Chamava-se na verdade Carlo Pedersoli e era napolitano de casca e gema, mas usava o nome artístico de Bud Spencer em parte como homenagem ao seu ator favorito, Spencer Tracy, em parte porque gostava muito de cerveja da marca Budweiser. Morreu aos 86 anos em Roma, depois de ter aparecido em dezenas de filmes de ação, comédias de pancadaria e “westerns spaghetti” de rapar o fundo do tacho, nos anos 60, 70 e 80. Em cerca de duas dezenas destes, fez parelha com Terence Hill, nomeadamente em “A Colina dos Sarilhos” (1969), no enorme e inesperado sucesso “Trinitá-Cowboy Insolente” (1970) — em Portugal, esteve um ano em exibição no desaparecido Avis, com sessões sempre esgotadas — “Continuam a Chamar-lhe Trinitá” (1971), “Vamos a Isto, Rapazes” (1972) ou “Juntos são Dinamite” (1974), e que entre nós deliciavam as plateias menos exigentes de salas populares como o Avis, o Odeon ou o Politeama. O duo conheceu-se quando foram “extras” no filme histórico “Aníbal e os Elefantes”, em 1959, e além de bons colegas de trabalho, ficaram como irmãos para o resto das suas vidas.

[“Trinitá-Cowboy Insolente]

Hill encarregava-se da conversa fiada e de manejar as armas, enquanto que o lacónico Spencer dizimava os vilões à mão, tendo como sua imagem de marca o murro dado na cabeça do adversário com o punho fechado, como se fosse um martelo. Por isso, uma das suas personagens mais populares era o “Inspector Martelada”, vedeta de vários dos filmes que fez sem Hill. Bud Spencer compensava o que lhe faltava em dotes de representação (quase tudo, na verdade) com o seu ar de bisarma sorna, falando pouco e batendo muito. Chegava para o público dos seus filmes, com ou sem Terence Hill, que queria era vê-los “despachar” vilões a tiro e ao murro, e não estava interessado em rasgos shakespeareanos. Nessas décadas de 60, 70 e 80, o cinema italiano era prolífero em versões locais de formatos ou séries B americanas, e Bud Spencer, ao lado de Hill ou sozinho, foi uma das suas grandes vedetas.

[Terence Hill e Bud Spencer, antologia]

Os filmes de Spencer resumem-se pelos seus títulos: “O Murro Atómico”, “Chamavam-lhe Bulldozer”, “O Xerife Quebra-Ossos”, “O Bombardeiro”, “Pela Medida Grande”, “O Inspector Martelada no Nilo”, “O Terror do Far-West”. Eram arraiais de estalada e murro, modelos do subgénero “arte e ensaio de pancada”. Nos anos 80, o ator transferiu o seu peso para a televisão, onde apareceu numa série de telefilmes policiais e de ação com novas personagens, que mais não eram do que versões para o pequeno ecrã das do cinema, como se pode ver pelos nomes: “Extralarge”, “Big Man”. Em 1994, ele e Hill fizeram o último filme juntos, um “western” cómico tardio realizado por este, “Os Caça-Sarilhos”.

[Bud Spencer em acção]

Em 2005, e depois de, dois anos antes, ter aparecido num filme de Ermanno Olmi, “Cantando por Detrás das Cortinas”, Bud Spencer interpretou para a RAI o episódio-piloto de uma série, “Padre Speranza”, que se pretendia mais “séria” e dramática do que aquilo a que o ator tinha habituado o público, e onde interpretava um padre rebelde que enfrentava o crime organizado na Sicília, mas o projeto não teve seguimento. A idade também já não ajudava e tinha reduzido muito o ritmo de trabalho desde finais dos anos 90. Hoje, quase com 90 anos, o “Inspetor Martelada” deu finalmente descanso aos punhos.