A Amazon, o gigante das compras online, está debaixo de fogo. Tudo começou quando o The New York Times publicou um artigo sobre as condições de trabalho na sede desta empresa fundada por Jeff Bezos — ele que, graças ao sucesso da Amazon, é considerado a quinta pessoa mais rica do mundo pela revista Forbes.

Depois de entrevistar mais de cem trabalhadores da Amazon (alguns ainda lá trabalham e outros já saíram), foi desta forma que o The New York Times descreveu o ambiente de trabalho na empresa de Seattle:

“Na Amazon, os trabalhadores são encorajados a destruir as ideias dos outros nas reuniões, a trabalhar durante longas horas (os e-mails chegam depois da meia-noite, seguidos de SMS a perguntar porque é que não houve resposta) e obrigados a seguir padrões de que a empresa se orgulha de serem “irrazoavelmente altos”. A agenda telefónica explica como é que os colegas podem dar feedback aos patrões uns dos outros. Os trabalhadores dizem que este sistema é frequentemente usado para boicotar os outros.”

Esta é apenas uma de várias descrições que surgem neste artigo, onde várias pessoas (algumas dando o nome a cara) falam de viva voz sobre as suas experiências. Há quem não tenha “dormido durante quatro dias seguidos” e que, devido ao stress, ficou com úlceras; uma mulher que teve cancro na tiroide recebeu uma nota baixa (os trabalhadores são avaliados diariamente); outra teve um aborto espontâneo e mesmo assim fez uma viagem em trabalho no dia seguinte porque o chefe lhe disse “desculpa, mas o trabalho continua a ter de ser feito”; e outro fala do medo que sentia a cada e-mail que recebia do CEO e fundador da Amazon, Jeff Bezos: “Que os céus te livrem de receberes um e-mail do Jeff (…). É como teres o CEO da empresa na tua cama às 3 da manhã a vigiar-te cada movimento”.

Tolerância para “falta de empatia tem de ser zero”

O retrato do The New York Times foi, pois, tudo menos simpático para a Amazon. Pouco tempo depois do artigo ter sido publicado, Jeff Bezos, que fundou a empresa em 1994, enviou um e-mail a todos os funcionários da empresa:

“O artigo do The New York Times conta vários episódios que contêm práticas de gestão cruéis e chocantes, incluindo pessoas a serem tratadas sem empatia enquanto atravessam tragédias familiares e problemas de saúde sérios. O artigo não descreve a Amazon que eu conheço e os amazonianos com que eu trabalho todos os dias”

Na mesma mensagem, Bezos, que também é dono do jornal Washington Post, deixou um pedido aos seus assalariados: “Se souberem de histórias como aquelas que estão no artigo, quero que as reportem ao departamento de recursos humanos. Também podem enviá-las diretamente para o meu e-mail: jeff@amazon.com. Mesmo que sejam casos raros ou isolados, a nossa tolerância para este tipo de falta de empatia tem de ser zero“.

Antes de Bezos, já um outro funcionário da Amazon, o chefe do departamento de infraestruturas, Nick Ciubotariu, tinha reagido ao artigo do The New York Times. Num texto publicado na sua página de Linkedin, Ciubotariu disse que a reportagem que está na origem deste debate era “um pedaço de jornalismo horrivelmente mal informado”. De seguida, refuta várias das conclusões do artigo assinado pelos jornalistas Jodi Kantor e David Streitfeld. Ainda assim, reconhece que as coisas nem sempre foram as melhores na Amazon:

“Nós somos uma empresa humana que se preocupa com os seus funciónários. Talvez não o tenhamos sido no passado — mas mesmo que não o quiséssemos ser, temos de sê-lo. Porque não somos os únicos em busca de talentos e toda a gente quer [ficar com] os excelentes profissionais que nós nos esforçamos tanto para contratar. E os melhores dos melhores têm sempre escolha, e podem dar-lhe uso rapidamente se quiserem.”

Armazéns sem ar condicionado e com 45 graus

Esta não é a primeira vez que uma reportagem denuncia as más condições de trabalho na empresa de Jeff Bezos. Em 2011, o The Morning Call, um jornal local no estado da Pensilvânia, publicou um artigo sobre um armazém da Amazon em Lehigh Valley. Além das longas horas de trabalho, a maior parte das queixas dos empregados e ex-trabalhadores que lá trabalhavam iam contra o calor sentido dentro do armazém. No verão, as temperaturas chegavam a bater nos 45 graus celsius.

“Durante as ondas de calor no verão, a Amazon tratava de ter ambulâncias com paramédicos estacionadas à porta, pronta para tratar trabalhadores em desidratação ou que demonstrassem outros sintomas devido ao calor excessivo. Aqueles que não conseguiam recuperar na altura eram mandados para casa ou levados em macas ou cadeiras de rodas para hospitais da área. E a seguir havia pessoas prontas a começar a trabalhar [no lugar deles] a qualquer momento.”

Depois desta reportagem ter sido publicada, a Amazon colocou ar condicionado dentro do armazém de Lehigh Valley.

Provedora do leitor do NYTimes critica artigo

A provedora do leitor do The New York Times, Margaret Sullivan, reagiu ao artigo com um texto onde questionava a maneira como ele foi feito. Inicialmente, refere que as práticas descritas na reportagem que fez manchete na segunda-feira “são comuns noutras empresas tecnológicas e noutras empresas em geral”. No dia seguinte, o jornal voltou a trazer o assunto à primeira página. Em vez de afunilar o tema à Amazon, falou no geral, mencionando o “ritmo implacável das empresas de elite”. Sullivan acredita que esse devia ter sido o tom do artigo original.

Ainda assim, a maior crítica da provedora do leitor do jornal nova-iorquino vai para o recurso constante a relatos “episódicos” narrados por fontes anónimas (o que, do ponto de vista legal ou da empresa, torna impossível verificar a sua autenticidade). Para Sullivan, o artigo “não levantou questões sérias quanto a factos puros e duros”, concluindo que “para um resultado tão forte, apresentado de forma dramática, não me parece que isso chegue”.

Dean Baquet, diretor executivo do jornal, refutou esta crítica: “Rejeito a ideia de que se possa escrever uma história destas de outra forma que não passe pelo recurso a relatos episódicos. Fala-se com o maior número de pessoas possível e daí tira-se conclusões. É a única maneira de abordar o assunto“.