Carne, tango e Maradona. Cada povo com os seus dogmas. Para os argentinos, a melancolia é o estado de alma que mais lhes convém. Nota-se na forma como saboreiam demoradamente a carne, exaltam intensamente o tango e discursam apaixonadamente sobre Maradona. E também se nota na forma como falam. Em qualquer lado. Num debate eleitoral televisivo, por exemplo. “Noooooo, pero noooo”. No meio da rua, ao telefone. “Mi quiero moriiiiiiiir”. Nas lojas. “Peeeeerfecto”. Tudo, tudo, tudo mesmo, é feito assim, de forma chorosa como que a pedinchar. Nem é defeito, é feitio. Como Bossio vai exemplificar. X’inda pá, o Bossio. Há quanto tempo? Pois é, Bossio fala pouco e bem, é expressivo, sempre com um toque peculiar nas suas frases (e memórias). Em cinco anos, quatro no Benfica e um no Vitória FC, joga só 40 vezes no campeonato português.

Boa tarde Bossio, todo bien?
Tooooooooodo. Hablas de Portugal, no? Tu número empieza 351.

Isso mesmo, de Lisboa.
Lindo, muy lindooooooo. Lisboa me encanta.

E Setúbal?
Também, vivi lá bons momentos.

Com o Jesus, não foi?
Sim, ele era o treinador daquela época.

O que te diz Jorge Jesus?
Joguei bastante com ele. É um treinador genuíno, que te dá uma bronca dos diabos quando está zangado e se diverte à brava contigo quando está alegre.

Que recordações tens de Portugal?
Joguei com Poborsky, Simão, Nuno Gomes, Tiago. Fui treinado por Camacho,que me enviou um sms quando me sagrei campeão argentino pelo Lanús em 2007, Jesualdo Ferreira, Jupp Heynckes, Toni, Luís Campos e José Mourinho, já um homem com personalidade e frontalidade, embora numa fase muito embrionária. Imagino-o agora. Ui,ui [desmancha-se a rir]. Impossível não sair daí com alguma coisa mas, no fundo, foi uma experiência desportiva falhada, à exceção do Vitória de Setúbal com o Jorge Jesus.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Então, passaste mal?
Siiiiiiiiiiii [lá está o tom melancólico], até porque a minha família estava aqui [na Argentina]. Mas tive amigos que me ajudaram a levantar o moral.

Goalkeeper Carlos Bossio of Argetinian Lanus misses the ball during their 2009 Libertadores Cup football match against Caracas FC at Olimpico Stadium in Caracas February 25, 2009. AFP PHOTO/Juan Barreto (Photo credit should read JUAN BARRETO/AFP/Getty Images)

Carlos Bossio @JUAN BARRETO/AFP/Getty Images

Argentinos?
Siiiiiiiiiii.

Como, se o Benfica não tinha argentinos?
Pronto, está bem, admito que eram do Sporting. O Acosta, sobretudo. O Kmet e o Duscher, às vezes. E também o Toñito, que é espanhol. Ia comer muitas vezes com o Acosta.

Ai sim, onde?
Ao Barbas.

O da Costa?
Sim, sim, esse.

Na Costa com o Acosta?
Eheheheheh, isso mesmo, o Acosta ia comigo. Come-se muito bem e lá todos são tratados como VIP.

E como se sentia o Acosta no meio daquele benfiquismo?
Olha, nunca se queixou [risos]. Se calhar, é por isso que, às vezes, se vingava do Benfica dentro de campo. Ele era danado. Quem me dera.

O quê?
Sim, quem me dera ser futebolista.

Como assim?
Ah pois. Achas que um guarda-redes é futebolista? Bolas, a FIFA faz tudo para nos diminuir cada vez mais. Proibiram o atraso de bola, depois proibiram o agarrar da bola, depois a regra dos seis segundos, depois a bola mais leve. Só falta aumentarem as balizas. Daqui a uns anos, vamos defender com os olhos tapados. Tudo para o bem do futebol. Porque se o número 5 ou o número 9 se enganam, no pasa nada. Se formos nós, xiiiiiii, cai-nos o mundo em cima. Nós temos treino específico e os outros passam a vida a jogar futevólei.

Mas então és guarda-redes porquê?
Era sempre o mais alto na minha turma. Até aos 17 anos. Já estás a ver, não estás? Tinha umas pernas grandes mas tudo o resto era pequeno. Parecia um triângulo. Só com o futebol é que comecei a ficar mais harmonioso. Ainda joguei nomeio-campo, depois avancei no campo e fui melhor marcador do Las Palmas, o clube da minha terra, até que o nosso guarda-redes se lesionou e eu ofereci-me. E pronto, é isso.

E depois?
Bem sei que parecia o Robocop a defender. Não voava nem fazia defesas espetaculares.

E só jogavas futebol ou dividias o tempo com outra profissão?
Noooooooo. O meu pai, que também jogou futebol no clube da terra como lateral-esquerdo, era mecânico e tinha uma oficina. A única em Córdova sem um poster de uma mulher nua. Garanto-te.

E o que aprendeste com o teu pai?
Além das coisas básicas da vida, tudo o que diz respeito à mecânica. Primeiro, só lhe passava as ferramentas e limpava as mesas. Depois, ensinou-me a desarmar um carburador. Às tantas, já sabia quase tudo.

E qual foi o teu primeiro carro?
Um Peugeot 404. Mas tinha vergonha de o mostrar às pessoas. Deixava-o meio escondido. Um dia, descobriram-no e gozaram comigo. No bom sentido, claro. Hoje em dia, vejo um tipo de quinta [categoria] com uma Hilux e penso como os tempos mudaram.

O Bossio foi o primeiro guarda-redes a marcar um golo de cabeça na Argentina. Explica lá.
Era o último minuto do Racing-Estudiantes [1-1, a 12 Maio 1996]. Foi canto para a minha equipa e eu marquei de cabeça, perante os gritos desesperados do adversário de “agarrem o gigantone”. De nada valeu. Marquei e caíram-me todos em cima.

E a partir daí?
Muitos guarda-redes devem ter pensado “se este Bossio marca, porque é que eu não posso tentar?”

E reconhecem-te na rua?
Pelo menos, duas pessoas por dia falam-me disso. Ninguém diz: “É pá, e aqueles penáltis que defendeste pela selecção no Pan-americano.” Dizem-me: “Grande golo que marcaste naquela noite!” E nem imaginas a quantidade de cartas que chegaram da Holanda, da Suíça e da Arábia Saudita com recortes do meu golo. Incrível.

O Chilavert [guarda-redes goleador] ficou com inveja?
Ah, essa é boa. Não. Mas uma vez defendi um penálti dele. E noutra, fui lá à frente marcar um livre e atirei à barra. No final do jogo, ele correu para mim e perguntou-me: “Olha lá, queres imitar-me,é?” Em 2005, pendurou as luvas e foi para dirigente do Olímpia, no Paraguai. Disse-me que me ia contratar.

E?
Nada de nada, nem um telefonema.

Já Maradona…
Nem me lembres que fico arrepiado. Essa chamada telefónica é divina.

Então porquê?
O Lanús foi campeão argentino do Apertura 2008 no campo do Boca, empatámos 1-1 na penúltima jornada e aumentámos o avanço para quatro pontos em relação ao segundo, que era o Tigre. Com esse 1-1, demos a volta olímpica na Bombonera e festejámos à nossa maneira. No dia seguinte, ainda de ressaca, toca-me o telefone e é o Maradona. A dar-nos os parabéns, a dar-me os parabéns. Incrível, um sonho tornado realidade.

Chamada para Acosta: verdade isto do Barbas?

Bossio, arrumado. No bom sentido, claro está. Só falta confrontar Acosta com o Barbas. Argentino de gema, fiel às suas origens, Acosta é também um globetrotter: França/Toulouse, Chile/Universidad Católica, Japão/Marinos e, claro, Portugal. Entre Janeiro 1999 e Maio 2001, marca 48 golos em 99 jogos pelo Sporting. Deixa a sua marca, com o título de campeão nacional em 2000 e a Supertaça portuguesa 2001, curiosamente resolvida por ele (1-0 ao Porto). Em Alvalade, não há quem não se lembre dele. Com saudade. Com uma tristeza vaga e indisfarçável. E agora quem é melancólico, hum? Huuuumm?

14 May 2000: Beto Acosta of Sporting Lisbon celebrates winning the Portugese Championship after the Portugese League Match against Salgueiros at Eng Vidal Pinheiro in Porto, Portugal. Sporting Lisbon won 4 - 0. Photo by Nuno Correia. Mandatory Credit:Allsport UK /Allsport

Beto Acosta a celebrar o título de campeão nacional pelo Sporting em 2000 @Nuno Correia Allsport UK /Allsport

Boa tarde Acosta, todo bien?
Tooooooodo.

Telefono de Portugal.
Dale [como quem diz ‘bora, diz de tua justiça].

A última vez que falei consigo tinha acabado de ver toda a série Lost.
Je je [é como os argentinos se riem]. Diagnosticaram-me cancro na tiróide. Foi um sofrimento, o jogo mais difícil da minha vida. Imagina-te com 44 anos a receber uma notícia daquelas. Só de ouvir a palavra “operação” assustou-me. O mundo desabou. Caiu-me tudo. Em 20 anos de carreira, nunca fui operado. E agora ‘isto’.

E depois?
Tudo ultrapassado. Entre hospital e tratamento, engordei uns sete ou oito quilos e vi a série Lost de uma ponta a outra. Aquilo enfeitiçou-me, je je.

Já totalmente recuperado?
Siiiiiiiiiii, até voltei a jogar futebol.

E a marcar golos?
Óbvio, tem de ser.

E mais?
Ir ao Gasómetro com as minhas filhas e vê-las a entoar todos os cânticos do San Lorenzo. Precioso.

Quando foi isso?
Uisch, muitas vezes. Sempre que posso, vou ao estádio do San Lorenzo.

San Lorenzo, campeão sul-americano em 2014?
Lá está, essa campanha foi linda, muy linda. Fui ver um jogo no meio dos adeptos, com as minhas filhas. Eu meio tímido, elas à vontade. Sabem as músicas todas, de uma ponta à outra. Que alegria vê-las ali, no Gasómetro, a puxar pelo clube do coração.

Por falar nisso, o Sporting continua no seu coração?
Clarooooooooooooo [sem ser muuuuito melancólico].

Que ideia lhe passou pela cabeça para tentar o futebol europeu aos 32 anos?
Ganas, muchas ganas. Queria provar a mim próprio que estava bem. E o Sporting pareceu-me o desafio ideal. Está no meu coração, é um clube com uma história riquíssima e uns adeptos muito especiais.

E a equipa, também especial?
A começar no Paulinho, o roupeiro. Ele vibrava mais que nós, je je.

Eh eh [é a forma que interpretamos a nossa gargalhada]
Havia tanta boa gente. Com piada. Além dos argentinos Duscher, Quiroga, Hanuch e Kmet, o Beto, o Rui Jorge, o Barbosa, o Nuno Santos, que era o terceiro guarda-redes. Era jovem mas tinha carisma. E o César Prates, não me poderia esquecer dele. Ele simplesmente ria-se de tudo e mais alguma coisa. Até nos jogos. Às vezes, falhava um cruzamento, eu olhava para ele e já o via a recuar para o seu lugar com uma cara de menino traquinas, que tinha feito uma asneira mas que não queria que lhe dissessem nada. Que figura.

Onde é que o Acosta morou?
Nos primeiros seis meses, em Oeiras. Meu Deus, o trânsito. Passava mais horas dentro do carro do que nos treinos. Mas é uma paisagem linda. A marginal, não é?

Sim, sim. E depois, viveu onde?
Passei para os lados da Avenida de Roma.

Por isso é que rendeu mais, está tudo explicado.
Ja ja ja. A verdade é que a segunda época, a primeira completa, foi um sonho tornado realidade. Pelos golos, pelo ambiente à volta da equipa e pelo título de campeão. Que luxo, hein? E olha que eu era o homem sortudo da equipa.

O mais goleador já sabíamos, agora porquê o mais sortudo?
Não ouvia o Schmeichel a gritar, je je je. Que porterazo, hein! Que figura. Muito profissional.

Mas pouco dado à diversão?
Noooooooooo, noooooooooo, não digas isso. Ele é dinamarquês, je. As pessoas do Norte da Europa são mais distantes que os latinos, e estes são mais apaixonados que qualquer outro povo.

E onde é que ia almoçar ou jantar?
Conheci lugares sensacionais.

Sozinho ou com o Bossio? Sim, eu sei que o Acosta se encontrava com o Bossio. Ele disse-me.
Je je, ele levava-me sempre ao Barbas. Como é que é? Caprica?

Costa da Caparica!
Isso. O Barbas. Meu Deus. Aquilo é pior do que jogar no Estádio da Luz. Entrava de cabeça baixa para não repararem em mim, je je. Sempre muito bem tratado. Pelo dono e pelos clientes. Sinto que deixei uma boa impressão em Portugal. Gosto muito do teu país.

Ainda por cima, foi campeão nacional.
Sim, dias muito loucos, entre a derrota com o Benfica em Alvalade e a vitória sobre o Salgueiros lá em cima. Tudo acabou em bem, com uma festa descomunal.

Mas começou mal, com Materazzi.
Havia o problema da língua, claro, mas isso não explica tudo. Ele falava italiano e transmitia as suas ideias ao Ayew, que tinha jogado em Itália [Lecce]. O Ayew explicava em português para uns, em castelhano para os outros e em inglês para o Schmeichel. Reforço a ideia, o problema da língua não explica tudo. Eu não falo quase nada inglês e entendia-me muito bem com o Schmeichel, por exemplo. Dentro do campo, a linguagem do futebol é só uma. Com o Materazzi, o Sporting simplesmente não funcionou com as suas ideias, pronto. Cada um seguiu o seu caminho, chegou o Inácio e fomos campeões.

Campeões. O Acosta também foi campeão da Copa América pela Argentina.
Sim, em 1993.

A dupla era Acosta-Batistuta. Do que se lembra dessa Copa América?
De tudo. Na altura, jogava no Boca Juniors e tinha marcado golos em três superclássicos [com o River Plate], pelo que merecia a confiança do seleccionador Alfio Basile.

O “Coco”, não é? Um personagem.
Sim, sim. Um grande senhor. Sabe muito de futebol e trata bem o jogador. Com ele, sempre ganhámos. Além da Copa América-93, a Taça das Confederações no ano anterior. Aliás, fiz 19 jogos pela Argentina, todos com o ‘Coco’, e não perdi nenhum! Também tive sorte de acompanhar a selecção naquela fase invencível dos 31 jogos.

Lembra-se do quê dessa Copa América-93?
Da fase de grupos sofrida: 1-0 à Bolívia, golo de Batituta [ah é verdade, há outro pormenor dos argentinos na questão linguística, porque não dizem os esses em determinados nomes como Batituta e Etados Unidos] e depois empatámos com México mais Colômbia. Qualificámo-nos em segundo lugar do grupo, o que implicou um Argentina-Brasil nos quartos-de-final.

E aí, como foi?
Uyyyyyy, muy complicado. Nesse jogo, não fui titular. A dupla foi Batituta-Medina Bello. Eu entrei para o lugar do Batituta quando estávamos a perder 1-0. Empatámos e fomos a penáltis.

E o Acosta marcou algum?
Sim, o quarto da série. Logo a seguir ao Roberto Carlos. O guarda-redes era o Zetti. Nós tínhamos o Goycoechea, que já era um Deus neste tipo de desempate. Foi ele que nos levou às meias-finais ao defender o sexto remate brasileiro [de Boiadeiro].

E nas meias-finais?
Novamente a Colômbia, outra vez 0-0. A dupla de ataque foi eu e o Batituta. Marquei o quinto penálti, depois do Valderrama. Se falhasse, a Argentina era eliminada. Se marcasse, iniciaríamos uma segunda série. Enganei o Córdoba. Depois, o Goycoechea fez o resto, je je.

Chegámos à final.
Com o México, que nesse ano tinha sido o primeiro convidado de sempre para a Copa América. Uma equipa buenissima. No ataque, tinham “só” o Hugo Sánchez. Aí quem nos salvou foi Batituta. Marcou os dois golos [2-1].

Muita festa?
Siiiiii, claro. Foi um período dourado da Argentina. Vínhamos de ganhar a Taça das Confederações [Acosta jogou, novamente ao lado de Batistuta, e até marcou um golo, à Costa de Marfim, nas meias-finais], não perdíamos um jogo desde 1991, ano em que levantámos a Copa América, no Chile. Dois anos depois, voltámos a conquistá-la. E comigo lá, no Equador.