Ao quinto dia, as críticas. As dos outros candidatos já lá andavam, mas à chegada à metade da campanha, Marcelo Rebelo de Sousa abriu o livro, primeiro agravou o tom para falar das mudanças constantes nas políticas de educação, depois a resposta aos restantes candidatos. “Não estão bem a ver o filme”, disse. E o filme do dia passou-se entre propostas de referendos sobre questões de soberania nacional de Sampaio da Nóvoa e por Maria de Belém a defender também que o país deve falar mais grave na Europa. A campanha chegou a meio e a partir de agora é sempre a falar mais forte.

Marcelo e as críticas às políticas de António Costa

Educação, saúde e Segurança Social. Marcelo Rebelo de Sousa não quer mudanças constantes nestas áreas, quer consensos de regime e foi nesta ideia que carregou politicamente durante o dia desta quinta-feira. A bitola está mais ou menos acertada. “A minha opinião é que o Presidente deve ajudar nisso e que não pode mudar em todos os governos. Não pode mudar o currículo, o programa, o sistema de avaliação. Entra um governo e muda. Entra outro governo e muda. Às vezes no mesmo governo, de ano letivo para ano letivo mudava de ideias”, disse à hora de almoço para uma plateia de alunos em Alcabideche.

Subiu no mapa e nas críticas. À noite, na Lourinhã, juntou-lhe a saúde e a Segurança Social. Não se referiu a medidas concretas do Governo, nem se sabe se concorda ou não com elas, mas não quer ver tudo a mudar, pelo menos não se for eleito Presidente. “Não podemos programar uma rede de cuidados de saúde para o médio e longo prazo para com mudanças todos os anos, todos os quatro anos, todos os dois anos”. E também à Segurança Social. “Não podemos oferecer futuro, prometer previsibilidade desse futuro sem saber como é que é sustentável a Segurança Social para os menos jovens e para os mais jovens”, disse.

Esta quinta foi o dia em que Marcelo se aconchegou ao partido a que pertence “desde a fundação”. Falou nele por duas vezes. E foi também o dia em que decidiu responder às críticas dos outros candidatos dizendo que não o fazia. À la Marcelo, falando de fora na terceira pessoa, foi assim:

Àqueles que dizem “‘mas que campanha tão esquisita – sem séquitos à frente e séquitos atrás – com uma sandes’ – que eu já comia todos os dias – ‘essa campanha da marmita, tão solitária, tão despojada, isso é com certeza artificial’. Não só não me conheciam como não conheciam os portugueses. Estavam duplamente equivocadas. De repente apetece-me voltar a ser comentador e dizer: ‘Não me levem a mal, mas eu acho que não estão a ver bem o filme. Há uma campanha que é de um candidato com os portugueses e outras campanhas dos outros candidatos com um candidato em quem batem todos os dias’”

ELEICAO PRESIDENCIAL, MARCELO REBELO DE SOUSA,

Marcelo Rebelo de Sousa no Centro Neurológico Sénior em Torres Vedras. O quadro lá atras é de Paulo Teixeira Pinto

Nóvoa. Dia de pouco, véspera de muito

Não consta em nenhuma biografia, listagem ou entrevista que Sampaio da Nóvoa já tenha escrito um romance erótico. Pelas ideias que defende e os ideais que abraça, parece difícil que se venha a descobrir tal esqueleto no seu armário (mas também não sabíamos da veia erótico-poética de João Soares e o facto é que ela existe).

Na quarta-feira, Sampaio da Nóvoa esteve em Portimão e ali homenageou o único Presidente a quem conhecemos obra erótico: Manuel Teixeira Gomes, um homem de tal languidez que até a biografia oficial da Presidência tem dificuldade em escondê-la. A dinâmica da campanha de Nóvoa na quarta-feira — hiperatividade até — quase tornou mais plausível que descobríssemos uma faceta menos conhecida do candidato. O homem fez parar a caravana três vezes para cumprimentar pessoas, aceitou sem hesitar o desafio para dar toques na bola com o joelho, cantou com os mineiros de Aljustrel… ufff.

Diz a sabedoria popular que “dia de muito é véspera de nada” e quinta-feira parece ter dado razão a essa máxima. Sim, é certo que vimos um Nóvoa ao ataque a Marcelo, é certo que o vimos a defender a soberania nacional, é certo que o vimos em fábricas e num centro de estudo da cortiça a valorizar a inovação e o tecido empresarial português. Sim, é certo que se fizeram quase 400 quilómetros de campanha, mas o dia esteve longe do dinamismo de quarta-feira. Nóvoa quase não teve contactos de rua, poucas coisas disse aos jornalistas e, ainda por cima, viu um adversário questionar o seu percurso académico — um dos seus maiores trunfos.

Para sexta-feira, no Porto, o candidato volta à rua. E que rua, entre pescadores e feirantes. Talvez dia de nada também seja véspera de muito…

ELEICAO PRESIDENCIAL, CANDIDATO,

Sampaio da Nóvoa teve um dia mais morno

Maria e a tentação ali tão perto

“Não comento”. Declarações e estados de alma dos candidatos adversários? “Não comento”. Medidas acordadas entre a aliança das esquerdas? “Não comento”. Tensões entre o Governo de António Costa e os sindicatos? “Não comento”. A César o que é de César, insiste Maria de Belém. A regra é esta: “Uma candidata a Presidente da República não tem de estar a opinar sobre tudo e todas as coisas, nomeadamente quando são matérias de governação”. Tem sido quase sempre assim. Quase.

Quase, porque, ao quinto dia de campanha, Maria não resistiu. Desvio ligeiro num caminho sem mácula, é certo. Mas “às vezes é [mesmo] preciso cair na tentação”, reconhecia enquanto saboreava um dos famosos travesseiros do Café Piriquita (Sintra), no final da manhã.

Dois dias depois de se ter recusado a comentar as divergências entre Governo e sindicatos em relação à reposição das 35 horas de trabalho semanais, Maria de Belém falou. Não se comprometeu, é certo. Mas falou. Com uma ameaça de greve da CGTP a pairar sobre a cabeça de António Costa, a socialista pediu “concertação”. “É preciso diálogo”, começou por arriscar. Mas logo corrigiu o tom:

É um dossier que o Governo está a tratar e, portanto, acho que não há comentários a fazer. Ninguém deve interferir num processo negocial em curso e muito menos quem é candidato à Presidência da República ou quem é Presidente da República”.

É este o caminho que Belém escolheu para Belém. Linha reta, discurso único. Estou aqui para falar das minhas causas e não para misturar o papel de Presidente da República com o do Governo, repete de cada vez que alguém tenta sair do guião.

Esta quinta-feira, ainda assim, foi diferente. No encontro promovido pelo Instituto para a Promoção e Desenvolvimento da América Latina, em Lisboa, que juntou vários embaixadores, a socialista deixou de lado, por momentos, o fato de candidata a Presidente da República. E mordeu a maçã. Ou o travesseiro, neste caso.

Com a política externa no centro do debate, Maria de Belém foi clara. Sublinhou a importância que significa para Portugal ter uma voz mais ativa na Europa – afinal, só assim é que os interesses nacionais podem ser protegidos; falou na necessidade que o país tem de repensar o seu papel na NATO e na relação com os Estados Unidos, depois do quase esvaziamento da Base das Lajes; e até sobre o processo de adesão da Turquia à União Europeia, admitindo que tal deve ser “reanalisado” atendendo ao papel desempenhado por Istambul na crise dos refugiados.

Fugiu ao guião, mesmo lembrando que falava enquanto política e não enquanto candidata à Presidência da República. Um candidato a Belém não tem programa de Governo, insiste. Mas há quem pense diferente, acusa. Quem?

ELEICAO PRESIDENCIAL, MARIA DE BELEM ROSEIRA,

Maria de Belém em visita à empresa Estêvão Luís Salvador (Sintra)

Referendar questões europeias? Um sim, os outros logo se vê

A sugestão veio como resposta às imposições de Bruxelas, enquanto Sampaio da Nóvoa fazia campanha em Coruche. “Não aceitarei diminuições significativas da nossa soberania nacional sem que isso seja submetido a um debate alargado na sociedade portuguesa e um referendo”, afirmou o candidato aos jornalistas, depois de ter dito que “Portugal tem falta de debate” e que “muitas decisões importantes, mesmo na nossa História recente, foram tomadas com pouco debate”.

Não diz que a ideia é má, mas também não diz que é boa. É mais uma ideia que não faz sentido discutir agora. Podia resumir-se assim a reação de Marcelo Rebelo de Sousa. “Neste momento, há prioridades nacionais e o Presidente deve olhar para as prioridades nacionais e tudo aquilo que seja construir a estabilidade política, a governabilidade e os consensos de regime e unir o que está dividido. É prioritário. Depois haverá tempo certamente para divisões entre os portugueses. Este não é o tempo de mais divisões“, reagiu Marcelo Rebelo de Sousa.

Já Maria de Belém aproveitou para lembrar que o regime de referendos está “muito bem definido, quer na Constituição, quer na lei própria” e que, por isso, deve ser utilizado com parcimónia. Ainda para mais, quando o o dossier não está, sequer, em cima da mesa. “Como é evidente é uma coisa à qual eu não vou responder porque depende das circunstâncias”, atirou a candidata.

Não comenta, mas não perde a oportunidade de dar uma bicada a Sampaio da Nóvoa. “[Há] pessoas que desconhecem o regime de referendos” e que, por isso, “propõem referendos para tudo e para nada”. Maria de Belém explica: essas pessoas “desconhecem”, por exemplo, “que o regime legal do referendo implica, designadamente, a resposta à pergunta possa ser ‘sim’ ou ‘não'”. O que nem sempre é possível de “formular”, insistiu Belém. Capisce?