentemente a experimenta, questiona, desloca e analisa nada tem de fútil ou inocente.” Mas nem sempre a poeta consegue chegar a esse nível de admirabilidade que ela própria impôs, com a sua loucura iluminada, as suas rasteiras de menina travessa, as suas glosas descaradas ou subtilíssimas de outros artistas, mostrando sempre que a mulher-a-dias é uma aristocrata erudita até quando conta pormenores da sua vida sexual.

Mas voltamos de novo à metáfora do 8 e do 80: a poesia de Adília é altamente irregular e se há, neste novo livro, poemas que nos fazem dobrar de angústia, ou de riso, ou das duas coisas ao mesmo tempo, há também fragmentos totalmente irrelevantes do ponto de vista poético. Textos, entradas diarísticas, memórias, frases soltas, haikus. Este desequilíbrio, que tem sido uma constante na obra de Adília, acentua-se neste livro, talvez por ser o mais extenso publicado nos últimos anos.

“Em todas as ruas te encontro, em todas as ruas te perco”

O verso é de Mário Cesariny e podemos aplicá-lo a Adília Lopes e à sua obra, nomeadamente a Manhã: onde por instantes temos a alegria de parecer que encontrámos a poeta de antes, aquela que escreveu O Marquês de Chamilly (1987), O Decote da Dama de Espadas (1988), A Bela Acordada (1997), Sete Rios entre Campos (1999), Irmã Barata, Irmã Batata (2000), só para nomear alguns dos livros que saíram entre 1985 e 2000 e que contêm, provavelmente, a melhor poesia da autora.

Em Manhã, cuja capa evoca um bolo coberto de claras em castelo e bolinhas prateadas como aqueles que havia na infância de tantos de nós, encontramos coisas tão boas como:

“Moro na prisão/entre grades/sou uma árvore.” (pág. 26)

ou

“Tenho um bibelot que é uma senhora de loiça, de vestido comprido armado cor-de-rosa, a pegar com as pontas dos dedos nas saias do vestido para começar a dansar, para cumprimentar, mesuras antigas. É uma caixa, abre-se pela cintura e encaixa. A cabeça da senhora partiu-se. Não quero colar. Meti a cabeça na caixa. Agora a senhora tem a cabeça dentro da barriga.” (pág. 70)

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Para além dos fragmentos diarísticos e poemas o livro tem várias fotografias da autora, de bebé, de criança, de jovem estudante, o que reforça a carga autobiográfica desta obra mas também nos deixa com o amargo sabor do supérfluo. É que antes de colocar esta espécie de brindes nos livros é preciso saber qual o sentido que eles fazem na economia da obra. O que é que de relevante nos dão as imagens de Adília Lopes a dar comer aos pombos no verão de 1964 a não ser a satisfação de um mero voyeurismo sobre a intimidade do autor?

Também há frases soltas tão irrelevantes como:

“Há que parar como diz a mulher do marido da Becel” (pág. 91)

ou

“Lembro-me das catalpas/ da Barata Salgueiro/ não sei se ainda lá estão/ há muito tempo que não passo por lá”

Este último fragmento tem, em epígrafe, uma citação do poeta irlandês Yeats, mas nem isso o salva. Porque mesmo que isto indique a existência de um diálogo entre Adília e Yeats ele é qualquer coisa que não nos comunica nada. Ora, é porque há coisas que comunicam algo (por mais subtil e ínvio que seja) e coisas que não comunicam nada, que é preciso fazer com que o autor aprenda a difícil, mas muito estimável, arte de cortar. Também é para isso que servem os editores.

Porém, quanto mais consagrado é um escritor, mais mitificado, mais vendido, e tudo passa a ter um valor comercial que se sobrepõe ao valor artístico. Também mais dificuldade têm os críticos de apontar falhas, fraquezas, optando tantas vezes por fazer torções de linguagem impossíveis para justificar o injustificável.

Apesar de ser um livro menor face a tantas maravilhas que a autora já nos deu, Manhã vale muito a pena ser lido, porque o universo de Adília é sempre habitado por pequenas preciosidades que fazem valer um livro inteiro:

“Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. Uma vez, apareceu a prima Lucília a dizer, já não sei porquê:

Fiquei muito confrangida.
Passámos a chamar-lhe ‘a confrangida’.

Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligávamos a televisão.” (pág. 56)

Oh, como gostamos deste humor negro que continua a ser um dos seus maiores trunfos poéticos. Com que ironia melancólica passamos a olhar o mundo depois de uma horas fechados num livro de Adília. Como as memórias dela, as suas primas e tias, o seu mundo de menina da alta burguesia lisboeta são afinal de todos nós, perseguidos pelos mesmos fantasmas, pela mesma antiquíssima solidão, pelos mesmos objetos triviais onde procuramos uma imagem justa para a nossa dor ou para o nosso contentamento.

A louca da casa ou o mito da loucura dos génios

Muitos talvez ainda se lembrem de Adília Lopes a pesar livros numa balança de talho no programa Zapping de Luís Osório (RTP, 2000). Adília com as suas roupas e o seu corpo nos antípodas das mulheres que preenchem habitualmente a paisagem televisiva, com a sua voz infantil e as suas considerações aparentemente absurdas sobre o peso de certos livros ou a falta dele, podia ser uma crítica cultural, se o público não ficasse preso na estranheza que emanava daquela figura. Nessa altura a poeta, já bastante reconhecida no meio intelectual, passa a circular nos programas de televisão como uma personagem freak. Sem que se percebesse se aquilo era uma performance artística ou um mero aproveitamento mediático de uma pessoa com fragilidades psíquicas.

Este período televisivo de Adília, a somar à sua muito sui generis obra e ao seu discurso cheio de obsessões pelos detalhes, as ligações abruptas e surpreendentes entre coisas desligadas, trocadilhos constantes, tornavam o seu discurso muitas próximo do discurso dos doentes esquizofrénicos. Patologia que Adília alegadamente sofre e que tornou pública, tal como a sua diabetes.

 

Ora, independentemente da sua obra poética e do valor dela, Adília Lopes assumiu, na cidade literária portuguesa, o papel de louca da casa. Se há campo onde a loucura é tantas vezes confundida com genialidade e os loucos com artistas geniais, esse campo é a arte, em especial a literatura e a poesia. Temos toda uma comunidade de grandes autores que passaram a vida a entrar e a sair de hospitais psiquiátricos:Samuel Beckett, Robert Walser, Leopoldo Panero, Ezra Pound, Virginia Woolf, só para citar alguns. O artista marginal, louco, mas genial do século XIX transformou-se no artista genial porque louco do século XXI. A máquina mediática ávida de novidades e excentricidades faz o resto, e eis que o valor de uma obra é tantas vezes indexado ao grau de loucura, marginalidade ou irreverência do seu autor.

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Qualquer coisa que este artista diga ou escreva é imediatamente investida de significados maior, mais profundos, inacessíveis aos comuns. Só este tipo de mitificação justifica que Tolentino de Mendonça e Pedro Mexia tenham incluído Adília Lopes na antologia Verbo — Deus como Interrogação na Poesia Portuguesa, dando como exemplo dessa interrogação o haiku (?) “Não me basta/este jacarandá”. Tal como só este tipo de mitificação justifica a forma reverente e acrítica com que a obra de Adília tem sido recebida nestes últimos anos, fazendo com que os seus grandes momentos e os seus momentos menores se equivalham. Fazendo com que o que ela faz de muito bom desapareça em pequenos fait-divers como escrever “dança” com S.

Ora, a grandeza de Adília Lopes, aquilo que ela já nos deu e deu à poesia e à língua portuguesa, exige e merece a nossa crítica e nunca a nossa condescendência.