O banco italiano Monte dei Paschi registou a pior nota nos testes de stress aos grandes bancos europeus. A instituição que, num cenário de choque económico teria um rácio de capital negativo de 2,2%, antecipou em uma hora a divulgação deste resultado com o anuncio de um aumento de capital que pode ir até cinco mil milhões de euros.

O gigante alemão Deutsche Bank, apontado pelo Fundo Monetário Internacional como um risco à estabilidade financeira mundial, foi um dos bancos que piorou a sua nota nos testes de stress. No cenário económico mais adverso testado pelo regulador europeu, o rácio de capital de qualidade máxima foi de 7,8%, que compara com 11,1% registados no final de 2015.

Os rácios do Banco Popular e do irlandês Allied Irish também se degradaram em relação aos últimos testes, sendo que no caso do banco espanhol com presença em Portugal foi já anunciado um aumento de capital que irá reforçar substancialmente os resultados conhecidos esta sexta-feira. O exame mais exigente aos 51 maiores bancos europeus não inclui nenhuma instituição portuguesa. Os bancos nacionais também foram avaliados, mas a um nível menos exigente. O BCP anunciou que teria um rácio superior a 7%.

Ao contrário dos testes de stress realizados em 2014, desta vez a EBA (o regulador europeu) não informa se bancos passaram ou chumbaram nos testes, limita-se a divulgar os indicadores de solidez financeira apurados por cada instituição num cenário desfavorável da economia e dos mercados. Cabe aos supervisores de cada país tirar as conclusões e pedir aos bancos com resultados mais frágeis que apresentem um plano de reforço do seu capital.

É também comum que as instituições se antecipem à intervenção do regulador e anunciem aumentos de capital como fizeram o espanhol Banco Popular, mas sobretudo o banco italiano que ficaria com um rácio negativo nos cenários mais pessimistas.

Monte Paschi vai vender créditos maus

A recapitalização do Monte dei Paschi de Siena será acompanhado de uma venda da totalidade da carteira de créditos de má qualidade do banco, no valor de dez mil milhões de euros. Esta operação é uma condição para a realização do aumento de capital que têm como colocadores vários bancos internacionais:

Este será o terceiro aumento de capital privado do banco italiano em dois anos e surge depois de uma derrocada bolsista que retirou 74% do valor em bolsa da instituição. Os analistas esperavam que o Monte Paschi, considerado o banco mais antigo do mundo, estivesse entre as instituições com piores resultados nos testes à solidez financeira dos maiores bancos europeus, o que se confirmou.

Entretanto, o Estado italiano já assegurou que o plano para o Monte Paschi não exige apoios públicos. A banca italiana está no epicentro de uma crise bancária que afeta outros países europeus com destaque para Portugal. O governo italiano tem defendido a necessidade de um pacote de resgate com fundos públicos aos bancos do país que seja implementado num regime de exceção, à margem da regras da união bancária que exigem nos casos de ajuda pública à banca a aplicação de uma medida de resolução.

Os bancos de Itália têm acumulado uma pesada herança de crédito malparado e em incumprimentos à medida que a economia italiana atravessa a mais longa recessão desde a segunda guerra mundial.

As atenções dos mercados e analistas estavam ainda voltadas para os bancos alemães, em particular para o Deutsche Bank, e para os bancos espanhóis, depois de o Popular ter anunciado um aumento de capital de 2,5 mil milhões de euros em maio.

O rácio mínimo de capital de qualidade máxima exigido legalmente é de 4,5%, mas os reguladores exigem mais reservas para fazer face aos ativos de maior risco, bem como almofadas de liquidez que podem ser constituídas por instrumentos de capital de menor qualidade. O Banco Central Europeu usa um rácio de 5,5% como referência para os cenários de testes stress num ambiente económico negativo.

O que é um cenário adverso?

Grande parte da credibilidade destes exames à resistência dos bancos depende dos indicadores testados e do grau de adversidade imposto pelo regulador europeu. Os balanços dos bancos foram testados para responder a quatro tipo de riscos num horizonte de três anos: Uma subida acentuada dos juros das obrigações num mercado com pouca liquidez, fraca rentabilidade da atividade bancária em economias em contração ou estagnadas, crise de confiança sobra a sustentabilidade da dívida pública e dívida privada e capacidade de resistir a um crescimento da chamada banca sombra (que fornece serviços concorrentes aos bancos).

O cenário macroeconómico negativo prevê uma recessão na União Europeia em 2016 e 2017 e uma estagnação da economia em 2018.