Título: “O Eremita Viajante. Haikus — Obra completa”
Autor: Matsuo Bashô
Organização: Joaquim M. Palma
Editora: Assírio & Alvim
Páginas: 424
Preço: 22 €

basho capa

O fascínio pelo Japão é uma árvore de muitos ramos, em que vigoram a mais civilizada antiguidade ao lado da mais frenética contemporaneidade urbana, a mais cerimoniosa cordialidade em contraste com a mais feroz crueldade bélica, o zen mais introspectivo e pacificador em frente de perfeitas lâminas de aço, muito úteis na cozinha e insuperáveis quando se trate, por exemplo, de lidar com ladrões de caminho de pé posto ou pôr a correr pretensos expoentes da academia, habituados ao beija-mão como única prática convivival e à usurpação do humor, de que grosseiramente reivindicam o exclusivo. E depois de muito mais, em muitos campos de sublimação japonesa do viver — do habitar ao vestir e ao comer, do amor dos bichos à recepção da primavera como se fosse um parente querido em visita —, há também a poesia haiku, em que três versos apenas bastam para criar grandes mundos imagéticos: um sopro vital curto e rápido capaz de inundar tudo e todos com a intensidade da sua palavra concentrada, para elogio da “transcendência do efémero” (p. 51). “Uma canção sem palavras”, chamou-lhe o inglês R. H. Blyth (1898-1965), um especialista em cultura japonesa.

Não admira, por isso, que enquanto forma literária original tenha recebido a atenção daqueles que, como Ezra Pound (1885-1972) e Jorge de Sena (v. Poesia de 26 Séculos: II, De Bashô a Nietzsche, 1972), buscaram conhecer a poesia como expressão humana viva em todas as partes do planeta, nem surpreende que poetas de línguas ocidentais tenham sido seduzidos pela potencialidade desses poemas tão curtos, cuja desafiante brevidade lhes exigia a mais aguçada maestria literária e imagética.

Hoje não restam dúvidas de que a moda europeia, norte-americana e brasileira dos haikus “vendeu” muito gato por lebre, desgastando a longa distância do seu epicentro o prestígio duma forma poética fixada no Japão do século XVII por autores como Matsuo Bashô (1644-94) — que está para o haiku como Katsushika Hokusai (1760-1849) estará para a xilogravura japonesa, inclusive em termos de projecção ocidental; e o artista escreveu um celebrado haikai pouco antes de morrer. É também por isso que o notável trabalho de Jorge M. Palma nesta tradução e anotação da obra completa de Bashô merece ser francamente elogiado como um lúcido regresso à fonte, num contexto editorial português em que a mediania, senão mesmo a mediocridade, com a sua presença ruidosa em plena feira de vaidades, parecem querer forçar o passo e os créditos merecidos pela grande literatura — venha ela donde e de que época vier —, a única capaz de criar entre nós uma grande leitura e, em consequência, uma escrita melhor.

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O livro dá continuidade à atenção da Assírio & Alvim à cultura japonesa, com trabalhos literários de Jorge de Sousa Braga (2003) e de Luísa Freire (2003 e 2007), ou dedicados a outros aspectos como tiro com arco (Herrigel e Susuki, 1997), arte floral (Gusty Herrigel, 2001) e cozinha zen (Eihei Dogen, 2010). E parece querer reagir à incompreensível indiferença de Portugal relativamente ao Japão, quando historicamente tivemos tudo para tomar a dianteira europeia na aproximação cultural àquele país civilizadíssimo. Na introdução a uma recolha, em 2002, das suas crónicas duma curta viagem ao Japão em 1978, João Bénard da Costa observou a inexistência de nova literatura portuguesa sobre o país, tendo recorrido por isso a um livro de Roland Barthes para orientar a sua estadia em Tóquio. Há pouco apareceu o simpático Arigato, Eu. Os portugueses no Japão de Luís Brito (Fundação Francisco Manuel dos Santos, Abril de 2016, 77 pp.), mas o panorama é incrivelmente pobre. Obras do embaixador Armando Martins Janeira (1914-88) não são reeditadas há três décadas. Os livros de Patrick Lafcadio Hearn (1840-1905) publicados pela Cotovia em 2005-6 vendem-se a preços de saldo. Wenceslau de Moraes, se não está esquecido, é lido por muito poucos. Dos primeiros jesuítas portugueses no Japão e dos belos biombos nanbam — algo de invulgar — ocupa-se actualmente um editor parisiense, Michel Chandeigne, aproveitando um nicho livreiro que por cá ninguém realmente quer…

Bashô, que como Hokusai teve vários nomes ao longo da sua vida e carreira, escreveu cerca de 1000 haikus, boa parte dos quais Palma contextualiza e explica ao longo de 90 páginas de notas úteis, resultado dum árduo trabalho de consultas de fontes e bibliografia que o leitor comum português desconhece em absoluto. A esse esforço de compreensão soma-se a dificuldade de traduzir do japonês, idioma em que uma elevada polissemia vocabular e verbal facilmente confunde o leitor, exigindo ao tradutor estrangeiro um suplemento de fidelidade ou de busca de legitimação das suas opções pessoais através do confronto com traduções noutras línguas. Foi esse zelo que levou Palma a preferir chamar versões, ou aproximações, às suas traduções (p. 41), reconhecendo ter feito da consulta de «uma avultada documentação sobre o mundo do haiku e da cultura japonesa» o seu método de trabalho na construção deste livro.

Matsuo Bashô começou a escrever haikus em 1663 — tinha, portanto, 19 anos apenas —, obedecendo a uma tradição de escolas poéticas que ritmavam a criação literária pelo ciclo das estações, pelo início e meses do ano, “viajantes da eternidade” (p. 170) e sua principal fonte de inspiração. “Quem consegue abrir | o livro escolar | nesta manhã de primavera?” (1678, p. 73) parece ser, pois, uma grande síntese cultural, como, páginas adiante, “Enquanto a cerejeira | estiver em flor | o mal-estar não existe” (1681, p. 81). Mas o poeta é de facto um “eremita viajante”, que na primavera de 1684 assinala que, acolhido como hóspede em Asakusa, “Na tijela decorada | a sopa de algas | atinge a perfeição” (p. 93), e no inverno desse ano regista “Como é áspero | o som do granizo | no meu chapéu de madeira!” (p. 100). O peregrino é um animal em trânsito como qualquer outro: deixando Tôyô a caminho do leste, compara-se à abelha, a quem “é difícil deixar para trás | as pétalas da peónia” (p. 100).

Esta delicadeza vital, sem pose, percorre as páginas da “obra completa” de Bashô. Assinalando um aguaceiro de verão em 1897, escreve: “Chuva caindo do beiral | para o balde que transborda — | uma voz pela noite dentro” (p. 126). No Monte Kazuraki, proclama: “Quero contemplar uma flor | à primeira luz do dia — | para ver a face de um deus” (p. 145). Encontros mensais de poetas em templos também lhe inspiram haikus: “Os amigos embriagados | falam inclinados | como cascatas de flores” (p. 143); “Por breves instantes | o meu amigo foi deus | num ano para esquecer” (p. 204). Vários poemas seus foram integrados em pinturas da época, tal como, mais tarde, viriam a ser gravados na pedra de monumentos, em homenagens póstumas: “Rosas sem cheiro junto | a folhas de chá tostadas? — | empréstimo de fragrância” (p. 226), ou, para a pintura dum sacerdote: “O peixe-gelo | ficou de olhos abertos | dentro da rede da lei” (p. 249).

Muitos poemas de Bashô foram escritos durante viagens pelo país e reunidos em livros de que esta edição não refere senão na biografia do poeta. Seria, de facto, um pormenor perturbador duma leitura fluída. Didascálias são suficientes para nos indicarem onde os haikus foram escritos: num santuário, na casa dum actor de teatro Nô, num desfiladeiro, num jardim, na margem dum rio, em mais um encontro de poetas, na visita a uma monja idosa, na nova casa dum amigo, numa travessia de barco: “as cintilações | no mar nocturno — | lágrimas de peixes” (p. 202). O poeta colhe os seus motivos nessa itinerância permanente, que é a própria condição poética, o que torna justíssimo e certeiro o título escolhido para esta valiosa antologia: “O coração viajante não se enraíza | antes quer ser | braseira ambulante” (1690, p. 218).