Por vezes, o primeiro amor é o único amor. Há quem encontre a pessoa “certa” muito cedo na vida, no auge de uma adolescência por norma regada de encontros e desencontros amorosos. Basta procurar no nosso círculo de conhecidos: é relativamente fácil saber de amigos de amigos que começaram a namorar ainda em adolescentes para hoje serem amantes, pais e companheiros. Daí que haja uma pergunta a fazer: o que faz durar o amor entre duas pessoas que cresceram juntas?

Já antes a psicóloga Cláudia Morais explicava ao Observador quais os segredos das relações duradouras, desde o apoio mútuo ao elogio em público, passando ainda pela valorização dos rituais. Mas a “resposta para queijinho”, como se costuma dizer num jogo de Trivial Pursuit, remete para uma questão de mérito ou de sorte que apenas pode ser discutida por quem vive estas relações.

Por esse motivo, falámos com quatro casais que, em comum, têm histórias de amor que começam agora a ganhar os primeiros cabelos brancos e a ter algumas barbas por aparar — dos miúdos que andaram no mesmo liceu e fizeram uma vida a dois, às “longas cartas de amor” trocadas em tempos de guerra.

“Qualquer dia já vai haver mais vida com ele do que sem ele”

“Começámos a falar no mIRC. Somos de outra era.” Mariana Fernandes tem apenas 30 anos, mas talvez a perceção do tempo seja diferente quando se partilha metade de uma vida com outra pessoa (isso ou o facto de o mIRC já ter completado duas décadas). A account ainda se lembra de como eram os dias sem Tiago Corte Real: num abrir e fechar de olhos vai de encontro à sua versão de 15 anos, quando mochila às costas e aspirações na algibeira faziam parte do dress code. Foi precisamente nesta altura que começou a trocar mensagens escritas com o rapaz dois anos mais velho do que ela e com fama de libertino.

Pelos devaneios do mIRC nunca houve necessidade de perguntar “dd tc?” (“de onde teclas?”) porque ambos frequentavam o mesmo liceu, no Estoril. Conheciam-se de vista, mas eram tímidos nas palavras e nos gestos presenciais, reservando conversas do foro mais íntimo para o universo virtual. “Já nos devíamos ter visto, mas os primeiros contactos foram no mIRC. Foi há muito tempo e de certeza que foi ele a falar comigo primeiro”, atira Mariana, ao mesmo tempo que solta uma gargalhada enérgica do lado de lá da linha do telefone. “Nunca tive namorado nenhum, nem beijinho na boca, eu era uma tontinha”, diz, para justificar a falta de iniciativa.

Mariana era (e é) extrovertida, o centro da festa quando festa havia, o bobo da corte no melhor dos sentidos, “louca” por vezes. Mas no que tocava às lides do coração sentia-se inexperiente por vontade própria. Conta que o grupo de amigas estava habituado às “curtes”, mas que ela tinha outros planos em mente: “Não conseguia estar uma noite com uma pessoa e na seguinte com outra. Estava à espera de encontrar o príncipe encantado.”

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Mariana Fernandes e Tiago Corte Real

E o príncipe encantado por lá andava, a cruzar-se com a adolescente sonhadora nos intervalos de uma mesma escola. Não tinha armadura polida ou cavalo branco e, como Mariana faz questão de dizer entre risos, era “fresco”. “A primeira vez que estivemos juntos foi numa festa de Halloween que dei em casa. Foi a 31 de outubro de 2001”, recorda sem hesitar. “Já falávamos e já éramos amigos. Foi aí que demos o primeiro beijinho, pelo que passei logo a achar que já era namorada dele. Mas ele era fresco. Continuava com a frescura para todo o lado”, diz divertida. Poucos meses depois começaram a namorar para nunca mais pararem: “Começámos a namorar na praia da Poça [em São João do Estoril]. Lembro-me de ele dizer: ‘Estou farto de brincadeiras. Se quiseres andar comigo é para casar.’ Era conversa da treta, mas por acaso teve sorte.”

Mariana e Tiago estão juntos há 14 anos (incluindo dois enquanto marido e mulher). Garantem que foi uma questão de sorte terem-se encontrado mas não negam o esforço que trouxeram para a relação, até porque cresceram juntos e tornaram-se parte da família um do outro. É aqui que Mariana interrompe o discurso para fazer contas de cabeça: diz ter 30 primos e que o agora marido viu 15 deles nascer e crescer. “

“No fundo, ele é mais um irmão ou um primo da família. Fomos desenvolvendo as nossas vidas moldando-nos um ao outro. Qualquer dia já vai haver mais vida com ele do que sem ele”, diz num tom ligeiramente orgulhoso.

A cumplicidade do casal-mascote para um mesmo grupo de amigos foi forja do tempo, das circunstâncias e da vontade de ambos, pelo que a account que antes foi weeding planner queixa-se de quem a acusa de ter uma relação fácil, como se o duo fosse imune aos problemas do dia-a-dia: “Quando tinha amigas com problemas com namorados, diziam-me sempre que para mim era tudo fácil. Eu era julgada por acharem que não havia mérito nenhum”, argumenta. Mas nem só de suor e regras se constrói uma história de amor: “Nunca senti falta de conhecer outras pessoas. Penso sempre o contrário, que foi uma sorte ter acertado à primeira.”

“É preciso perdoar muita coisa”

“É mérito ou sorte?”, perguntamos logo a abrir. A resposta também vem do telefone: “Trabalhamos juntos. Não é fácil, ainda dá mais trabalho. Ui…”, responde Florbela Simões, a interjeição no final da frase a denunciar uma língua afiada.

Foi nas matinés da aldeia — em que a música servia de banda sonora para os fins de tarde de domingo — que ela conheceu o futuro marido, já lá vão mais de 20 anos. Numa das poucas incursões que fez à terra vizinha para ir abanar o capacete, na zona de Leiria, Florbela foi apresentada a Albano, o rapaz quatro anos mais velho do que ela e que “andava atrás” de uma amiga sua. Desfeito o engano, e depois de alguns slows dançados a dois, os adolescentes haveriam de partilhar o primeiro de muitos beijos.

Tímida, com borboletas na barriga a servirem de sintomas para a paixão e ligeiramente receosa. Foi assim que Florbela viveu os primeiros tempos da relação mais séria que já teve, fora “alguns beijinhos aqui e acolá”. Na falta de uma figura paternal — o pai morrera anos antes –, eram os dois irmãos mais velhos que serviam de guarda-costas: “Eles andavam sempre em cima de mim. Ui… Quiseram logo saber quem o Albano era, ver se ele era um rapaz atinadinho”. Para sorte de todos, Albano era (e é) “bom rapazito”.

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De beijinhos inocentes a apoio mútuo. Se ao início Florbela era muito reguila, com o tempo a pacatez de Albano haveria de a domar um pouco. Mas falar de feitio é pouco, com ela a lembrar-se de que foi o marido quem lhe ensinou a conduzir — ao contrário do irmão guarda-costas que, numa primeira tentativa, ia perdendo a paciência e a cabeça — e que os dois passaram inúmeros sábados a construir os muros daquela que seria a casa de família, que agora alberga também as duas filhas de sete e 14 anos.

Apesar do apoio, não faltaram momentos de tensão. Sobretudo depois de o marido ter empenhado poupanças e energias naquele que é o seu negócio atual, a oficina de automóveis onde Florbela também trabalha. “Ao fim de dez anos começámos a trabalhar juntos e aí é que começámos a discutir. Porque ele queria mandar, queria que eu cumprisse o horário certinho… Graças a Deus já nos entendemos.” Mas não é só entre as quatro paredes do escritório que existem desafios:

“Tem de se perdoar muita coisa e defeitos todos temos. Há coisas que eu não gosto, mas não me vou ralar nem vou fazer drama por causa disso. A ideia é falar a bem. Todos os dias a relação foi-se construindo. A gente pensa ‘vou casar, vou ser feliz’, mas temos de fazer a outra pessoa feliz também, não podemos ser egoístas.”

Hoje com 40 anos de vida e 23 de união, Florbela não hesita em fazer uma comparação de valores: “Hoje em dia já não se pensa assim, mas antigamente quando se começava a namorar era para se casar. As pessoas queriam que desse certo. Nunca me passou pela cabeça que isto fosse passageiro.”

E, ao fim de tantos anos, ainda há paixão. “A gente, só por estar casada, não se pode desleixar. É importante acharmos a outra pessoa bonita.” É por isso que Florbela faz questão que o marido, o rapaz “atinadinho” de outros tempos, ande sempre “arranjadinho”. Caso contrário, “ui”…

“Nós envergonhamos as 50 Sombras de Grey”

Trinta e três ou 34 anos. Joaquim Leonardo não sabe precisar ao certo há quanto tem Ana Paula Leonardo a seu lado. Mais depressa do que fazer contas, atira: “Já estamos há mais tempo juntos do que separados.” Começaram a namorar quando ela tinha 14 e ele estava prestes a fazer os 18 e, à semelhança dos outros testemunhos, o que começou como um amor de adolescentes evoluiu para um compromisso para a vida.

A história de Joaquim Leonardo tem aquele encanto de uma aldeia pequena quando visitada pela primeira vez. Os dois moravam na mesma rua e cresceram juntos. Joaquim ainda se recorda das festas que, à falta de melhor, eram organizadas nas garagens locais. E foi num desses momentos de convívio entre as gentes de palmo e meio da terra que o agora militar aposentado olhou pela primeira vez para a amiga de forma diferente. De repente, diante de si já não estava uma simples adolescente, antes uma mulher, a sua futura mulher: “Achei (e acho) a Ana Paula bonita. Aquilo começou a despoletar, mas tínhamos a barreira dos amigos e da idade. No princípio foi difícil de assumir o namoro.”

É certo que podem ter existido entraves, mas isso não impediu um jovem Joaquim de pulmões cheios de coragem de convidar a amiga para um primeiro encontro. “Essas coisas acontecem nas férias de verão”, conta, à medida que vai introduzindo mais imagens no discurso: a casa dos avós na Beira Baixa, um passeio ao fim da tarde e um pôr-do-sol a servir de companhia a um casal de apaixonados. Foi ele quem teve a iniciativa e ainda hoje garante que se recorda do local do primeiro beijo, apesar de não o querer partilhar. “Para os nossos pais foi um pouco um choque porque nós supostamente éramos só amigos.”

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Trocadas as primeiras juras de amor, não demorou muito a que Joaquim ingressasse na Armada, ao mesmo tempo que Ana Paula começava a sua formação profissional (atualmente é informática). Foi nas longas e duras viagens por esses mares fora — o militar esteve na primeira e segunda guerra do Golfo — que o casal se comprometeu a trocar correspondência, isto é, a escrever “aquelas longas cartas de amor” tal como Joaquim faz questão de dizer: “Na carta colocavam-se os sentimentos de outra forma, era mais profundo.” Os regressos a casa e à companheira, esses, eram ainda melhores. “Ia esperar-me à base naval de Lisboa”, conta, descrevendo um cenário digno de um Pearl Harbor com direito a final feliz.

Tantos anos e dois filhos depois, o militar habituado a regras rígidas diz que o segredo de uma relação feliz é a tolerância e a adaptação. “Costumo dizer que o casamento é uma sociedade: ao fim de um ano tem de dar lucro” — por “lucro” entenda-se felicidade. Talvez seja por isso que as zangas não passam de um dia para o outro, o que é tido como política do casal, e que quando há mais stress profissional, os dois fazem uma escapadinha: “Fazemos isto com muita frequência. Nós envergonhamos as ’50 Sombras de Grey'”, diz Joaquim, divertido.

Hoje, quem mais se dedica às lides da casa é o militar aposentado, responsabilidade que nem sempre lhe caiu bem. “Confesso que não sou muito talhado para isso, mas a pouco e pouco fui descobrindo como se cozinha e como se faziam outras coisas.” O processo de aprendizagem não terá durado muito, com Joaquim a ser o cozinheiro de serviço e a pessoa que trata das compras. Diz-se um “pau para toda a obra” que vai tomando a “pílula da juventude” de cada vez que dá aulas de voleibol (um hobby que leva muito a sério). “Os papéis inverteram-se. Antigamente era o contrário, mas à medida que os miúdos foram crescendo ela foi ficando com menos tempo. Esta terá sido a adaptação mais difícil.”

“Esforçamo-nos por manter a relação. Nesse sentido dá trabalho”

Tudo não passaria de um namorico de dois meses, pensaram eles. Sem direito a beijo no primeiro encontro porque, defendia Ricardo Queijeiro no auge na sua adolescência, nos filmes de Hollywood os “beijinhos” só vinham depois. Ricardo era um rapaz tradicional, tanto que nessa primeira combinação a dois levou Elsa Sousa a um parque em Coruche habitualmente frequentado por “namoradinhos”. E se é certo que a manifestação de afeto demorou um pouco mais a chegar, o tempo provou ser coisa que não lhes iria faltar. Dezoito anos e uma bebé de poucos meses depois, o casal ainda está junto e não se imagina um sem o outro — um cliché que não deixa de ser verdade.

A distância foi a principal protagonista desta relação. Esteve lá quando ele foi tirar um curso técnico para longe, quando ela ingressou na faculdade e quando a vida profissional se intrometeu nos planos a dois. Foram os telefonemas diários e os fins de semana de visita que os salvaram, garante a administrativa de 33 anos. A típica borboleta no estômago, essa, foi perdurando ao longo dos anos pelo facto de o casal estar poucas vezes junto. “Aquela ansiedade que eu penso que seja paixão, aquela vontade de estar… “, recorda Elsa, que numa voz calma e discurso ponderado explica que os 18 anos de romance nem sempre foram um mar de rosas. “Tivemos fases em que foi complicado. Os dois esforçamo-nos por manter a relação e, sim, acho que nesse sentido dá trabalho.”

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Elsa Sousa e Ricardo Queijeiro / DR

Os períodos em que viveram separados um do outro foram um exercício de perseverança, se assim o pudermos chamar. Tanto Elsa como Ricardo confessam que em tempos tiveram “outras oportunidades” e que, algures na linha cronológica do tempo, terão pensado como seria a sua vida com outras pessoas. Foi tudo uma questão de foco, tal como Elsa faz questão de repetir ao longo da conversa: “Gostamos um do outro e estamos focados no que queremos. Esta é a pessoa que eu quero ao meu lado, com quem estou bem, que me completa, e acho que consigo abdicar de certas coisas [em prol da relação]”. Dito isto, adianta que nunca lhe fizeram falta outras experiências. “Se isto é para toda a vida? Vou ser sincera, gostava que sim, mas não sei o dia de amanhã.”

Já os dias passados estão bem na memória, sobretudo aquele em que o casal ultrapassou a porta da sua primeira casa em conjunto e uma outra etapa chegou. “É óbvio que tudo muda. É diferente partilhar tudo, cozinharmos juntos, saber que se chega ao final do dia e ele está lá. Se calhar volta a haver aquela borboleta. ” Ser mãe, conta Elsa, também fortaleceu a relação: “Primeiro há uma cumplicidade muito grande entre nós os dois, depois é ver a celebração da nossa relação. Ela [a bebé] é muito bonita, modéstia à parte. Costumo dizer que está aqui um trabalho de 18 anos, pelo que ela só podia ter saído perfeita.”

Partilhar a vida a dois, desde tão cedo, tem que se lhe diga. Não importa o contexto, as circunstâncias ou a idade, a resposta é igual para todos: é uma sorte encontrar a pessoa certa, mas dá trabalho manter uma relação. Qualquer que ela seja.