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Dois dias depois da sua morte, Mário Cesariny foi sepultado no Cemitério dos Prazeres. Rumaram a Lisboa amigos, familiares, artistas e intelectuais. Eram cerca de 100 pessoas encharcadas até aos ossos que, num silêncio sepulcral, caminharam até ao gavetão número 29 debaixo de chuva pesada. A morada provisória de Cesariny.

O poeta-pintor morreu a 26 de novembro de 2006. Tinha 83 anos, feitos em agosto. Em vida, tinha expressado a vontade ser sepultado num jazigo no cemitério lisboeta. Não queria ir para a terra nem ser cremado, como tinha sido dois anos antes a irmã Henriette. Por esse motivo, um ano depois da sua morte, a Casa Pia de Lisboa, sua herdeira, ofereceu-se para lhe comprar um jazigo para onde, mais tarde, o seu corpo seria trasladado.

Passados nove anos, tudo permanece na mesma. A Casa Pia, que ficou com todo o dinheiro do poeta, diz estar à espera do orçamento e do projeto das obras do jazigo, que Manuel Rosa, editor e testamenteiro de Cesariny, ficou de apresentar. Rosa, por sua vez, diz que a Casa Pia não mostrou interesse em financiar a reabilitação do espaço, e que nem sequer teve interesse em ver os planos.

Enquanto isso, Cesariny permanece anónimo dentro do mesmo gavetão, no Talhão dos Artistas, onde foi sepultado há nove anos. A paisagem é serena, quase contrária à imagem do surrealista transgressor, desobediente. Não existem epitáfios, mensagens de despedida ou frases a marcarem a saudade. A identificá-lo existe apenas um número: 29.

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Quando “o Mário” morreu, a sua herança foi distribuída por vários herdeiros. Como não tinha descendentes, o surrealista escolheu deixar todos os seus bens a diferentes pessoas e instituições: a Manuel Rosa, seu editor, deixou os direitos de autor da sua obra literária e tornou-o seu testamenteiro, ao sobrinho, Manuel Mourão, deixou o andar na Costa da Caparica e, à Fundação Cupertino de Miranda, “todo o recheio artístico e literário da sua autoria ou não” que se encontrava nas casas de Lisboa e Caparica.

Segundo o testamento, a que o Observador teve acesso, a instituição de Vila Nova de Famalicão foi ainda nomeada herdeira universal do “remanescente da sua herança”. A última parcela dos bens do poeta coube à Casa Pia de Lisboa, que herdou “todas as quantias” que se encontravam depositadas “em quaisquer instituições bancárias”. À data da sua morte, Cesariny tinha mais de um milhão de euros em seu nome.

A doação do dinheiro à Casa Pia foi uma decisão inesperada. Manuel Rosa, testamenteiro, garante que foi uma surpresa para todos, principalmente depois do escândalo que abalou a instituição em 2002. Segundo o editor, o poeta tinha mostrado vontade de deixar todo o seu dinheiro ao Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, onde chegou a estar várias vezes internado devido ao cancro da próstata.

A Casa Pia de Lisboa teve conhecimento do legado alguns meses depois do funeral de Cesariny, em março de 2007. Foi o próprio Manuel Rosa, na qualidade de testamenteiro, que informou a instituição e entrou em contacto com as entidades bancárias onde o dinheiro estava depositado. “Concluído o processo de habilitação junto das instituições bancárias, foi apurado o montante global de 1.038.290,54 euros”, esclareceu ao Observador João Louro, assessor do organismo.

Assim que soube do testamento, Catalina Pestana, então provedora da Casa Pia, comprometeu-se a comprar um jazigo e a pagar todas as despesas a ele associadas, cumprindo assim a última vontade do poeta. Este foi adquirido ainda no mesmo ano, em outubro, e Manuel Rosa apressou-se a fazer o projeto de reabilitação — por ser escultor, mas também por ser amigo do surrealista. Mas as obras nunca chegaram a andar para a frente, e o jazigo número 4.876 permanece vazio. À espera de Cesariny.

À espera de Mário

O jazigo de Cesariny fica na ponta oposta do cemitério, longe do gavetão onde foi sepultado. É um jazigo modesto, construído “talvez nos anos 40”, com uma “porta de jardim”. “Fica num lugar simpático, onde existem muitos gatos”, salientou Manuel Rosa. “O Mário gostava muito de gatos.”

Apesar da boa vontade de Catalina Pestana, quando o editor tentou apresentar o projeto à Câmara Municipal de Lisboa (CML) para ser aprovado, descobriu que, dentro do jazigo, ainda se encontravam as ossadas dos familiares dos antigos proprietários. Enquanto o espaço não fosse limpo, as obras não podiam avançar. Para Manuel Rosa, este foi o primeiro embate.

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Todas as obras de restauro “em construções particulares” devem ter uma “autorização do presidente da CML, e devem cingir-se às normas estipuladas pelo Regulamento”, explicou ao Observador Sara Gonçalves, chefe da Divisão de Gestão Cemiterial da câmara.

Foram precisos três anos até a questão das ossadas ficar resolvida, o que aconteceu já durante a atual direção da Casa Pia que, ao contrário das duas anteriores, não se mostrou tão recetiva a pagar a alteração do jazigo do Cemitério dos Prazeres. Ao contrário das antigas diretoras, Catalina Pestana e Joaquina Madeira, Cristina Fangueiro nunca chegou sequer a falar diretamente com Manuel Rosa.

Na única reunião que teve com a nova direção, o editor garante que foi apenas recebido pelo vice-presidente do Conselho Diretivo, Eduardo Vilaça, que lhe disse que as obras estavam fora de questão. A Casa Pia só estava disponível para “uma limpeza”. Para a nova direção, as palavras de Pestana não tinha valor, até porque esta “não estava em posição de fazer promessas”. Na altura da morte de Cesariny, já Pestana tinha pedido a reforma, tendo cumprido o último dia como provedora a 11 de maio de 2007.

Apesar dos episódios narrados por Manuel Rosa, João Louro garante que o jazigo se encontra “pronto para receber os restos mortais do benemérito”. De acordo com o assessor da Casa Pia, “a trasladação ainda não se concretizou” porque existe “um pedido do testamenteiro para alteração do jazigo, visando a sua beneficiação com elementos alusivos à obra de Mário Cesariny, aguardando-se os respetivos projetos e orçamentos”. Rosa, por outro lado, defende que Eduardo Vilaça nem quis “olhar para o projeto”.

Apesar de, juridicamente, a Casa Pia não ter obrigação de nada, o editor e escultor não hesita em dizer que “lhes ficava bem tratarem do assunto com dignidade”. “Nunca quisemos um mausoléu”, acrescentou. E o projeto por ele realizado deixa isso bem claro. Além da inscrição do nome, da data de nascimento e de morte e de um curto poema, o plano de remodelação incluía a substituição da velha “porta de jardim” por uma outra, feita de bronze, onde seria reproduzida a tela pintada por Cesariny na altura da morte de Maria Helena Vieira da Silva.

No interior, Rosa planeou ainda a construção de um banco central, uma vez que o jazigo se encontra atualmente preparado para receber duas urnas. No total, o editor estima que as obras nunca ultrapassariam os 28 mil euros, um valor muito inferior ao herdado pela Casa Pia. “Sem obras, não há mudança. Tal como está, não tem condições de dignidade para ser trasladado”, garantiu.

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Depois de a instituição lisboeta ter fechado todas as portas, Rosa ainda apelou à Fundação Cupertino de Miranda, herdeira universal de Cesariny. Porém, problemas de ordem financeira obrigaram a fundação a negar ajuda ao editor.

Onde para o dinheiro de Mário Cesariny

Nove anos depois da morte de Mário Cesariny, grande parte do dinheiro que o poeta deixou à Casa Pia de Lisboa está ainda por utilizar. Dos 1.038.290,54 euros legados à instituição, foi apenas usada uma pequena parte na compra do jazigo no Cemitério dos Prazeres — que Manuel Rosa garante que foi comprado a “bom preço” — e na publicação de dois livros — Poesia de Mário Cesariny dita por Mário Cesariny e Mário Cesariny, uma reedição de catálogo — e de um DVD, Autografia e Verso de Autografia.

Apesar de o surrealista não ter imposto qualquer condição no uso das verbas legadas, a Casa Pia entendeu que estas deviam ser aplicadas “em projetos e iniciativas no âmbito do ensino artístico”, explicou ao Observador o assessor João Louro. Por esse motivo, foi criado o Prémio Mérito Artístico Mário Cesariny, que todos os anos é atribuído “ao melhor aluno no domínio das Artes”.

De parte ficou a ideia de investir a herança na construção de uma escola de Artes no Colégio Maria Pia. A ideia partiu inicialmente da antiga provedora, Catalina Pestana, tendo depois sido afastada pela atual direção. Em 2014, ao jornal SOL, fonte da instituição admitiu que o valor da herança era “manifestamente diminuto para um projeto que não passou de uma proposta do passado e que implicava obras estruturantes com valores muito superiores, aproximadamente de 15 milhões de euros”.

O dinheiro que sobrou encontra-se, desde 2007, depositado na Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), “à qual a Casa Pia se encontra subordinada por força da lei”.

O anónimo número 29

Para que a Casa Pia nunca se esqueça da promessa que fez, Manuel Rosa decidiu deixar o gavetão número 29 sem identificação. “Não quis fazê-lo para que o assunto não ficasse enterrado. Se o fizesse estava a tornar mais duradoura esta situação.” Uma situação que espera que um dia se resolva. “Tenho esperança e tenho intenção de marcar uma reunião com a Casa Pia para que, finalmente, se possa fazer a trasladação.” Caso isso nunca aconteça, o editor admite explorar outras opções, como a realização de uma petição pública.

Apesar de a família do poeta nunca se ter mostrado contra a decisão do editor, há quem não esteja contente com o anonimato de Cesariny. Carlos Cabral Nunes, da Casa da Liberdade — Mário Cesariny, diz que há vários anos que tenta “puxar o assunto”, mas que Rosa sempre “fugiu à conversa”. “Um dos grandes poetas portugueses do século XX, uma pessoa que conheci, com uma grande sensibilidade, que lutou pela liberdade, está pior do que um anónimo!”

O galerista garante ainda que, com uma identificação, seria muito mais fácil encontrar o gavetão. “Uma pessoa que quisesse ir ao cemitério não tinha de estar à espera que a senhora da secretaria dissesse onde é que está. É quase uma humilhação para a memória de uma pessoa, que não é uma pessoa qualquer.” Por essa razão, Carlos Cabral Nunes ganhou o hábito de assinalar a campa sempre que a visita no dia 26 de novembro.

“No aniversário dos sete anos, quando fui sozinho ao cemitério, tive de andar à procura. Indignei-me tanto que pus o nome dele, a data e fiz um boneco. No jazigo também.” Carlos admite que “nem ia para o fazer”, mas como faz “uns bonecos”, anda “sempre com uns materiaizecos” no bolso.

Em 2015, quando regressou ao Cemitério dos Prazeres, o galerista voltou mais uma vez a assinalar a campa. “Fui ao cemitério no dia 26. À entrada, recolhi nove beatas que estavam pelo chão. Pus uma por cada ano. É como diz o ditado popular, ‘cada cigarro é um prego no caixão'”, lembrou entre risos. “Ele era um fumador inveterado.” Foi uma “coisa clandestina”, mas Carlos não se importou. Foi só “uma pequena homenagem a um amigo”.

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O pequeno desenho feito por Carlos Cabral Nunes no Cemitério dos Prazeres

“E até aconteceu uma coisa engraçada”, contou o galerista. Carlos ia com as beatas no bolso quando, ao chegar ao gavetão se deparou com um verdadeiro aparato. “Bom, parece que afinal isto está melhor do que pensava”, pensou para si próprio. Porém, rapidamente se apercebeu que a confusão não tinha nada a ver com Cesariny. “Apercebi-me que não era bem no sítio. Ainda pensei que fosse alguma coisa relacionada com a Maria de Lourdes Pintasilgo”, a antiga primeira-ministra que também está ali sepultada.

Confuso, Carlos Cabral Nunes decidiu perguntar a uma mulher que ali se encontrava o motivo de tanta confusão. Se era por causa da ex-primeira-ministra. “Não!”, respondeu-lhe indignada. “É por causa da moça que morreu em França”, durante o atentado ao Bataclan em Paris. O galerista nem queria acreditar. “Tive de esperar que a senhora designada para fotografar a homenagem se fosse embora para fazer aquilo sozinho.”

Os minutos passaram, uns atrás dos outros, e depressa chegou a hora de fecho. “Apareceu o segurança. Pensava que ia ter problemas, mas não. Ele apenas queria que me fosse embora.” Sem grandes rodeios, o segurança disse a Carlos que estava a fazer uma coisa ilegal. “Pois, mas é para um amigo”, disse-lhe o galerista. “Mas olhe que se calhar amanhã limpam isso tudo.” “Não faz mal, deixe lá. Deixe-me só acabar a obra.”

Cesariny,

Junto ao jazigo de Cesariny é habitual estarem vários gatos

A obra, porém, durou pouco. Algumas semanas depois, já não havia nem sinal dos rabiscos de Carlos Cabral Nunes. O mármore, imaculado, parecia ter sido lavado há pouco tempo. Não havia beatas coladas junto ao número 29, nem o nome “Cesariny” escrito a caneta de feltro. Tudo estava como devia ser.

Entretanto, na outra ponta do cemitério, os gatos continuam a guardar aquela que deveria ser a última morada de Mário Cesariny. Deitados ao sol, observam indiferentes a passagem dos estranhos. É como se continuassem à espera.

“(…) Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem”

— Discurso ao Príncipe Epaminondas, mancebo de grande futuro