Além do “Sr. Atletismo”, Moniz Pereira era também compositor e intérprete. O fazedor de campeões, que parte a menos de uma semana de mais uns Jogos Olímpicos, competição que nunca perdia, compôs mais de 120 sucessos entre fados e canções.

Curiosamente, Mário Moniz Pereira nunca aprendeu música e sempre tocou de ouvido. Aos cinco anos surpreendeu toda a família ao pegar no violino da família e tocar quase sem erros. Mas nem depois disso aprendeu “uma nota sequer”. Era a “sensibilidade” e o apurado “sentido musical”, como contou numa entrevista há anos ao jornal Record, que o faziam sentar-se em frente ao piano lá de casa (que herdou também da família) para compor quando “tinha que ser”.

“Tocar de ouvido” tornou-se assim a sua outra “especialidade”, aquela em que era quase tão bom como a treinar atletas. Mas foi aquela em que se notabilizou mais cedo. Vinha do cinema, chegava a casa, destapava as teclas do velho piano e tocava aquilo que tinha ouvido no filme. O piano, sempre o piano: em todas as suas entrevistas, aparece quase sempre ou de fato de treino do Sporting ou de fato de gala sentado em frente a ele.

A queda para o fado, essa, chegou mais tarde. Mas também por acaso. Terá acontecido no restaurante A Viela, quando ouviu um fado de que gostou muito e o decidiu reproduzir imediatamente: levantou-se da mesa mal viu um piano ao canto da sala e repetiu-o nas teclas. Estaríamos na década de 50 e depressa foi desafiado a compor e a escrever. Frequentava o meio fadista, da Toca de Carlos Ramos, ao Faia no Bairro Alto. É lá que se apaixona pela voz de Lucília do Carmo, a mãe de Carlos do Carmo. A paixão, musical, é recíproca. Ela gosta do estilo, do tom e dos versos e adota pelo menos onze fados seus. O primeiro foi “Contentamento”.

Moniz Pereira sentava-se ao piano e compunha música ao ritmo das passadas que ensinava aos seus atletas. Mas era também um letrista, sendo suas as letras de muitos sucessos de alguns grandes da música portuguesa: além de Lucília e Carlos do Carmo, Amália cantou-o e também Carlos Ramos, Tony de Matos, Fernando Tordo, João Braga, Camané, Paulo de Carvalho, Maria da Fé, Rodrigo ou Maria Armanda.

Entre tão longa carreira musical, há um destaque a fazer. Um dos mais conhecidos fados de Moniz Pereira é “Valeu a Pena”, entoado por tantos e tantos fadistas. São conhecidas pelo menos 18 versões desde que o criou, em 1964: é dele quer a música, quer a letra.

Com voz serena
perguntaram-me ao ouvido
valeu a pena
vir ao mundo e ter nascido
com lealdade
vou responder, mas primeiro
consultei meu travesseiro
sobre a verdade
tive porém, que lembrar o meu passado
horas boas do meu fado
e as más também

Valeu a pena
ter vivido o que vivi
valeu a pena
ter sofrido o que sofri
valeu a pena
ter amado quem amei
ter beijado quem beijei
valeu a pena

Valeu a pena
ter sonhado o que sonhei
valeu a pena
ter passado o que passei
valeu a pena
conhecer quem conheci
ter sentido o que senti
valeu a pena
valeu a pena
ter cantado o que cantei
ter chorado o que chorei
valeu a pena

Valeu a pena
ter amado quem amei
ter beijado quem beijei
valeu a pena
valeu a pena
ter cantado o que cantei
ter chorado o que chorei
valeu a pena

Em 2002 foi lançada a compilação “Moniz Pereira : 40 Anos de Música”, que homenageava essa sua faceta talvez menos conhecida do grande público. Nesse CD duplo, assina a música de todos os 22 temas e algumas das letras (ao seu lado aparecem autores como Rosa Lobato Faria, José Carlos Ary dos Santos, Júlio de Sousa, Vasco Lima Couto, João Dias, Emílio Vasco ou Fernando Tordo). Na Sociedade Portuguesa de Autores, tem 114 temas registados.

A herança que deixa é também genética. A sua neta, Carmo (‘Carminho’) Moniz Pereira, canta fado. Como este do seu avô, Não me Conformo.

Não sei como pudeste descansar
Noutros braços, sabendo que estou triste
Nem um remorso só te faz lembrar
O que te dei e tu retribuíste

Mas como –Santo Deus –tudo apagado
Nesse teu coração descontrolado
Sabendo tu, que o meu se queimaria
Numa saudade viva, dia a dia

Bem sei que todo o bem tem sempre um fim
Mas não, não me conformo assim!

Entre nós dois estão sempre de permeio
Doces recordações a que me agarro
Na estante, o livro que deixaste a meio
No meu cinzeiro, o último cigarro

E o lenço que me deste nos meus anos
Mortalha d’outros tantos desenganos
Onde guardo o que resta desse adeus
Que os teus olhos trocaram com os meus

Bem sei que todo o bem tem sempre um fim
Mas não, não me conformo assim!