A questão ronda Marcelo Rebelo de Sousa em cada paragem que faz pela cidade das Acácias. Vai Portugal ter algum papel de mediação no conflito político-militar em Moçambique? A resposta dada pelo Presidente da República não é conclusiva, até porque há uma soberania a respeitar. A agenda portuguesa, neste capítulo, será sempre discreta.

“Não podemos falar de questões que dizem respeito à soberania de um Estado”. Marcelo Rebelo de Sousa está em Moçambique com pés de lã em matéria de mediação do conflito Frelimo/Renamo e garante que não quer “pôr o carro à frente dos bois”, quando questionado sobre se Portugal está disponível para intervir, caso seja chamado a isso por uma das partes.

A ideia é só falar sobre o assunto, se e quando tiver algo para apresentar. Ou seja, a acontecer algum encontro importante sobre esta questão, será extra agenda pública. A razão primeira para este sigilo é o melindre que pode provocar uma intervenção de um país que, historicamente, para Moçambique representa a escravatura e o colonialismo.

É evidente que num Estado soberano, quem tem o poder decisivo é o poder político desse Estado soberano”, reafirmou Marcelo em declarações aos jornalistas na embaixada portuguesa em Maputo.

Voltando à velha fórmula de Marcelo: Assumir um papel de mediação é desejável? Não. Mas pode-se fazer a mediação? Sim. Desde que de forma discreta, coisa que, aliás, Marcelo não descarta. Aliás, de manhã, depois de uma visita ao centro de formação profissional de metalomecânica, quando confrontado com a questão, já tinha avisado que “as grandes transformações se fazem por pequenos passos e não grandes proclamações”.

À tarde voltaria a disponibilizar-se, embora sempre misturando o assunto com todos os outros da visita: Qual o papel que Portugal poderá ter? “Não desistir de Moçambique, apostar no investimento de Moçambique, manter a cooperação a todos os níveis do Estado. Cooperação social, militar, cultural, económica e financeira. Tudo o que poder ser feito, Portugal irá fazer”.

Fora da agenda oficial estão os encontros que o Presidente português terá esta quarta-feira com a oposição em Moçambique, durante a visita ao Parlamento. Este será o dia mais político, com uma reunião também com o homólogo, Filie Nyusi, onde a questão será incontornável.

É muito cedo para estar a falar de uma realidade que vai ser objeto de compreensão durante a vista oficial, só amanhã [quarta] começarão os contactos que me permitirão compreender a realidade moçambicana, mas há noção que da parte portuguesa uma vontade total de ajuda a Moçambique”.

O Presidente da República chegou cedo a Maputo, para um primeiro dia ainda fora da visita oficial, mas com uma agenda que já se inclui no espírito de apelo ao investimento português que quer imprimir nesta estadia de cinco dias. Marcelo vai aproveitando esta deixa para desviar as atenções do plano político. “A minha palavra de ordem é que o investimento português em Moçambique é fundamental, é para continuar e é para aumentar”. Mas os números não escondem razões para pessimismo: hoje há 23 mil portugueses no país, mas a tendência deste número é para descer. O próprio Presidente notou, na viagem de avião desde Lisboa, os 50 lugares vazios numa ligação que estava sempre lotada nos últimos anos.

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Um revés na visita de Estado

Por isso, o trabalho por Maputo é convencer que Portugal não está a desistir. Um esforço que se tornou mais difícil com a suspensão das ajudas ao país por parte do grupo de doadores diretos ao Orçamento do Estado, depois da polémica em torno da ocultação, às instituições internacionais, de dívida externa por parte do Governo moçambicano. Portugal está a presidir ao grupo até ao mês de junho. Uma espinha na visita da Estado do chefe de Estado português.

A questão ainda não está fechada e Marcelo vai atirando para a frente, dizendo que o problema financeiro não é só de Moçambique. “Há de facto constrangimento financeiros em várias economias e também na moçambicana, com limitações nas finanças públicas e na economia, por isso aqui estou com uma paragem de esperança e de fé no futuro, nada é definitivo, as situações difíceis são ultrapassáveis”. Foi neste ponto do dia, que puxou da sua ligação “de várias décadas” ao país, mesmo depois da independência.

Vivi períodos muito difíceis na vida de Moçambique e uma coisa que reconheço é que Moçambique soube sempre dar a volta à situação”

As primeiras horas em Maputo serviram para um cheirinho do que será a vista de Estado, com os elogios à cooperação e aos seus exemplos a dominarem o discurso. Foi assim na visita ao centro de formação que resultou de uma parceira entre o Instituto de Emprego Formação Profissional português, a Associação Nacional de Metalomecânica, a UGT e, do lado de Moçambique, o Instituto de Emprego e de Formação Profissional, a Associação Industrial de Moçambique e a Organização de Trabalhadores Moçambicanos Central Sindical.

A empresa, explicara o secretário-geral da UGT Carlos Silva, pretende qualificar trabalhadores com uma certificação que é reconhecida no estrangeiro, permitindo que os moçambicanos consigam defender o valor do seu salário quando saem para trabalhar, por exemplo, na vizinha África do Sul.

O Presidente cumprimentou os formandos, ouviu explicações de formadores, atirou incentivos a quem o olhava por trás da carteira da sala de aula, cadernos abertos com a matéria do dia.”Isto faz-me saudades…”

Ainda não foi neste dia que se viu espaço para os afetos, na terra que acompanha de perto há quase 50 anos, mesmo depois de uma receção calorosa de “boas vindas, papá Marcelo, à nossa cidade de Maputo”, cantada por grupos culturais locais logo na pista do aeroporto .