Em 1999 surgiu uma onda de denúncias que abalou a comunidade eclesiástica irlandesa e mundial. Descrevia abusos em escolas, orfanatos e instituições dirigidas por freiras e membros da comunidade católica da Irlanda. Em resposta a esta situação, o Governo irlandês decidiu, em 2002, criar um comité especial com o objetivo de fixar compensações para as vítimas dos abusos, com uma condição: de que não falassem em público sobre o sucedido. Os custos legais deste processo superaram os 215 milhões de dólares (quase 200 milhões de euros).

Apesar disso, uma das vítimas veio agora contar aquilo por que passou, durante a década de 60, num instituto dirigido pela Igreja católica em Dublin, onde esteve entre os 6 e os 11 anos de idade.

O relato, contado pela BBC, é de “Irene Kelly”, nome escolhido para proteger a sua identidade, que revela: “Quando cheguei ao orfanato vi a crueldade chegar mais longe do que alguma vez imaginei.”

Eventualmente levavam-me para a creche. Aí foi onde começaram a abusar de mim sexualmente. Chegou a um ponto onde já não podia aguentar mais essa situação. Assim, um dia pus os meus dedos dentro de uma tomada de eletricidade.”

Depois desta ocorrência, Irene conta que a única coisa que se lembra é de ter acordado com um médico ao lado da cama. Depois de este lhe ter perguntado o que tinha acontecido, a menina disse que toda a crueldade e dor provocaram aquela situação. Assim que ouviu estas palavras uma freira afirmou ao mesmo médico que “se disse isto, esta menina é um demónio. O diabo está dentro dela.”

Essa frase marcou-a. Na opinião desta vítima, a Igreja Católica devia estar envergonhada com estes casos.

Destruíram a vida de tantas gerações de crianças. Nunca quis uma família, nem casar-me ou ter filhos, porque para mim o mundo era um sítio cruel.”

Mas tudo mudou quando ficou grávida pela primeira vez. Segundo conta a própria, o nascimento do primeiro filho mudou a sua maneira de ser. Começou a perguntar-se como é que “alguém pode abusar de um ser tão pequeno que depende de ti para tudo.” Admitindo também que, a princípio, estava com medo de ferir o filho ou de ser uma “má mãe.”

Aquando da formação do comité especial para as compensações, Irene conta que, pela primeira vez, sentiu que “podia deixar tudo para trás” e seguir com a sua vida. No entanto, quando assistiu à primeira reunião, ficou de tal maneira enfurecida que disse que “não queria o maldito dinheiro. A única coisa que queria era um pedido de desculpas.”

Irene é autora de um livro titulado “Pecados de uma mãe”, onde conta, na primeira pessoa, toda a experiência no orfanato irlandês.