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União Europeia

Gianni Pittella, líder dos socialistas no Parlamento Europeu: “É muito mau aplicar sanções”

Gianni Pittella, presidente do grupo dos socialistas no Parlamento Europeu, defende que este não é o momento histórico para sanções e que todos os países se devem unir para promover crescimento.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Gianni Pittella, eurodeputado italiano e líder dos eurodeputados socialistas, considera que a falta de informação durante a campanha levou ao Brexit e que a moda dos referendos tem de ser travada. Em Itália, onde há um referendo marcado sobre alterações constitucionais, espera que Matteo Renzi, primeiro-ministro e companheiro do Partito Democratico, tenha uma grande vitória. Em Portugal para se encontrar com Ferro Rodrigues e participar numa conferência sobre a Europa, Pittella opôs-se novamente às sanções a Portugal e afirmou que os partidos socialistas da Europa se afastaram das pessoas que mais perderam com a globalização. Leia a entrevista.

Já disse muitas vezes que Portugal e Espanha não devem ser alvo de sanções. Mas acha que os comissários têm esse entendimento?

Espero que sim. Espero que, depois do Brexit, a Comissão Europeia tenha um entendimento comum de que este não é o momento de sancionar nem castigar os países, mas sim de encorajar políticas e encorajar o crescimento e emprego. O Governo português está a fazer as coisas bem, está a reduzir o défice e a apostar no crescimento. Não acho que este Governo mereça sanções.

Caso Portugal sofra sanções será uma questão política ou apenas o cumprimento das regras dos tratados?

Não, não acho isso. Há momentos na História que nos obrigam a distinguir o que é oportuno do que não é. É muito mau escolher aplicar as sanções.

Caso as sanções sejam recomendadas pela Comissão, como é que considera que o Governo português deve agir?

O Conselho pode escolher não aplicar as sanções. É só uma proposta da Comissão e o Conselho pode rejeitá-la.

Foi sugerido pelo Bloco de Esquerda, partido que apoia o Governo no Parlamento, que caso as sanções fossem aplicadas se deve referendar “a chantagem da União Europeia”. Acha que estas consultas devem ser feitas?

Precisamos de travar esta moda dos referendos sobre tudo. Pedimos aos cidadãos que expressem a sua opinião em assuntos muito importantes e como aconteceu no Reino Unido, talvez algumas respostas foram dadas sem o conhecimento completo do que estava em causa. E é uma pena eles terem decidido sair sem terem noção completa das consequências. Agora deixamos de ter um “reino unido” e há uma crise profunda no país. Tenham calma e cuidado! É preciso gerir bem esta ferramenta importante e democrática que é o referendo.

Ainda sobre os referendos: Itália vai ter um referendo sobre a sua Constituição em outubro. O que acha que vai acontecer? Matteo Renzi já disse que demitiria caso as alterações sejam rejeitadas. Acha que pode haver novas eleições?

Não acho que os italianos digam “não” ao passo histórico que visa transformar o atual sistema constitucional num sistema mais eficaz. Tanto o Governo como o Parlamento decidiram estas mudanças e ao fim de várias décadas o povo italiano vai ter oportunidade de ter uma câmara que decide o processo legislativo e outra câmara para todos os outros temas. Até agora, as duas câmaras faziam a mesma coisa. Isto compromete a legislação italiana. Não acho mesmo que os cidadãos prefiram o sistema antigo ao novo sistema e, por isso, acho que vamos ter uma grande vitória.

Mencionou que o Governo português está a ser bem-sucedido. Considera que o apoio de partidos eurocéticos na Assembleia prejudica a imagem do Governo português na Europa?

Eu já falei muitas vezes com António Costa e hoje falei com o Presidente da Assembleia da República e há uma linha comum na Europa que é positiva. Essa foi a condição para que o Governo tomasse posse.

Várias análises aos resultados mostram que no referendo no Reino Unido houve um fraco envolvimento do Partido Trabalhista. Quando os partidos socialistas perdem a capacidade de falar com o seu eleitorado isso dá mais espaço aos extremismos?

Desde logo, não devemos confundir os maiores responsáveis por esta situação que são os conservadores. O maior responsável por este desastre é David Cameron, não os trabalhistas. Algumas responsabilidades são também dos socialistas, mas não só no Reino Unido, em toda a Europa. Perdemos uma parte dos nossos eleitores porque não fomos capazes de apoiar muito bem quem mais perdeu com a globalização. Perdemos os mais pobres. No referendo no Reino Unido, foram os mais pobres que votaram para sair. Isto é um sinal que temos de ser capazes de mudar a nossa atitude e perceber que o nosso povo merece o nosso apoio e políticas coerentes.

gianni pittella,

Gianni Pittella encontrou-se com Ferro Rodrigues na Assembleia da República

E como é que se consegue inverter isto? Há cada vez mais pessoas que se viram para partidos extremistas tanto à esquerda como à direita.

Há dois pontos-chave. O primeiro são as políticas económicas e sociais. Temos de construir uma nova fase em que o objetivo é criar trabalho e crescimento sustentável. O segundo ponto é encarar o fenómeno da imigração através de verdadeira cooperação entre todos os Estados-membros da UE. Devemos todos acolher os refugiados e criar maneiras legais para os imigrantes chegarem à Europa, melhorando também a parceria com os países africanos. Nunca podemos abandonar a solidariedade.

Houve recentemente uma reunião entre os países fundadores da União Europeia e houve algumas conclusões sobre o aprofundamento do projeto europeu. Não se corre o risco de criar uma Europa a duas velocidades?

Agora devemos estar todos unidos e envolver os Estados-membros mais relutantes de forma a criar uma posição comum. Acredito que líderes como Matteo Renzi, António Costa e François Hollande, com outros, vão conseguir encontrar um compromisso com os líderes dos partidos da democracia-cristã. Já fazemos o mesmo no Parlamento Europeu.

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Texto de Catarina Falcão, fotografia de Hugo Amaral.
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