Depois do sucesso da edição do ano passado, o Festival Silêncio vai voltar ao Cais do Sodré, em Lisboa, para quatro dias de “celebração da palavra”. Ao todo, serão cerca de 140 atividades (de entrada livre), distribuídas por vários locais, que “convidam a percursos de descoberta e a viver o bairro do Cais do Sodré de forma diferente do habitual”, explicou ao Observador Gonçalo Riscado, da direção do festival.

O conceito é o mesmo dos anos anteriores — o festival, “uma festa diferente”, pretende ter as letras como protagonista mas a criatividade serve de ponto de partida para todas as artes: “Mas também a palavra com símbolo, ferramenta, que une as pessoas, que as põe a comunicar e a relacionar”, explica Gonçalo. Porque o lado comunitário e participativo é muito importante no Festival Silêncio, que procura também envolver os habitantes daquela zona de Lisboa.

Quando regressa, [depois de dois anos de interregno,] para lá do propósito base, o festival voltou com este objetivo — o de envolver numa comunidade, não só de forma passiva, mas também ativa. Há muitas iniciativas onde as pessoas podem dar o seu contributo na experimentação”

Exemplo disso é a exposição Palavras à Janela. A organização do festival convidou os habitantes do bairro lisboeta a colocarem, claro está, palavras à janela — palavras que, no seu conjunto, formam frases, textos completos. A exposição, que se estende a todas as ruas do Cais do Sodré, é uma repetição, mas este ano teve uma maior adesão. “Já temos mais do dobro dos vizinhos. Acaba por ser uma instalação coletiva”, referiu Gonçalo Riscado. Mas a edição deste ano também traz novidades. Pela primeira vez, o Festival Silêncio terá um artista homenageado e uma palavra-tema.

A artista homenageada é a portuguesa Ana Hatherley, que morreu em agosto do ano passado. “É uma artista da palavra e das artes plásticas. Toda a sua obra reflete esta transdisciplinaridade do festival e achámos que era muito oportuno homenageá-la.” Por esse motivo, foi criada uma programação especial em torno da artista, que inclui uma exposição coletiva, performances, a exibição de um documentário e também um espetáculo de dança, a n d a r [cais do sodré], que também tem a obra de Hatherley como ponto de partida. Neste, irão participar os próprios habitantes do Cais do Sodré.

A palavra-tema é “Fronteiras”, que também terá a sua própria programação. “Desta posso destacar três conferências, que servirão como ponto de partida para o debate, que irão decorrer na Praça São Paulo”, salientou Gonçalo Riscado. Sempre às 18h30, irão participar nestas conversas o jornalista José Goulão (sexta-feira), o filósofo francês Étienne Balibar (sábado) e a escritora e ativista galega Chus Pato (domingo).

Mas há muito mais para ver durante estes dias na zona do Cais do Sodré. Gonçalo Riscado garante que não se trata de “quantidade pela quantidade”, mas de um conceito de feira, “que potencia a descoberta”. “É claramente um dos nossos propósitos, daí esta concentração de programação. Há um envolvimento e boa vontade de muita gente para com este festival.” Além disso, trata-se de uma forma de desenvolver a identidade ao Cais do Sodré, um bairro que tem sofrido muito com a “turistificação”, como lhe chama o responsável pelo festival.

Neste processo de mudança, faz todo o sentido contribuir para uma identidade de bairro, de sentimento de pertença. Acho isso muito importante — criar este sentimento de pertença, de relação, de compreensão de diálogo entre as pessoas”, referiu Gonçalo Riscado.

“É muito importante não esquecer esta componente de identidade de um bairro tão simpático e tão antigo da cidade de Lisboa. Se a história for ligada à palavra, à criação, então temos um ponto de partida muito interessante.” Um ponto de partida chamado Festival Silêncio.

Para que não se perca no meio da (extensa) programação, reunimos sete iniciativas do Festival Silêncio deste ano. O programa completo pode ser consultado no site oficial do festival, aqui.

A poesia e a fotografia de Apartamentos

Apartamentos, uma exposição encomendada de propósito para o Festival Silêncio, é uma exploração da fronteira entre a imagem e a palavra. Com curadoria da fotógrafa Ágata Xavier e do poeta Diogo Vaz Pinto, Apartamentos é uma iniciativa onde poetas trocam poemas com fotógrafos, e fotógrafos trocam fotografias com poetas. Cada um é uma resposta ao outro, cruzando silêncios e fronteiras.

10 fotos

A exposição será inaugurada na quinta-feira, primeiro dia do festival, às 18h no no espaço BV90 (na Rua da Boavista, número 90). “Apartamentos” dará depois origem a um catálogo.

Uma recriação de obras de Ana Hatherley

Ana Hatherley, artista plástica portuguesa que morreu em agosto do ano passado, é a artista homenageada da edição deste ano do Festival Silêncio. Por esse motivo, o programa, com curadoria de Manuel Portela, reúne uma série de propostas dedicadas a Hatherley. Uma delas é a exposição ReAnagramas, que reúne trabalhos de poetas e artistas plásticos que são também recriações de obras de Ana Hatherley.

Tal como um anagrama, ReAnagramas subverte o trabalho da artista, dando azo a interpretações diferentes em suportes vários. A exposição vai ser inaugurada na quinta-feira, às 19h, na Galeria da Boavista (Rua da Boavista). A inauguração irá contar com uma performance de José Alberto Marques, pelas 19h30.

Para além da exposição ReAnagramas, o programa dedicado a Hatherly inclui ainda outras exposições, como Pintura de Signos (na Fundação Portuguesa das Comunicações), performances, conversas e a exibição de um documentário de Luís Alves de Matos, A Mão Inteligente, que percorre 40 anos da obra visual da artista portuguesa, desde a pintura ao desenho, passando pela poesia experimental e pelo cinema.

A Mão Inteligente será projetado no sábado (e contará com a presença do realizador), pelas 15h, e no domingo, pelas 17h. As duas sessões decorrerão na Fundação Portuguesa das Comunicações.

Uma Casa-Palavra

Pelo segundo ano consecutivo, a Casa Fernando Pessoa e a Fundação Saramago aliaram-se ao Festival Silêncio para criarem um conteúdo único – a Casa-Palavra, uma instalação artística que reuniu quatro artistas e interpretes de diferentes áreas disciplinares e que teve como ponto de partida um excerto de Gonçalo M. Tavares, retirado do livro Atlas do Corpo e da Imaginação.

Porque pensar também é mudar de posição relativamente à própria linguagem. Não olhar sempre da mesma maneira para as palavras”, refere o livro de Gonçalo M. Tavares.

Daniel Jonas, Marta Bernardes, Miguel Bonneville e Rui Silveira foram os quatro corajosos que decidiram aceitar o desafio lançado pelo festival e habitar, durante duas semanas, um apartamento, transformando-o numa casa multidisciplinar. A instalação já está a decorrer, “mas o resultado não sabemos o que será”, como salientou Gonçalo Riscado. É esperar para ver.

A residência artística Casa-Palavra, instalada no 3.º D do número 46 da Rua da Boavista, terá as portas abertas durante todo o festival, a partir das 17h, para que o público possa “acompanhar o processo criativo”. Para entrar, não é preciso bater à porta.

Poesia com música e música com poesia

Todos os dias, religiosamente entre as cinco e as sete e meia da tarde, a Rua Rosa (anteriormente conhecida por Rua Nova do Carvalho) transformar-se-á num palco de spoken word. Durante o festival, a rua do Povo, onde a música e a poesia já não são estranhas, vai receber uma programação recheada que reúne poetas, músicos e artistas de várias áreas.

Das várias propostas, Gonçalo Riscado destacou duas: Cordas Vocais, um projeto criado especificamente para a edição deste ano do Festival Silêncio e que junta um quarteto de cordas e os escritores Valério Romão, Vasco Gato, Raquel Nobre Guerra e Joana Bertholo, e No Precipício Era o Verbo, do músico e compositor Carlos Barreto, que surgirá acompanhado por António de Castro Caeiro, André Gago e José Anjos.

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O palco de “spoken word” será montado na famosa (e concorrida) Rua Rosa, no Cais do Sodré (JPP/HT OBSERVADOR)

O projeto Cordas Vocais será apresentado no sábado, às 19h, e No Precipício Era o Verbo no domingo, também às 19h.

Uma feira de editores independentes

Um supercontinente de editoras independentes, é assim que o site do Festival Silêncio descreve a Feira Pangeia. Nos dias 2 e 3 de julho (sábado e domingo), o Atmosferas — Centro de Artes Digitais, na Rua da Boavista, vai abrir as portas a quase 40 editores e criadores independentes. Livros, foto livros, zines, os amados discos de vinil e cassetes — na Pangeia vai ser possível encontrar um pouco de tudo.

Com uma programação própria, a Feira Pangeia é quase um festival dentro do festival. Além dos expositores, haverá também conferências, lançamentos, workshops e concertos dos Kurepa, Desterronics, Golden Strobes e muitos outros. A organização é da Rough’Nough, um projeto que pretende divulgar a edição independente e que inclui uma editora e um ateliê de impressão em risografia.

Um ciclo (e uma competição) de cinema

Uma das novidades do Festival Silêncio deste ano é a mostra competitiva de cinema, que vem assim aliar-se há já existente mostra internacional para trazer mais e bom cinema ao Cais do Sodré. O espaço eleito para montar o ciclo de cinema, “Isto não é um filme. É um poema”, foi o bar Roterdão, na Rua Rosa, que sairá assim da sua rotina normal para abrir as portas ao público durante a tarde.

Com curadoria de Alexandre Braga, no âmbito da mostra internacional serão exibidos “filmes curtos que partem de um texto poético”, explicou Gonçalo Riscado. Já na mostra competitiva, o responsável garantiu que “temos recebido uma série de filmes e teremos aqui um mini-festival, inserido dentro do Festival Silêncio”.

Inserido também no ciclo de cinema, será exibido no domingo, pelas 21h, o poetry-film de Alexandre Braga Lugar Não Lugar, um filme que se misturará com a performance ao vivo do músico e poeta José Anjos.

Música no Jardim D. Luís

Porque festival não é festival sem música, o Festival Silêncio volta a organizar um ciclo de concertos que prometem animar o Cais do Sodré fim de semana fora. Ao contrário do que aconteceu o ano passado, este ano as atuações não decorrerão na Praça São Paulo. A vizinhança, descontente, obrigou a organização do festival a mudar o palco para outras bandas — para o Jardim D. Luís — e a deixar a Praça apenas para as conferências.

Ao todo, serão mais de duas dezenas de espetáculos, que irão alargar-se a outros espaços do Cais do Sodré, como o Musicbox ou o Rua das Gaivotas, 6. Um dos destaques vai para o projeto Tormentas, que abrirá o festival na quinta-feira, às 22h. Tormentas é um projeto de Ricardo Martins e Miguel Borges que, em 2015, lançaram em conjunto o álbum Tormenta. Ao disco, apenas instrumental, foram agora acrescentadas palavras, de propósito para o Festival Silêncio. A Tormenta tornou-se Tormentas.

O grande destaque musical do festival é, porém, o rapper brasileiro Emicida, que viajará até Portugal para um concerto especial no Musicbox. A atuação está marcada para a meia-noite de sábado, e terá como base o novo álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, gravado no decurso de uma viagem de vinte dias ao continente africano.

No mesmo dia, o Jardim D. Luís vai também receber Aline Frazão, às 20h30, e Samuel Úria, às 22h. No domingo, será a vez de Lula Pena, às 22h. Mas não faltará fado, com os Fadistas do Povo, e até sons mais clássicos. Como todas as outras iniciativas do festival, a programação musical é extensa e para todos os gostos. É só consultar os horários e escolher.