Em dia de clássico, é sempre de bom tom olhar para o passado e perceber a tendência. No Porto, o FCP é rei e senhor. Em 82 jogos para o campeonato, o domínio é avassalador, com 50 vitórias para 13 derrotas. Em empates, 19. Em golos, um mais que positivo 162-95. De 1934 até aos nossos dias, esses tais 82 anos de convivência nem sempre se pautam pela ordem e bons costumes. A rivalidade atinge pontos inaceitáveis, sobretudo em 1983.

Recuamos um pouco. Quando o Benfica vai a votos em 1981, é Fernando Martins quem sai vencedor vs. Queimado. Na primeira entrevista como presidente, ao jornal “A Bola”, o novo presidente tem as ideias bem definidas. “Não quero o Benfica para promoção pessoal, e não se trata de mais um ato de coragem, mas sim de consciência: só eu poderei levar a cabo a grande viragem que o clube necessita”. Qual viragem? “Prolongar o Terceiro Anel, a meia altura, não é utopia, pois se o Marquês de Pombal assim pensasse talvez a Avenida da Liberdade fosse outra Rua da Betesga.”

Numa tumultuosa AG realizada quinze dias depois da eleição, demite-se e está à beira de um colapso cardíaco. É assistido por um médico de emergência e volta em forma, retirando o pedido de demissão uma semana volvida. Continua para triunfar. Os dois primeiros atos da sua gerência merecem forte contestação mas resultam em pleno. Primeiro, paga ordenados baixos e dá prémios de jogo altos. Depois, vai buscar um jovem técnico sueco, Sven-Goran Eriksson de seu nome, para substituir Lajos Baroti na impossibilidade de contratar José Maria Pedroto, já a caminho do Vitória de Guimarães. “Não meto golos, mas quero assegurar a treinadores e jogadores todas as condições para não me atribuírem culpas se os golos não acontecerem.”

Feitas as contas, ganha dois campeonatos (seguidos) em cinco possíveis e quatro Taças de Portugal em seis. Uma delas é nas Antas, em agosto (!). Estamos na pré-época 1982/83 e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) dá a certeza de que a final se realizaria nas Antas, independentemente do nome e do peso dos clubes, mas o rastilho acende-se quando FCP (9-1 ao Académico, da 2.ª divisão) e Benfica (2-0 ao Portimonense) apuram-se para a decisão.

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E agora? O Benfica não acha graça nenhuma à coincidência e o presidente Fernando Martins mostra-se intransigente, razão pela qual manda todos os seus jogadores para as merecidas férias, depois de conquistado o campeonato. No Porto, a atitude benfiquista faz mossa e os rumores de manobras de bastidores no sentido de transferir a decisão para Lisboa deixam os portistas à beira de um ataque de nervos. Organiza-se, então, uma assembleia-geral no dia 1 de Junho, em que os sócios aprovam por aclamação que o clube não comparecesse à final, a não ser nas Antas. “Lisboa não pode colonizar o resto do país. O desejo deles é que o FC Porto desça de divisão”, vocifera Pinto da Costa.

No dia 6, o Conselho de Justiça da FPF dá razão ao FC Porto, mas o Benfica ameaça recorrer aos tribunais civis, pelo que a final ficou adiada sine die. E é aqui que entra o sueco Sven-Goran Eriksson, no relato de Carlos Manuel. “A Taça já estava marcada para as Antas há muito, por isso não valia a pena teimar. Então Eriksson dirigiu-se ao presidente Fernando Martins e disse-lhe para jogarmos a decisão no Porto. O presidente ouviu e aceitou.” A versão do presidente é, no entanto, ligeiramente diferente, com fina ironia pelo meio. “Fui eu que decidi que fôssemos às Antas, por uma questão de respeito pelo futebol e para evitar que o Porto pudesse estar sujeito a terríveis consequências.” Na tarde de 21 agosto 1983, o Benfica ganha 1-0 nas Antas com um golo de Carlos Manuel aos 20 minutos. “Parecido com o de Estugarda, dois anos depois.” A Taça voa para a Luz. Para contentamento de Fernando Martins.

Posto isto, cabe-nos recordar os tempos em que Porto e Benfica dividem o campo para inaugurações e afins.

28 maio 1952

A cidade do Porto acorda bem cedo e enche o Estádio das Antas às 10h00 da manhã, quando o jogo de inauguração só está previsto para as 16h00. Tão cedo e o novo estádio já rebenta pelas costuras, com 50 mil pessoas. Todas – entre elas um jovem Pinto da Costa, de 14 anos, que ainda hoje guarda um lenço comemorativo dessa tarde quente – têm de pagar 20 escudos pelo espetáculo. O Benfica aceita o convite, só não colabora na festa. No final, 8-2 é dose.

Virgílio, o Leão de Génova, alcunha dada depois de um célebre Itália-Portugal (4-1) em Fevereiro 1949, justifica-se: “Enquanto o Benfica se preparou para o jogo no balneário, todos os jogadores do Porto ficaram horas de pé, ao sol, para as habituais cerimónias de inauguração. Quando o jogo começou, o Benfica estava fresco, o Porto não!” Arsénio faz o 1-0 e entra para a história das Antas. Tal como o suplente Vital, autor do primeiro golo portista. O defesa Artur lembra-se dessa tarde. “Foi 8-2, poderia ter sido 10 ou 11. O Benfica jogou muito bem numa festa maravilhosa com o estádio lotado. Ninguém parou o ‘rato atómico’ Arsénio e ele fazia o que queria. Corria, cruzava, rematava, passava. Todo um espetáculo.”

No final é quase impossível carregar a Taça General Craveiro Lopes, que pesa 18,5 quilos. Os capitães Arsénio e Moreira têm imensa dificuldade em transportá-la da tribuna das Antas para o relvado e do Porto para Lisboa, de comboio. A sorte é que os adeptos em Santa Apolónia são tantos que ajudam a carregar o troféu a chegar à sede do Benfica.

1 dezembro 1954

Em resposta à goleada na inauguração das Antas, o Porto ganha ao Benfica na estreia do Estádio da Luz. Nesse primeiro dia de dezembro, as atividades festivas começam às 11h00 da manhã, quando Joaquim Bogalho abre o portão principal que dá para as acomodações da imprensa e para os balneários. Assiste-se a um desfile infindável de sócios, atletas, ex-atletas, dirigentes. Tudo ao grito de Ben-fi-ca, muitos foguetes à mistura e a presença do general Craveiro Lopes, então o presidente da República. À festa, segue-se o jogo. Em resultado da clara vitória (3-1), iniciada com um autogolo de Jacinto Marques, o FCP recebe o troféu, “uma águia enorme, lindíssima”, no entender do avançado Monteiro da Costa.

No lado contrário, cabe a Palmeiro a honra de assinar o golo benfiquista. Ele que saltaria para a fama com um hat-trick na estreia pela seleção (3-1 à Espanha, em Junho 1956) antes de ser o autor do primeiro golo benfiquista nas competições europeias (3-1 vs. Sevilha, em Setembro 1957). “Belos tempos! Recordo-me perfeitamente do golo que marquei ao FC Porto nessa tarde de dezembro, com sol. Foi uma jogada pelo lado direito, fingi que ia centrar e rematei de pronto entre o Barrigana e o poste.”

8 setembro 1976

A UEFA suspende as Antas por um jogo, pelos incidentes em Hamburgo, na sequência dos protestos de alguns jogadores (Oliveira, Tibi, Gabriel e Dinis) ao árbitro húngaro Somlai num 2-0 com penálti e expulsão de Gabriel incluída.

Em 1976-77, o FCP volta à Europa e tem de o fazer em casa emprestada, frente aos alemães do Schalke. O Estádio José Alvalade está à disposição, até porque o Sporting falha o acesso às competições europeias nessa época, só que a escolha dos portistas recai sobre a Luz. Trinta e cinco mil pessoas assistem ao empate, para a 1.ª mão da primeira eliminatória da Taça UEFA, no dia da morte do líder chinês Mao Tsé-Tung.

Ao intervalo, 2-0 para o Schalke, à conta do bis de Fischer. Na segunda parte, Rodolfo e Cubillas anulam a desvantagem antes da meia-hora e é o árbitro galês Gow quem anula inexplicavelmente o 3-2 de Gomes, numa recarga a uma defesa incompleta de Schubert após livre fortíssimo de Cubillas. “Eram outros tempos, a rivalidade desse tempo é entre Benfica e Sporting. Nós ficávamos de fora, a assistir”, graceja Octávio Machado, então médio do FCP.

22 setembro 1985

Com os 220 mil contos da transferência de Chalana para o Bordéus, no Verão 1984, o Benfica presidido por Fernando Martins fecha o Terceiro Anel e amplia o estádio para uma capacidade de 120 mil pessoas, além de uma área de 9000 metros quadrados, 180 instalações sanitárias, 60 bares e 14 ginásios. O convite para a inauguração é endereçado ao Porto (e ainda ao Dínamo Bucareste). Nessa noite, a Luz transborda de alegria. E não só: Artur Jorge lança Madjer e sente a magia do argelino. “Este vai dar que falar”, desabafa. Só é pena o resultado de 0-0.

À nulidade dentro de campo, responde-se com elevação no jantar de gala. O primeiro a aparecer, com pompa e circunstância, é o Primeiro-Ministro Mário Soares. Qual a cor do fato? Verde. E a da gravata? Verde. Uisch. “Reconheço que cometi uma gafe, só que, quando saí de casa pela manhã, não sabia que vinha ao jantar de comemoração do fecho do Terceiro Anel, uma obra de âmbito nacional, impressionante e monumental.” Quer saber a melhor? Fernando Martins tem uma gravata azul e Pinto da Costa uma vermelha. É o fungagá da bicharada.

17 dezembro 1986

É uma semana de loucos. No sábado, dia 13, o Porto dá 8-3 ao Farense. No domingo, 14, o Sporting despacha o Benfica por 7-1. Na segunda e terça-feiras, é folga. Na quarta, há um clássico nas Antas para comemorar a inauguração do rebaixamento do Estádio das Antas. A data já está marcada para o dia 17 dezembro 1986 com relativa antecedência e só uma infeliz coincidência (para o Benfica, claro) é que permite a ida às Antas na ressaca do 7-1. A festa começa às 20 horas, com um desfile de 700 atletas, em representação de 90 clubes. Poderiam ser muitos mais se Boavista e Sporting também aceitassem o convite. Como as relações entre os clubes estão cortadas, só dá Benfica.

No átrio do balneário, a iniciativa mais tocante é a homenagem póstuma a José Maria Pedroto (campeão nacional como jogador e treinador, feito inédito no clube até então), através do descerramento de uma placa com a sua imagem. No relvado, a expectativa dá lugar a aplausos infinitos com a entrega da taça de campeão nacional 1985-86 ao capitão Fernando Gomes. Segue-se outra ovação enorme com a entrada em campo do brasileiro Walter Casagrande, contratado ao Corinthians e que acabara de jogar o Mundial do México-86. Com tanta cerimónia, o jogo previsto para as 21h30 só começa às 23h. Nas bancadas, 70 mil pessoas assistem ao empate com golos de Gomes e Chiquinho Carlos (que slalom, senhoras e senhores).

No desempate por penáltis, um mero pró-forma, decide o guarda-redes. Eis a série completa: André (1-0), César Brito (à barra), Elói (2-0), Chiquinho (2-1), Juary (3-1), Nunes (para fora), Jaime Pacheco (defesa de Silvino), Dito (3-2) e Mlynarczyk (4-2).

É este o último acto de ajuntamento cordial? Não, esse é de 1995, quando os capitães André e Veloso juntam-se em Vila do Conde para uma futebolada das antigas, resolvida pelo inevitável Gomes.