Espirros, olhos vermelhos, falta de ar, alergia a determinados alimentos ou manchas na pele. Estes são alguns dos sintomas com que todos nos vamos familiarizando, cada vez com mais frequência. Isto porque as doenças alérgicas estão a aumentar, sobretudo entre as crianças.

Os números indicam isso mesmo, ilustrando uma realidade que não pode ser ignorada: em Portugal, cerca de 1 milhão de pessoas tem asma, sabendo-se que esta doença é mais frequente nas crianças. Por outro lado, as queixas de rinite atingem mais de 25% das crianças portuguesas, das quais, mais de 50% têm também conjuntivite alérgica. A lista estende-se nesta faixa etária, com mais de 10% a apresentar eczema atópico e 5 a 10% a serem afetadas por alergias alimentares, sobretudo ao leite de vaca e ao ovo.

Embora estejam ainda por esclarecer as razões deste aumento, os dados parecem implicar o ambiente e o estilo de vida. Luís Miguel Borrego, imunoalergologista no Hospital CUF Descobertas, avança uma explicação: “A diminuição das infeções na primeira infância, resultante do seu maior controlo graças às vacinas e aos antibióticos, e às melhores condições sanitárias, poderá fazer com que o sistema imunológico, agora menos ocupado com os micróbios e parasitas, se volte para os alergénios ambientais que, à partida, seriam inofensivos para o indivíduo.”

Outro aspeto que parece igualmente contribuir para o panorama prende-se com o facto das crianças passarem cada vez menos tempo na rua. O médico indica que cerca de 90% do tempo dos mais novos é agora passado em ambientes fechados, em casa ou na escola, sendo poucas as atividades que praticam ao ar livre. Por outro lado, a alimentação que se tem vindo a tornar comum nos países ocidentais também tem alguma responsabilidade, nomeadamente o consumo de fast food e a ingestão de “determinados ácidos gordos, conservantes e antibióticos que diminuem a flora intestinal”, explica o clínico.

Sem limite de idade

O cenário é preocupante e leva-nos a olhar com atenção para alguns dos sintomas que os mais novos vão apresentando cada vez com maior frequência. E desengane-se quem pensa que as alergias tendem a passar com a idade. Segundo Luís Miguel Borrego, esta é uma ideia que devemos desmistificar, até porque “ao contrário do que se pensa, as alergias podem mesmo agravar-se ao longo do tempo”. “Embora algumas crianças melhorem na adolescência, provavelmente devido à influência de fatores hormonais, as alergias podem voltar de novo em qualquer altura”, esclarece.

O melhor mesmo é estar atento e procurar um médico para compreender a situação e fazer o tratamento mais adequado, qualquer que seja a idade da criança. Com efeito, “os testes de alergia podem ser feitos em qualquer idade e quanto mais cedo melhor”, diz o especialista, mas ressalva que “o diagnóstico das doenças alérgicas é clínico”, isto é, implica obrigatoriamente uma ida ao médico.

Para a avaliação do doente asmático são fundamentais as provas de função respiratória, que são úteis na confirmação diagnóstica, avaliação da eficácia terapêutica e prognóstico. Estas provas têm sido realizadas na criança em idade escolar e no adulto, sendo nos últimos anos possível a sua realização em crianças em idade pré-escolar, ainda que seja fundamental a sua integração clínica e não possam ser utilizadas como determinantes para o diagnóstico de asma brônquica.

Uma vez que “a origem das doenças respiratórias em idade adulta reside na infância”, desde há vários anos se têm efetuado provas de função respiratória no lactente, de modo a tentar compreender a evolução natural das doenças respiratórias.

Segundo Luís Miguel Borrego, “no lactente as provas de função respiratória são utilizadas fundamentalmente na investigação clínica, de modo a ter uma medição objetiva da função pulmonar”. Entre os lactentes que podem beneficiar com a realização destas provas, Luís Miguel Borrego destaca os que têm doença crónica da prematuridade ou falência respiratória nas primeiras semanas após o nascimento, e as crianças com doenças obstrutivas como a fibrose quística. Por outro lado, vários estudos têm avaliado a função pulmonar em lactentes com sibilância recorrente, situação que afeta até 40% dos lactentes no primeiro ano de vida.

Entre as principais técnicas que integram as provas de função respiratória no lactente, o médico realça a “técnica de compressão torácica rápida em volume corrente ou em volume aumentado”. Tal é possível recorrendo a “um colete insuflável que se aplica no tronco da criança, comprimindo-o momentaneamente no final da inspiração, de modo a forçar uma manobra expiratória forçada”, esclarece.

Tratamento das doenças alérgicas

Depois de o médico caracterizar a doença alérgica da criança prescreve com segurança o tratamento mais adequado. Entre os medicamentos existentes para o tratamento das alergias encontram-se os que se destinam a aliviar os sintomas (medicamentos sintomáticos), incluindo anti-histamínicos para o controlo dos sintomas de alergia a nível do nariz, olhos ou pele, e broncodilatadores para o tratamento das queixas de asma. Estão também disponíveis medicamentos preventivos ou anti-inflamatórios, que permitem combater a inflamação alérgica e evitar o aparecimento dos sintomas. De acordo com Luís Miguel Borrego, nesta categoria, “os mais eficazes são os corticóides, seja por via nasal no tratamento da rinite, seja por via inalatória brônquica no tratamento da asma”. Outros medicamentos deste grupo são os anti-leucotrienos, que têm indicação para o tratamento da asma e da rinite alérgicas.

As vacinas antialérgicas são também uma opção, dirigindo-se ao alergénio implicado. Nas palavras do especialista, “têm uma grande eficácia desde que instituídas corretamente e sob vigilância estrita do médico alergologista. A via de administração mais frequente é a injeção por via subcutânea, mas existem outras formas, como aplicação sublingual de gotas que contêm os extratos alergénicos”, indica, acrescentando que “é um método de tratamento que visa modificar a evolução natural da doença alérgica”.