Título: “A Carícia do Assassino”
Autor: A. J. Rich
Editora: Asa
Páginas: 272 páginas
Preço: 16,50€

carícia

The hand that feeds you – título original de A carícia do assassino – é um livro escrito a quatro mãos – sem contar as da amiga morta, que serviu de inspiração às autoras, Amy Hempel e Jill Ciment, duas senhoras já de uma certa idade e créditos razoavelmente firmados noutras áreas literárias. Foi Katherine Russell Rich, que morreu nova, quem deu às autoras a ideia deste tépido romance de “suspense psicológico”. A carícia do assassino é-lhe dedicado; o pouco subtil nom de plume A. J. Rich usa o apelido dela com as iniciais dos nomes próprios das escritoras e, por fim, para quem não tenha ainda percebido, a protagonista da ficção evoca a memória de uma querida amiga defunta – de nome Kathy. Para eventuais maus entendedores – as autoras acham evidentemente que meia palavra não basta.

A carícia do assassino chega-nos altamente recomendado. Além de outras críticas elogiosas, mereceu um tweet de nada menos que a premiada, ilustre e prolífica Joyce Carol Oates: “The Hand that Feeds You (pseudonymous A.J. Rich) unusual combination of feeling/ sentiment (re. dogs) & astute psychology (“victims”)”. O que deu, em português, na capa do livro: “Uma singular combinação de sentimentos, emoções e psicologia. Fantástico.” Mas são notícias razoavelmente exageradas. Tomando para arcaboiço da trama a intriga básica das Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos, Hempel e Climent meteram mãos à obra de confeccionar um thriller a partir de um episódio da vida real da amiga, que ela mesma chegara a pensar transformar numa obra de ficção. E “confecção” é a palavra aqui operacional. A descrição de um processo de fabrico em que, segundo as próprias, “Ms. Hempel (…) polished the sentences, while Ms. Ciment acted as the plot architect” – ou seja, uma “burilava as frases” e a outra “arquitetava o enredo” – não auguraria nada de muito bom a quem o tivesse conhecido avant la lettre, se assim se pode dizer. Deve ter cabido à primeira preencher as referências “culturais” (Doris Lessing ou Laclos, claro, e outras talvez mais esotéricas para o comum dos mortais, como a artista plástica Vija Celmins ou o cartoonista Gary Larson, do Far Side) e, dado o seu currículo de estudante de “psicologia criminal”, contribuiu certamente tudo o que – abundantemente – tem a ver com um rápido curso de “victimologia”. Não foi a primeira vez que as duas uniram esforços. Segundo confessam numa entrevista, escreveram juntas uma primeira vez um argumento de cinema que apresentaram a outra amiga, a argumentista e realizadora Nora Ephron; a reação foi sucinta: em versão livre da minha lavra: “Devem estar a brincar.” (“Era um All about Eve com cães que falavam”, na esclarecedora súmula das autoras).

A referência a Laclos não exige qualquer perspicácia do leitor. Não só é declarada frontalmente pela epígrafe do livro que cita um passo do famoso romance epistolar como é bem explicada e justificada no seu desenlace. Não sei quantos de nós leram o famoso exercício setecentista mas muitos decerto viram o filme – ou um dos filmes: que me lembre há pelo menos duas versões cinematográficas “de época”, a de Stephen Frears e a de Milos Forman, fora as versões “modernas”, como as Liaisons Dangereuses de Vadim. Aqui, estão a dizer as autoras, não enganamos ninguém. Desistiram, porém, de surpreender seja quem for com a resolução do “mistério”. Sem querer ser desmancha-prazeres, o “suspense” neste livro relativamente breve pouco nos suspende, mesmo que o título português tente sem grande convicção e com ainda menor êxito lançar-nos numa falsa pista.

Não se deve morder a mão que nos dá de comer – é o provérbio inglês a que alude o título original. Com certa propriedade, num livro em que tanto se fala de cães, de cães abandonados, de cães recolhidos, de advogados dos cães, de amigos dos cães e de muitos outros pormenores sobre a sorte do ‘melhor amigo do homem’ na Nova Iorque em que decorre a acção. São cães os principais suspeitos do primeiro e sanguinolento crime que abre o romance. (Numa versão brasileira que encontrei na internet, o provérbio é ‘Cão que morde a mão que lhe dá de comer não merece viver’.) Os leitores dispensavam ficar a saber tanto sobre o fado dos animais e é de duvidar também que precisemos de conhecer com tão irrelevante detalhe a topografia e rede de transportes em que se movem os protagonistas, os sítios onde comem e bebem e a que preço e de que marca. Tirar efeitos literários e dramáticos deste género de enumerações ou de informação e desta espécie de hiper-realismo não está ao alcance de todos. Aqui é verbo-de-encher.

O mundo em que Katherine Rich, pouco antes de morrer, foi vítima do abuso sentimental de um oportunista qualquer é um mundo deprimente em que “uma mulher inteligente e prendada” como ela pode ser ludibriada por um “sociopata”. É o mundo da “multidão solitária” em que uma New York Review of Books, jornal de elites intelectuais e académicas, publica na sua secção de anúncios pessoais mensagens como “Artist, creative in all things, mid 60s, looking for smart woman for occasional excursions ou Blonde, artistic, Latina lady, mid 60s, seeks big hearted Jewish bon vivant” (não são inventadas; vêm num dos números mais recentes do jornal; há centenas de variações na coleção da NYRB). John Lutz, em “SWF” (“Single White Female”, depois filmado por Barbet Schroeder) ou o filme “Sea of love” (escrito por Richard Price) exploraram esse universo com resultados muito mais emocionantes e perturbadores do que este livro, que parece mais do que é. Gabo a generosidade de Joyce Carol Oates – tanto mais que ela mesma é autora de um brilhante Zombie que relata na primeira pessoa, sob a forma de diário, a carreira de um psicopata. E já que em A carícia do assassino se fala tanto e tão lamechamente, às vezes, do amor aos animais não resisto a citar o auto colante que o violador e assassino em série do livro de JCO acha que lhe fica bem usar na traseira do carro: I BRAKE FOR ANIMALS [eu travo para os animais].