A comunidade científica e as organizações de saúde não se cansam de repetir que ainda não existe prova científica de que as infeções com o vírus zika nas mulheres grávidas provoque microcefalia nas crianças. Mas ninguém pode ficar indiferente ao facto de o número de casos de microcefalia ter aumentado muito desde que o surto se iniciou no Brasil. A verdade é que nos surtos anteriores ou nas regiões onde o vírus está bem disseminado não existem registos de tantos casos como agora. O Observador foi tentar perceber porquê.

Até dia 23 de janeiro já foram registados 4.180 casos suspeitos de microcefalia no Brasil, referiu um comunicado do Ministério da Saúde brasileiro. Destes, 270 foram confirmados como sendo microcefalia, 462 foram descartados e os restantes ainda estão sob investigação. Há seis casos de microcefalia que já foram diretamente relacionados com a infeção com zika.

As crianças com microcefalia apresentam um perímetro do crânio menor do que o normal para a idade, sexo ou em relação ao tamanho do corpo – 32 centímetros. Como o tamanho do crânio é condicionado pelo crescimento do cérebro, qualquer problema durante a formação do cérebro do feto pode levar à microcefalia. Este problema pode ser detetado durante a gravidez, com ultrassom, mas deve ser confirmado depois do nascimento. A microcefalia pode ser causada por outras infeções como sífilis, toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus ou herpes, mas também por defeitos genéticos ou caso a mãe tenha estado mal alimentada ou tenha abusado de substâncias tóxicas.

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O surto de zika que agora está a afetar o continente americano não é o primeiro no mundo: em 2007, na ilha Yap (Micronésia) cerca de 75% da população foi infetada; em 2013, houve 10 mil casos registados na Polinésia Francesa – de lembrar que apenas 20% das pessoas infetadas apresentam sintomas -; e em 2014 chegou a várias ilhas do Pacífico: Polinésia Francesa, Nova Caledónia, ilhas Cook e ilha da Páscoa (Chile).

Se se vier a demonstrar que as infeções com vírus zika estão relacionados com os casos de microcefalia, porque é que não foi encontrado nos surtos anteriores? E se está espalhado na Ásia há vários anos e em África provavelmente há milhares deles, porque é que nunca foram registados casos de microcefalia como agora?

Scott Weaver, virologista e investigador no Instituto de Infeções Humanas e de Imunidade, na Universidade do Texas, disse ao Observador que não existe só uma resposta para estas perguntas. Até porque, como “nunca se considerou o zika um patogénio importante”, não houve muito trabalho sobre o assunto.

Os surtos em África e na Ásia são raros, porque há uma parte da população está imunizada e o vírus acaba por afetar menos pessoas. “Em algumas zonas, 75% das pessoas apresentavam anticorpos contra o zika”, disse o virologista em relação a estudos feitos sobre a exposição à infeção. Scott Weaver acrescentou ainda que no Senegal “o vírus está sempre presente e as pessoas são infetadas com frequência”. Logo, é possível que quando as mulheres cheguem à idade de engravidar já sejam imunes ao vírus. Ou que os casos de microcefalia sejam tão poucos que não se note a diferença. Ou que nem se procure o motivo da microcefalia nos casos encontrados.

Pode ser apenas que o vírus tenha sido introduzido no momento certo, no local exato, numa população que nunca tinha sido exposta e por isso se espalhou mais facilmente. “Há muitas possibilidades e tudo isto vai demorar algum tempo a descobrir”, disse Scott Weaver. “Nem sabemos se as grávidas sem sintomas têm tanta probabilidade de passar aos fetos como as que têm sintomas.”

Scott Weaver apresenta algumas das muitas hipóteses para a situação de microcefalia, caso se venha a confirmar que foi mesmo causada pelo zika.

  • As populações da América do Sul nunca tinham sido expostas a este vírus e, portanto, não tinham anticorpos contra ele, logo ficaram mais expostas a todas as consequências, incluindo microcefalia;
  • A estirpe que afetou as populações na Ásia pode ser diferente da estirpe da América do Sul e só esta última causar microcefalia;
  • Pode ser que a estirpe da América do Sul (que ainda não se conhece) seja mais eficaz a infetar mosquitos e que por isso se dissemine melhor pela população humanas;
  • O vírus que agora causou o surto no Brasil pode ter mudado o suficiente para se multiplicar melhor no organismo das pessoas;
  • Havendo mais vírus a circular no sangue, pode mais facilmente chegar ao feto através da placenta;
  • Ou o vírus mudou o suficiente para conseguir atravessar mais facilmente a placenta.

Até agora o zika provocava febres baixas, manchas na pele, conjuntivite ou outros sintomas menores que mais se assemelhavam aos de uma gripe ligeira, mas as imagens das crianças nascidas com microcefalia têm chocado o mundo. Scott Weaver afirmou mesmo que é isso que fará com que as farmacêuticas e outras entidades se dediquem a desenvolver uma vacina ou tratamento específicos para o zika.

E são também essas imagens que estão a impressionar os cidadãos dos Estados Unidos, especialmente desde que nasceu uma criança com microcefalia no Havai, lembrou o virologista. “À medida que as temperaturas forem aumentando na primavera e no verão poderá haver transmissão do vírus em locais como Florida, Texas, Arizona ou Califórnia”, porque estes têm populações do mosquito e já tiveram casos de dengue e chikungunya. “O risco nos Estados Unidos é moderado, mas o resultado assustador.”