“Olhe que o doutor Marinho e Pinto afinal não vem”, adverte João Marrana, o cabeça de lista de Setúbal pelo Partido Democrático Republicano (PDR), antes de partir para mais uma ação de campanha. O candidato de 50 anos está na estação fluvial do Terreiro do Paço, em Lisboa, prestes a apanhar um barco para o Barreiro — travessia essa que seria feita com o líder do PDR, António Marinho e Pinto, a bordo. Só que, à última hora, cancelou. “Ele está doente, febril”, nota Edgar Vaz, membro da comitiva do partido. “O homem não anda bem, eu noto que ele anda cansado. Tem sido sujeito a um desgaste bastante intenso com esta campanha”, revela, com pesar. “Está com 38 graus de febre em casa”, informa outro militante. Isto é, em Coimbra. O seu distrito.

Seu é, aqui, e com o PDR, palavra-chave, conforme explica João Marrana, já a bordo do barco que o leva ao Barreiro — isto é, no seu distrito de Setúbal. “O nosso partido não está aberto a esses paraquedistas”, diz, referindo-se aos candidatos à Assembleia da República que concorrem num distrito onde não habitam nem cresceram. “Eu entendo que estas eleições, que são de são de âmbito nacional, também são eleições regionais. Os eleitores de Setúbal que me elegerem, saberão que eu estou lá para os representar primeiro de tudo a eles.”

Já do outro lado do rio Tejo, no Barreiro João Marrana e a comitiva de meia dúzia de militantes é recebida por um grupo maior de congéneres. São cerca de 15 militantes, a maior parte deles erguendo bandeiras pretas e brancas, com o logótipo do PDR. E é nos mesmos tons em que uma imagem de Marinho e Pinto é apresentado nas tshirts que alguns vestem. Além disso, há uma carrinha de campanha, com uma fotografia, agora a cores, do ex-bastonário da Ordem dos Advogados. Da viatura, umas colunas de som fazem soar a voz de um homem que fala de um país que é uma “salgalhada”.

João Marrana, ao centro, de casaco, em campanha no distrito de Setúbal, onde é cabeça de lista pelo PDR

João Marrana, ao centro, de casaco, em campanha no distrito de Setúbal, onde é cabeça de lista pelo PDR

Por entre esta pequena multidão também está o cabeça de lista do PDR por Lisboa, o coronel Rodrigo de Sousa e Castro, antigo capitão de abril e também um dos responsáveis pelo 25 de novembro. “Eu peguei em armas em 25 de abril de 1974 e em 25 de novembro de 1975 para defender a democracia e a Constituição. [E agora] eu venho para a rua defender a democracia, que está absolutamente adulterada.

Aos jornalistas presentes no local (além do Observador, apenas a TSF esteve lá), o antigo militar de 71 anos deixou queixas aos… jornalistas. “É a primeira vez que alguém me vem perguntar ‘quem é o senhor?’ (…). Finalmente descobriram que existe um coronel do 25 de abril e do 25 de novembro que encabeça uma lista [de um partido] que concorre em todos os círculos e que a Constituição manda que seja tratada com a mesma dignidade democrática e amplitude com que tratam de Passos e Costa, Costa e Passos, que é uma espécie de Kim Il Sung em duplicado que nos entra por casa todos os dias de manhã à noite.”

Para Sousa e Castro, uma consequência desta cobertura “desigual” da campanha do PDR é que “as pessoas não identificam muitas vezes o PDR como o partido do doutor Marinho e Pinto”. Designação esse que considera correta e que pediu aos jornalistas que a dissessem mais vezes. “É o PDR: o partido do doutor Marinho e Pinto.”

Rodrigo de Sousa e Castro, cabeça de lista do PDR em Lisboa

Rodrigo de Sousa e Castro, cabeça de lista do PDR em Lisboa

Ainda assim, Sousa e Castro está confiante de que vai ser eleito, porque “as pessoas informadas” sabem distinguir entre pessoas “honestas” e as “desonestas que durante os últimos 30 anos têm roubado este país permanentemente”.

Como tal, retira a importância à generalidade das sondagens, que não apontam nenhum assento parlamentar para o PDR. “Prognósticos só no fim do jogo”, diz o capitão de abril, que acredita que no fim, “quando saírem os resultados, ainda vai haver muita surpresa“. Ideia semelhante tem o mandatário do PDR no distrito de Setúbal, Salomão Caridade. “Na rua, de dez pessoas com quem falamos, nove querem votar no partido do doutor Marinho e Pinto”, garante.

Enquanto isso, e pouco tempo antes de a comitiva partir em direção ao jardim Catarina Eufémia, a carrinha de campanha passa a música “Pedra Filosofal“, cantada pela voz de Pedro Barroso, o homem que celebrizou o poema de António Gedeão e que também é concorrente pelo PDR, no seu distrito de Santarém: “Eles não sabem que o sonho / É uma constante da vida / Tão concreta e definida / Como outra coisa qualquer”.