José António mora na vila de Paredes de Coura há 80 anos. Traz no olhar o peso da idade, mas nada o demove de passar o ano à espera da semana que diz ser “a mais feliz”, aquela em que o Festival Vodafone Paredes de Coura veste este lugar mágico de música, de energia, de festivaleiros que trazem de outras paragens a vontade de que estes dias fiquem para sempre.

Para sempre é também o que João Carvalho, fundador do festival, conseguiu fazer de Paredes de Coura, há precisamente 24 edições. Depois de ter decidido apostar tudo neste projeto, não mais a vila foi a mesma. Já sabemos o cartaz, sabemos as datas e os sítios onde dormir, mas o que talvez não saibamos é que há uma responsabilidade social inerente a este festival que João Carvalho explica: “Carrego sempre o peso da importância que este evento tem na vila. Posso afirmar que há pessoas que dependem financeiramente deste festival, que me dizem que se não fossem estes dias todos os anos, já tinham fechado os seus negócios. Isso é algo que me comove. Todos os anos me emociono. Adoro sentir a gratidão das pessoas, dar-lhes o que me dão”.

E o que dão é imenso. Disponibilizam as casas, um prato de sopa, a história que também ajudaram a construir ao longo destes 24 anos. “Confesso que este carinho e este amor que aqui se vive também mudou as nossas vidas. Não me imagino a ter outra profissão que não esta que me faz trabalhar com música”.

João Carvalho é uma pessoa de relações. Não esquece um olhar, uma história. Não se priva de, ano após ano, deixar o tempo entregue às longas conversas com as pessoas que habitam a vila. De perceber o que sentem, como sentem, como vivem estes dias de festival: “As pessoas retribuem o que dás e este festival é um case study, é mágico o que aqui acontece todos os anos. Há muito de mim e dos meus sócios em tudo isto e a verdade é que, quando tratas bem as pessoas, elas têm tendência em retribuir-te da mesma forma”.

Existe Coura. E depois existem os outros festivais

João Carvalho não tem dúvidas de que o Vodafone Paredes de Coura é o festival mais difícil de fazer em Portugal, isto porque “temos um festival a decorrer num sítio pouco provável, perdido a norte, ao mesmo tempo em que decorrem pelo menos sete festivais na Europa e não só. Aqui a grande dificuldade é convencer as bandas a vir tocar a Paredes de Coura em detrimento de qualquer outro sítio”. O segredo? É simples: “Primeiro é preciso ter uma marca sólida, ter nome no mercado e junto dos principais agentes mundiais. Por outro lado, todas as bandas que já tocaram cá, adoraram e isso faz com que queiram repetir”.

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O festival invade a vila de Paredes de Coura durante cinco dias / OBSERVADOR

Fazer um cartaz não é fácil, mas o fundador confessa que quando se senta todos os anos a desenhá-lo, o faz com o mesmo entusiasmo de sempre, como se fosse a primeira vez. “O que nos dá realmente mais gozo é apresentar bandas que nunca ninguém viu, despertar tendências e arriscar novas sonoridades”. Para quem não sabe, há bandas que estiveram pela primeira vez em Portugal no Vodafone Paredes de Coura, como por exemplo os Coldplay, o Queen of the Stone Age ou os LCD SoundSystem, que constam novamente no cartaz deste ano. “Este festival é quase como um laboratório musical, apresentou já muitas bandas em primeira mão”, conclui.

A edição de 2015 esgotou pela primeira vez. João Carvalho podia ter aumentado a capacidade do recinto, mas preferiu não o fazer. “Não queremos mais pessoas, nem mais dinheiro. Não estamos aqui para enriquecer, mas sim para oferecer as melhores condições a todos os que nos visitam. Este ano aumentámos a área do festival para que seja possível andar mais à vontade, ter mais espaços de descanso, ente outras coisas. Também temos uma nova zona de chuveiros, mais casas de banho e mais bares. O foco é sempre no bem-estar das pessoas e essa é uma das coisas que também faz a diferença”.

Como a Vodafone entrou no festival

Para João Carvalho, a entrada do patrocínio da Vodafone no festival trouxe coisas muito boas. “A Vodafone só veio acrescentar coisas positivas e percebeu desde sempre que este é um festival especial, com uma filosofia diferente, com um grande poder de comunicação”, revela, acrescentando ainda que “hoje em dia assumo que a marca é o parceiro ideal para este evento. Fala a nossa linguagem, percebe bem o que queremos oferecer ao público”.

Quem vive esta experiência, sabe que nos intervalos dos palcos não há ruído, que não é um festival de brindes, nem um sítio “onde as marcas gritam com o consumidor. Somos pela música e é exatamente aí onde nos focamos”.

À hora em que este artigo foi escrito, já as portas do último dia estavam abertas. Já os festivaleiros se acumulavam no imenso mar de afetos que faz destes dias um lugar inigualável.