Daniel Bessa confessou que nem se lembrava de quem tinha sido o último ministro da Economia do PSD. “É o lugar do morto”, disse esta terça-feira nas jornadas parlamentares do PSD, em Coimbra, perante uma plateia de deputados. Lá atrás, na última fila, José Pedro Aguiar-Branco chutou o nome de Álvaro Santos Pereira. Errado. Afinal também não se recordava do colega de Governo. Nas filas da frente, alguém esclarecia: “António Pires de Lima”. Este dirigente do CDS tinha sido, de facto, o último ministro da Economia de um Governo do PSD. Segundo Daniel Bessa, um independente próximo do PS — e ex-ministro da Economia de António Guterres — há mais de 20 anos que Portugal não consegue pôr a economia a crescer a olho nu. Na sua opinião, o governo de Passos Coelho foi “altamente social-democrata” porque “protegeu os mais pobres”, e o último ministro de que se lembra capaz de tal feito terá sido Luís Mira Amaral, também ele um social-democrata num Governo de Cavaco Silva…

Confuso? É uma mistura de cores e partidos. Dois ex-ministros de José Sócrates, três ex-ministros de António Guterres, um ex-presidente da Assembleia da República socialista e um ex-comissário europeu. Todos estes socialistas foram convidados especiais dos eventos que, neste final de verão, marcaram o regresso do PSD e do CDS ao novo ano político: uns ousaram defender as políticas do Governo do PS, outros optaram por aproveitar a maré e dizer mal das esquerdas que hoje suportam o Executivo. Daniel Bessa optou por pôr a plateia laranja a rir. Luís Amado, ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, também esteve esta segunda-feira à noite perante os deputados do PSD nas jornadas parlamentares para refletir, em tom doutoral, sobre os desafios atuais de Portugal e da Europa. Pelo caminho, deixou recados à “imprevisibilidade” do atual Governo de António Costa.

Juntos, compõem o leque dos chamados socialistas moderados ou “ala direita do PS”: Jaime Gama, Luís Amado, António Vitorino ou Daniel Bessa (que não é militante) e Maria de Lurdes Rodrigues (mais à esquerda) foram os convidados das rentrées do PSD e CDS para irem a território adverso dar aulas a jovens ou debater ideias. Perigo? No CDS houve quem ficasse incomodado com o convite à ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, mas a ex-governante jogou pelo seguro e, apesar de ter justificado as políticas do atual Governo, acabou aplaudida. Outros, como Jaime Gama, foram mais amigos da direita e bateram na esquerda.

Daniel Bessa entre o “lugar do morto”, os “10 milhões de tesos” e os elogios a Passos na “anterior geringonça”

Daniel Bessa só foi ministro da Economia de Guterres por cinco meses (entre outubro de 1995 e março de 1996) e talvez por isso apelide o papel do ministro da Economia como o “lugar do morto”. “Desde Mira Amaral, que foi ministro da Indústria e da Energia, que talvez ninguém se lembre do nome de nenhum outro ministro da Economia”, começou por dizer perante uma plateia de deputados do grupo parlamentar social-democrata em Coimbra.

Num painel dedicado ao “desenvolvimento económico e atração de investimento”, o ex-ministro e professor universitário criticou o modelo de crescimento económico assente na procura interna, dizendo tratar-se de um “erro”, e justificou-o com o facto de ser muito difícil de pôr a economia a crescer nessa base quando as pessoas não têm dinheiro para consumir. “Fazer isso à escala de Portugal é uma patetice”.

Sou amigo de políticas de procura mas não sou amigo de políticas de procura à escala de 10 milhões de tesos e endividados, isso é uma catástrofe”, disse, pondo os deputados laranja a rir.

Se não é pela via da procura interna que o problema do crescimento económico se resolve então é pela via do investimento? Talvez, defendeu, mas com ressalvas. “Qual foi o último grande investimento que Portugal fez? Antes investimento era sinónimo de betão, e agora? A que é que chamamos investimento?”, questionou, sublinhando que, em todo o caso, investimento é uma “palavra bonita”.

“Investimento é uma palavra muito bonita. Quando saio de casa sem saber o que vou fazer digo à minha mulher que vou investir e ela lá fica em casa à espera do retorno do investimento”, disse, arrancando mais gargalhadas na “casa dos outros”, como notou quando ousou tecer considerações sobre o liberalismo económico e as “acusações” que nos últimos anos têm sido feitas ao PSD por alegadamente se ter tornado “mais liberal”. “Vocês são acusados de serem muito liberais, e quem sou eu para falar nisso aqui na casa dos outros. Também eu fui liberal quanto baste numa série de temas”, disse.

É certo que o economista não é filiado no PS e tem até sido bastante crítico dos últimos governos, mas pelo caminho foi ao Governo liderado por Pedro Passos Coelho que reservou os maiores elogios. “Se alguma coisa o Governo do doutor Pedro Passos Coelho fez nos quatro anos que teve de gerir a anterior geringonça foi cuidar dos mais pobres”, disse, salientando que não viu “descer o salário mínimo nem as pensões mínimas, nem agravar os impostos para as classes mais baixas”.

Apontou, contudo, que o grande problema que afetou as classes mais baixas durante o período de ajustamento foi o desemprego. “Tudo o resto, o que dependia do Estado eu acho que foi altamente social-democrata”, afirmou, recebendo aplausos da plateia de deputados do PSD.

Amor do PSD para Luís Amado. Até ex-ministro fez perguntas ao ex-ministro

Luís Amado, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa nos dois Governos de José Sócrates, foi o convidado de honra no encerramento do primeiro dia de jornadas parlamentares do PSD, esta segunda-feira, em Coimbra. Jantou durante largas horas com os deputados sociais-democratas e recebeu, como todos os convidados, uma mini garrafa de licor, cortesia da distrital do PSD de Coimbra, com a seguinte mensagem: “A capital do amor em Portugal dá-lhe as boas-vindas”. O clima foi, de facto, de amor e cortesia. Amado foi recebido com vastos elogios por Luís Montenegro — e por Pedro Passos Coelho que saiu do Estoril a correr para chegar a Coimbra a tempo do jantar tardio com o ex-governante socialista — e deu elogios para a troca.

Montenegro começou por elogiar o “percurso de dedicação à causa pública” do ex-governante. Disse que além de deputado foi “membro de vários governos” e teve um “papel muito relevante como ministro dos Negócios Estrangeiros”. Isto, além de ser uma “pessoa de grande envergadura no mundo académico e empresarial”. Em resposta, Luís Amado agradeceu o convite e sublinhou o “prazer de ver muitas caras conhecidas”, alguns “companheiros de confronto eleitoral” e pessoas que “admira” na bancada social-democrata. Passou depois para uma aula de cerca de meia hora sobre os desafios que Portugal e a Europa enfrentam, tendo direito a perguntas de vários deputados, nomeadamente do seu anterior homólogo José Pedro Aguiar-Branco, que questionou o também anterior ministro da Defesa sobre o eventual reforço da posição de Portugal na Nato.

Pelo meio, deixou mensagens ao atual Governo socialista de António Costa, defendendo que se Portugal fosse capaz de garantir mais estabilidade e “previsibilidade” conseguiria captar mais investimento e crescer mais. “Quem for capaz de oferecer mais certeza, mais previsibilidade, mais estabilidade tem uma vantagem competitiva enorme”, disse. “Aliás, se o nosso país fosse capaz de garantir tudo isso — mais certeza, mais previsibilidade, mais estabilidade, mais segurança — teríamos seguramente num contexto de tanta desordem que vai por esse mundo fora, e em particular na Europa, uma oportunidade muito melhor de crescer, captar investimento, atrair capitais”, disse, ao lado de Passos Coelho.

Para o antigo ministro de José Sócrates, “é preciso uma forma inovadora capaz de garantir confiança e estabilidade” e sugeriu uma fórmula própria, que não passa pela esquerda, mas sim pela moderação:

Centro radical para tempos de radical incerteza, centro radical – é essa a minha fórmula política mais consistente”.

Jaime Gama e o “oportunismo” do PCP e do BE

Foi o único convidado socialista da Universidade de Verão do PSD. No final de agosto, em Castelo de Vide, vestiu a camisola da equipa da casa, aplaudindo o europeísmo dos partidos do centro, PS e PSD, e criticando os outros que “passam certidões de óbito à União Europeia”. Ou seja, o alvo escolhido foi PCP e Bloco de Esquerda. Nem muito ao mar nem muito à terra. Num jantar conferência com os jovens sociais-democratas, o ex-presidente da Assembleia da República a antigo ministro dos Negócios Estrangeiros começou por identificar os problemas urgentes que a União Europeia atravessa, do brexit ao terrorismo, e deixou claro que Portugal não pode ficar de fora na busca de uma solução, como preconizam os partidos da esquerda.

Jaime Gama, que falou para os jovens simpatizantes do PSD com uma postura de professor, não criticou o PSD nem tão pouco o CDS, nem sequer defendeu o PS. Limitou-se a afinar o tiro aos atuais parceiros do PS no Parlamento, criticando-os por se fixarem na “descrença, no desinteresse, na piada fácil, na reivindicação imediata” e na “repreensão oportunista”. A retórica antieuropeia, que também tem feito caminho no seu partido foi o alvo das suas críticas: “Os que não passam certidões de óbito à União Europeia são os que estão no bom caminho”, disse, piscando o olho ao partido anfitrião.

Ali não houve alfinetadas nem divergências ideológicas. O tema da “aula”, escolhido pelo orador, foi a Europa, e é sabido que a Europa é, nos dias que correm, o único chão comum entre PS e PSD — apesar das grandes diferenças entre os dois partidos na abordagem das políticas da União Europeia.

Maria de Lurdes Rodrigues culpa Crato mas não desculpa Tiago Brandão Rodrigues

O CDS foi mais longe do que o PSD e convidou para a sua escola de verão não só a ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues, para debater Educação, mas também o ex-ministro da Defesa de António Guterres e ex-comissário europeu António Vitorino, para debater os desafios da política externa ao lado de Paulo Portas. Maria de Lurdes Rodrigues, que fez parte de um Governo de José Sócrates, era talvez a aposta mais arriscada. Surgiram reparos quando se soube do convite, através do ex-presidente da Juventude Popular, Michael Seufert, que criticou publicamente a escolha da oradora devido ao legado pouco “respeitável” de “heranças” como a Parque Escolar, mas acabou aplaudida pelos jovens democratas-cristãos depois do debate que protagonizou com a deputada Ana Rita Bessa.

Como resolveu o desconforto? Primeiro, começou logo por justificar a sua presença desfazendo o “equívoco”. “Participei num Governo PS, a minha visão ideológica e pragmática sobre Educação é conhecida, e admito que as pessoas aqui presentes pensem de forma diferente e estejam em desacordo com aquilo que eu aprovei e defendi”, avisou logo à partida. Depois, ensaiou uma tentativa de defender as supostas reversões do atual Governo no que diz respeito às políticas de Educação (fim dos exames do 4º ano, fim dos contratos de associação), justificando-as com a falta de consensualização das medidas implementadas por Nuno Crato. Moral da história: é preciso consensos em torno das reformas grandes (como as da Educação) para que um novo Governo não chegue ao poder e não desfaça o que foi feito pelo anterior. Se as políticas de Crato não foram unânimes, as de Brandão Rodrigues também não são e eis a bola de neve.

António Vitorino à boleia de Portas não foi para fora de pé

Menos político foi António Vitorino, que foi à Escola de Quadros do CDS debater os desafios internacionais ao lado de Paulo Portas. Mas Vitorino tinha um álibi perfeito: Portas não queria falar de política nacional, por isso, não era preciso sair da zona de conforto. Habituado a debater na televisão ao lado do social-democrata Pedro Santana Lopes, Vitorino teve desta vez como interlocutor o ex-líder do CDS, mas pouco debate houve.

Numa alteração ao cenário habitual da Escola de Quadros, onde os dois oradores costumavam debater lado a lado, sentados num sofá, Portas e Vitorino optaram por fazer cada um uma intervenção, de pé, num púlpito, não havendo por isso muito espaço para debate. Vitorino classificou a saída do Reino Unido da União Europeia como uma derrota do projeto político europeu e defendeu que atualmente não existe um equilíbrio de forças na UE, havendo sempre um grupo condenado a ficar do lado dos perdedores. Falou do desafio das eleições americanas, da “deriva autoritária” na Polónia e na Hungria, e criticou o Brasil por não ter uma postura muito dialogante na CPLP. Nada que o comprometesse.