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Em finais dos anos 60, inícios da década de 70, apareceram nos EUA os chamados “Vietnam westerns”, filmes de “cowboys” ambientados no velho Oeste mas que na realidade eram alegorias políticas militantes sobre o envolvimento norte-americano no Vietname, onde os índios figuravam os vietnamitas e a Cavalaria os militares que combatiam no cenário asiático. O ponto de vista destes falsos westerns era sempre anti-guerra, claro. Foi o caso de “O Vale do Fugitivo”, de Abraham Polonsky, “Soldado Azul”, de Ralph Nelson, “O Pequeno Grande Homem”, de Arthur Penn, ou de “Ulzana, o Perseguido”, de Robert Aldrich. (Envelheceram quase todos bastante mal.)

Foram estes filmes que me vieram à cabeça quando estava a ver “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino, porque tal como eles, e na sequência do anterior, “o novo filme do realizador de ‘Pulp Fiction’ passa-se na época dos westerns, ambienta-se num cenário de western, tem personagens, temas e segue a codificação narrativa dos westerns, e carrega um lastro de citações, piscadelas de olho e referências cinéfilas ao western. Mas é menos um western do que uma alegoria grosseira, odienta e desalmada sobre as tensões raciais contemporâneas nos EUA, assunto que parece obcecar Tarantino ao ponto de o estar a tornar num émulo de Spike Lee, tão demagógico como ele embora mais cinéfilo e com violência mais criativa.

[Veja o trailer de “Os Oito Odiados”]

https://youtu.be/6_UI1GzaWv0

“Os Oito Odiados” assenta num dispositivo muito usado no teatro e em livros e filmes policiais e de terror, que consiste em juntar num espaço físico limitado, e isolado durante algum tempo pela geografia e/ou pela meteorologia, um grupo de pessoas em conflito, ou então ameaçadas seja um poder sobrenatural, seja por um misterioso assassino. No caso vertente, é um posto comercial no Wyoming, isolado por uma tremenda tempestade de neve (a fotografia de Robert Richardson é magnífica), e onde estão retidos um ex-militar transformado em caçador de prémios (Samuel L. Jackson), um seu veterano colega (Kurt Russell), que transporta uma assassina para entregar às autoridades (Jennifer Jason Leigh), um antigo soldado do Sul nomeado xerife de uma cidade vizinha (Walton Goggins), um empregado mexicano do posto e mais uns quantos viajantes surpreendidos pela intempérie. (Tarantino rodou o filme em 70 mm – versão que não veremos em Portugal por já não haver cinemas que recebam o formato –, mas acaba por usar o widescreen não para rasgar paisagens, mas para enfatizar a teatralidade de “câmara”, a crescente claustrofobia e o suspense, e dar mais realce ao sangue, vómito, miolos e bocados de corpos que vai metendo pelos nossos olhos adentro.)

[Veja aqui a entrevista com Quentin Tarantino]

https://youtu.be/QcZqf1J7SPA

O filme é Quentin Tarantino em modo “been there, done that”, um mix menor, fatigado e cada vez mais boçal e menos convincente de todo o repertório formal, narrativo, visual, malabarista e de cinefilia “cool” que fez a fama do realizador. Até os diálogos, que em Tarantino são também acção e fazem parte dela, surgem repetitivos, redundantes, prolixos e salpicados de anacronismos contemporâneos – há momentos em que a personagem de Samuel L. Jackson se expressa como se estivesse num “gangsta movie ” e não num western –, coexistindo de maneira desconcertante com clichés verbais dos filmes do género. Basicamente, estamos numa situação de um livro de Agatha Christie aplicada à ideia central de “Cães Danados” (alguém não é quem diz ser), com ambientes, roupa e armas de western, violência exibicionista ao nível do cinema de terror splatter e “mensagem” bombástica e primária. (A banda sonora é de Ennio Morricone, mas não sobrevive nos ouvidos).

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[Veja a entrevista com Samuel L. Jackson]

https://youtu.be/bCZyGyYw_F8

Interpretando personagens caracteristicamente tarantinescas e odiosas em graus variáveis (aliás, a tradução correcta do título original do filme seria “Os Oito Odiosos”, e não “Os Oito Odiados”), os actores, entre cúmplices do realizador (Jackson, Russell, Goggins Michael Madsen, Tim Roth, Zoe Bell, …) e estreantes (Bruce Dern, Channing Tatum, Jason Leigh, Demián Bichir…), saem-se todos bem, embora não possa deixar de realçar Jennifer Jason Leigh, que na massacrada pele de Daisy Domergue, é um “diabo de saias” no sentido mais maléfico da expressão. A certa altura, Domergue parece estar no filme errado, e ser uma personagem de um dos “Evil Dead” de Sam Raimi que apareceu nesta história engano.

[Veja a entrevista com Kurt Russell]

https://youtu.be/nhQMQCczFiY

E, depois, há a violência, que em Tarantino já foi cool, inventiva, intrínseca às idiossincrasias das personagens e brotando naturalmente das situações em que elas se envolviam, e que ele encenava de uma forma tão descaradamente exagerada, e com uma componente de comédia negra, que a tornava caricatural e auto-paródica, como nos desenhos animados da Warner. Mas que de há alguns filmes para cá se tem vindo a tornar gratuitamente exibicionista e extremada, e aqui chafurda num sadismo repetitivo, saboreado e condescendente, o derradeiro recurso de um cineasta que, falho de ideias para captar e entusiasmar os espectadores, deita mão à carnificina mais gráfica e odiosa. “Os Oito Odiados” é um western selvático passado no Oeste selvagem.