O conglomerado chinês Fosun tem planos para vender ativos no valor de seis mil milhões de dólares (5,4 mil milhões de euros) ate 2017, de acordo com declarações do presidente executivo da Fosun Internacional à Bloomberg. “Vamos vender ativos para reembolsar dívida”, afirmou Liang Xinjun ao canal televisivo da Bloomberg, sem especificar que operações ou investimentos poderão ser alienados.

Este anúncio surge dois dias depois de o grupo ter comunicado a apresentação de uma proposta de compra de 16,7% do capital do BCP. A operação a realizar por aumento de capital pressupõe um investimento inicial de cerca de 236 milhões de euros que poderia aproximar-se dos 500 milhões de euros, se a Fosun chegasse aos 30% do capital do banco português, um interesse que foi manifestado à administração do BCP e ao mercado. No entanto este negócio requer várias condições para avançar.

A Fosun foi um dos grupos financeiros chineses mais ativos em compras no mercado internacional nos últimos cinco anos, com uma onda de aquisições que movimentou mais de 15 mil milhões de dólares (13,4 mil milhões de euros), contas da Bloomberg. Uma parte destas aquisições foi realizada em Portugal, onde a Fosun investiu mais de 1.500 milhões de euro entre 2013 e 2014 com a compra de 85% da Fidelidade, a maior seguradora do país, sendo que depois também adquiriu a Luz Saúde (antiga Espírito Santo Saúde), bem com 5% do capital da REN (Redes Energéticas Nacionais). Os recursos financeiros da Fidelidade foram entretanto mobilizados para financiar os negócios do acionista, com investimentos em participações em empresas e no imobiliário.

Uma fatia relevante desta expansão foi sustentado com recurso a endividamento, o que colocou a empresa chinesa no radar das agências de rating que deram nota equivalente a lixo (junk) aos títulos de dívida da Fosun. O responsável pela Fosun Internacional acredita que o grupo “tem capacidade de obter nível de investimento (investment grande)”. Nessa medida acrescenta, “é claro como a água que esta é a nossa estratégia”,

Nesta entrevista, Liang Xinjun, um dos fundadores da Fosun, não refere os planos para reforçar o investimento no setor financeiro em Portugal. No entanto, uma fonte do grupo adiantou ao Observador no sábado que a proposta para o BCP se insere na estratégia de investir a longo prazo no mercado nacional.

Considerando que o grupo tem focado as suas operações nos negócios da saúde, lazer — onde adquiriu o Club Med e o Cirque du Soleil — e financeiro, a Bloomberg admite que a alienação de ativos se centre em outros negócios como os setores do aço e mineiro que eram os responsáveis pelo grosso dos resultados da Fosun quando abriu o seu capital em 2007. O grupo chinês tinha ativos avaliados em mais de 100 mil milhões de yuans no final de 2015, classificados como para venda. Liang referiu, em particular uma carteira de 30 mil 40 mil milhões de yuans (os tais 5,4 mil milhões de euros) em ativos imobiliários, obrigações e participações financeiras.

No ano passado, a Fosun tinha anunciado um travão na política expansionista de aquisições, para consolidar as operações já realizadas, numa altura que estava a participar no primeiro concurso para a venda do Novo Banco que acabou por não se concretizar. Os chineses ficaram de fora do segundo concurso, numa primeira fase, mas ainda podem reaparecer como investidores numa solução para o Novo Banco.

A avaliar pelas aquisições já anunciadas, 2016 poderá ser o ano com menos investimento em operações desde 2013. A crise que abalou no verão passado a bolsa chinesa e o desaparecimento misterioso do fundador e presidente, Guo Guangchang, durante alguns dias no final de 2015 — quando terá sido interrogado pelas autoridades chinesas — levantaram dúvidas aos investidores e castigaram o preço das ações da Fosun.

Apesar da estratégia seja arrumar a casa e controlar a dívida, antes de se lançar em novos voos, os principais responsáveis do grupo chinês mantém no discurso uma ambição de crescer. Outro dos fundadores — Qunbin Wang — afirmou que a meta era fazer da Fosun um grupo a valer 100 mil milhões de dólares (90 mil milhões de euros), sem avançar datas. Para já, as empresas controladas pela holding chinesa estão valorizadas em 26 mil milhões de dólares (23 mil milhões de euros). Ainda falta.