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A atleta que descobriu o "jeito" para a maratona está a um minuto e 20 segundos de Rosa Mota

À segunda maratona que correu, no domingo, em Praga, Sara Moreira conseguiu o terceiro melhor tempo na história das atletas portuguesas: "Quis ver se o resultado de Nova Iorque tinha sido por acaso"

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Sara Moreira acabou a primeira maratona em que participou no terceiro lugar. Foi em Nova Iorque. No domingo conseguiu o segundo lugar na maratona de Praga e alcançou a terceira melhor marca de sempre de atletas portuguesas

DON EMMERT/AFP/Getty Images

Sara Moreira acabou a primeira maratona em que participou no terceiro lugar. Foi em Nova Iorque. No domingo conseguiu o segundo lugar na maratona de Praga e alcançou a terceira melhor marca de sempre de atletas portuguesas

DON EMMERT/AFP/Getty Images

Não estava à espera, nada mesmo. Andara nove meses parada, de barriga cheia pela gravidez que lhe dissera para esquecer a corrida. Sara Moreira obedeceu e ficou quieta porque, afinal, ia ser mãe. Mal o filho nasceu voltou a calçar os ténis, a vestir roupas leves e a correr. Muito. Ao início custou-lhe “bastante”, e depois de outros noves meses a treinar até mais não, sentiu que “ainda precisava de correr mais quilómetros para recuperar” a forma física que a gravidez enferrujara. Foi aí que apareceu o convite que a fez pensar, “porque não?”. Aceitou, treinou mais, apanhou um avião, aterrou em Nova Iorque e de lá saiu com uma medalha de bronze pendurada ao pescoço. Sara Moreira acabara de ser a terceira mais rápida a correr 42,195 quilómetros.

Foi a primeira vez que experimentou a maratona — em novembro do ano passado — e conseguiu logo um terceiro lugar. Era uma surpresa, e das grandes, para quem andava à caça de medalhas apenas em provas de 3.000 e 5.000 metros. Por isso, Sara ficou com uma dúvida a morar-lhe na cabeça. Quis “ver se o resultado de Nova Iorque tinha sido um acaso” ou se “realmente tinha alguma aptidão para isto”. Queria correr outra maratona para chegar a uma conclusão e descobrir “o que o futuro ditava”. Pelos vistos, ditava-lhe sucesso. Porque, este domingo, Sara Moreira foi a Praga e, na capital da República Checa, conseguiu ser a segunda mais rápida a percorrer os mesmos 42,195 quilómetros.

Fantástico 2º lugar e excelente record pessoal num percurso nada fácil para mim. Estou muito feliz, no dia da Mãe e...

Posted by Sara Moreira - Página Oficial on Sunday, 3 May 2015

Demorou duas horas, 24 minutos e 49 segundos a fazê-lo, quase o mesmo tempo que, de carro, se demora de Lisboa até ao Porto, se o condutor tiver pé pesado. E foi com este tempo que Sara Moreira conseguiu a terceira melhor marca portuguesa de sempre numa maratona feminina, ficando apenas atrás de Rosa Mota e Jéssica Augusto. “Cheguei à conclusão que, realmente, tenho algum jeito”, diz, denunciando na voz um riso ligeiro, depois de atender a chamada do Observador. “Gostei muito de voltar a correr uma maratona, de a terminar, e de, além de conseguir um recorde pessoal, ficar no top das melhores de sempre”, confessa, para logo depois admitir que, tanto em Nova Iorque, como em Praga, “nunca [pensou] que fosse correr tão bem”. Mas correu. E tão grande foi a corda que Sara Moreira deu às pernas que ficou a apenas um minuto e vinte segundos do recorde pessoal que há 30 anos Rosa Mota conseguiu em Chicago, nos EUA.

Três dias antes daquele 20 de outubro de 1985, nascia Sara Moreira, em Roriz, que na altura era uma aldeia e hoje já é uma vila. Assegura que não está obcecada em bater as 2h23m29s da primeira portuguesa a vencer o ouro olímpico, embora não negue: “Gostava de bater a marca, se possível, já este ano.” Pelo simbolismo. “É um grande recorde e já existe há 30 anos, precisamente a minha idade. Mas não me vou preparar especificamente para esse resultado acontecer”, explica. Caso, de facto, o recorde mude em 2015 para as pernas de Sara, tal acontecerá à terceira maratona em que a atleta participará. E até poderá ser na cidade onde se estreou. “É provável que este ano ainda corra uma maratona e, a acontecer, poderá ser em Nova Iorque. Pelo facto de o ano passado ter sido terceira, à partida, a organização vai gostar que eu esteja presente”, calcula, esperando, por isso, que outro convite apareça na caixa do correio.

Enquanto o convite chega e não chega, a prioridade é descansar e, depois, preparar as provas de pista ao ar livre às quais está mais habituada. Em agosto há Campeonato do Mundo de Atletismo, na China, e Sara Moreira quer treinar no duro para de lá sair com medalhas. Esse treino, porém, será diferente dos que lhe costumam puxar pelo corpo quando a missão é preparar uma maratona. “O espírito faz toda a diferença. Tem que se ter muita determinação, querer e sacrifício. São muitas horas a correr e muitas vezes sozinha. Quando preparo uma maratona o pensamento é: ‘O treino tem que se fazer.’ E meto na cabeça que ele é para levar até ao fim, seja a um ritmo mais rápido, ou mais lento”, revela, com as palavras a abarrotarem de determinação.

Mas quando se pede às pernas que corram 42 quilómetros é costume vê-las ficarem rezingonas. A responderem com cansaço e a ganharem quilos de peso a cada metro galgado na estrada. É por isso que Sara confirma que, nas maratonas, não se luta apenas contra o tempo. “Lutamos contra nós próprios. Às vezes o corpo não quer e estamos cansados, mas somos nós que ditamos o resultado final”, argumenta, confessando que se obriga sempre a terminar o que começou: “Penso: ‘Vá, vamos, tem de ser, vou mais devagar, ok, mas vou acabar isto.” E foi esta mentalidade que, para já, a ajudou a terminar no pódio das duas únicas maratonas em que participou.

“Aceitei o convite [de participar na maratona de Nova Iorque] porque vinha de uma paragem longa, da gravidez. Inicialmente custava-me bastante correr durante tanto tempo. Ao final de nove meses, em agosto, sentia que precisava de mais quilómetros para recuperar. Encarei como uma motivação extra ter o Gui [filho], ainda por cima corri no fim de semana em que ele fazia anos. Tinha que fazer valer a pena o facto de não estar com ele no seu aniversário.”

Sara não cresceu na estrada. A portuguesa fez-se atleta nas pistas, cobertas e ao ar livre. Foi nelas que tocou nas primeiras medalhas. Ganhou uma de Ouro em 2013, nos 3.000 metros em Gotemburgo, já depois de ter sido Prata nos Europeus de 2009, em Turim (também nos 3.000), e nos de Barcelona, em 2010, nos 5.000 metros. Foi nessa distância que, em 2012, em Helsínquia, também conquistou uma medalha de Bronze. Agora já tem mais duas em casa e deve um par de ‘obrigados’ à maratona. Por isso, eis a questão: em que prova dará corda às pernas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016? Nem Sara Moreira sabe, por enquanto. “Não está definido. Inicialmente, a aposta para o Rio seriam os 10.000 metros, mas a maratona trocou-me as voltas e, portanto, é provável que lá esteja. E se estiver nestes, nos próximos também deverei estar”, responde, sem certezas, mas com esperança de sobra de ter energia suficiente para, depois, ainda competir em mais duas Olimpíadas (2020 e 2024).

Caso tal aconteça, Sara ficará com mais um sorriso na cara. Dos rasgados. “Significaria que teria 20 anos de desporto ao mais alto nível. Não sei se vou conseguir, mas vejo-me a correr até muito próximo dos 40, acho bem possível”, prevê, desconhecendo quando irá a aventura acabar, mas não esquecendo quando ela começou. “Foi como tantos outros miúdos. Estava na escola primária, fomos fazer um corta-mato e ganhei. Nesse dia comecei a correr sem saber sequer o que era o atletismo ou a corrida a sério. Não foi nada planeado ou pensado”, sublinha, reforçando que, à imagem e semelhança da maratona, tudo foi acontecendo “por acaso”.

O acaso, entretanto, já se transformou em “jeito”. E agora é ver se nesse jeito haverá gasolina suficiente para Sara Moreira queimar o tempo que, por enquanto, ainda a separa do recorde de Rosa Mota: um minuto e vinte segundos.

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