Juan Roberto Seminario Rodríguez. O seu nome já leva 80 anos de vida. De boa vida, acrescentamos. No verão de 1959, tanto Barcelona como Saragoça anunciam Seminario como reforço. Sem meias medidas, a Liga espanhola desautoriza os dois clubes e proíbe Seminario de jogar em Espanha por dois anos. Começa o leilão do extremo-esquerdo de 23 anos, já então uma estrela mundial pelos três golos à Inglaterra (4-1 para o Peru). O primeiro a entrar em cena é o Vasco da Gama. Segue-se o Milan, depois Porto, finalmente Sporting. Cabe a Seminario decidir-se pelo melhor e a escolha recai no Sporting, embora seja o FCP o campeão nacional em título. Em Portugal, os truques e as fintas de Seminario falam-se nas ruas, nos cafés e nos jornais. É um caso à parte.

Em duas épocas, entre outubro 1959 e julho 1961, Seminario faz 49 jogos e marca 19 golos. Não ganha qualquer título – e até perde uma final da Taça de Portugal, em 1960, com o Belenenses de Matateu –, mas sai daqui como Postiga, para o Saragoça. Ali afirma-se como melhor marcador da liga espanhola na sua primeira época, em 1961-62. Ainda joga em Itália (Fiorentina), volta a Espanha (Barcelona) e é lá que hoje vive, em Palma de Maiorca.

Boa tarde Seminario, tudo bem? Estamos a falar de Portugal.
Muy bien, muy bien.

Do que se lembra de Lisboa?
Bien, bien, eu cheguei ao José Alvalade [diz o nome do estádio devagar, a carregar no José] em outubro 1959, depois de uma confusão enorme. Jogava no Deportivo Municipal, uma equipa do Peru, e já era internacional peruano. Uma tarde, o Peru ganhou 4-1 à Inglaterra de Robson, Haynes, Charlton, Greaves, eu marquei três golos [dois na primeira parte, um na segunda] e fiquei famoso além-fronteiras. Além de mim, sou conheço outro que tenha marcado três golos à Inglaterra: o holandês Van Basten no Euro-88. Bom, adiante: a partir daí, o interesse dos clubes europeus intensificou-se. O Deportivo Municipal delegou num empresário, de cujo nome não me lembro agora, a função de recolher as ofertas e negociar com as equipas.

Deu-lhe carta branca, portanto?
Exato. E esse empresário negociou o meu passe com o Saragoça. Mas o Helenio Herrera, que treinava o Barcelona, sabia do meu valor, comprou um bilhete de avião para o Peru e negociou cara a cara com o Deportivo. Pagou na hora e eu era então jogador do Barcelona, com toda a papelada em ordem. Quando os dois clubes, Barcelona e Saragoça, entregam os papéis à federação espanhola, algo estava mal, claro.

Claro.
Claro. Mas então dois clubes contrataram o mesmo jogador. Não pode ser! [risos e mais risos]

E então?
A federação espanhola diz que não, que não posso jogar em Espanha.

E aí vem para Portugal?
Sim, mas foi uma outra polémica que ainda se arrastou por uns dias. O Sporting negociou diretamente com o Barcelona, o clube que tinha os papéis em ordem, e eu fui para Lisboa.

E que tal?
Adorei a experiência, a cidade, as pessoas, o clube, o José Alvalade.

Onde é que morava?
Muito perto do estádio. Numa grande rotunda.

Alameda das Linhas de Torres?
Não me lembro do nome. Sei que podia ir a pé para os treinos e para os jogos, nada mais. Do que me lembro é da estreia.

Então?
Com o Real Madrid. Eles vieram cá, os Puskas, os Di Stéfanos, os Gentos. Joguei bem e o público aplaudiu-me ruidosamente. Comecei bem e nunca mais parei.

E a estreia oficial?
Ahhhh, com Os Belenenses, fora de Alvalade. Perdemos [1-0, por Yaúca] mas marquei um golo. Pena que me anularam. O defesa-direito que me marcou [Pires] foi expulso a 20 minutos do fim, mas nem assim chegámos ao empate, embora me tenham anulado um golo, hein!? Não está mal.

Não está, não senhor. Então e o primeiro golo?
Na jornada seguinte, 8-0 ao Vitória.

De Setúbal ou Guimarães?
Hãããã, Setúbal [diz a medo]. Sim, sim, Setúbal. Foi 8-0 e eu marquei três golos, todos seguidos, num curto período [entre os minutos 82 e 87]. Os adeptos estavam eufóricos, aplaudiam e gritavam. Fantástico ambiente. Nunca me esquecerei de vocês.

E dos dérbis com o Benfica?
Ufff, isso era duro. Na minha primeira época aí, marquei três golos ao Benfica, dois para o campeonato, em Alvalade [1-1] e na Luz [3-4], e um nas meias-finais da Taça de Portugal, em Alvalade [3-0].

E na Luz, para a Taça?
Boa pergunta [gargalhadas joviais]. Ficou 0-0 e apurámo-nos para a final. Mas há uma história engraçada. Na primeira mão, em Alvalade, foi 3-0 e eu marquei o último golo, muito perto do fim. Nessa altura já o Benfica jogava com dez, por expulsão de Cruz, numa jogada entre mim e ele, se não me engano. Ele foi expulso e eu fiquei a coxear. Como ainda não eram permitidas as substituições, fiquei encostado a um canto, que já era a minha posição natural como extremo-esquerdo. Na primeira vez que me metem a bola recebo com o pé direito e atiro com o pé esquerdo. Goolo. Fui acusado de… como é que se diz aí? Ai, está a faltar-me a palavra. Ajuda-me aí.

Enganador?
Não. Era…

Ladrão? Falso?
Não, não. Era… malandro.

Aaaaaaaah.
Malandro. Começaram a chamar-me malandro. Na Luz, mais do mesmo, agora o jogo todo. Eu não fingi a lesão, mas eles assim o entenderam. Não tenho a culpa de lhes ter marcado um golo mesmo lesionado.

Pois é.
Uns malandros.

Esse Benfica é bicampeão nas suas duas épocas de Sporting, não é?
Sim, uma equipa formidável. Eusébio, para começar, depois Coluna, um fenómeno. José Augusto, Simões. Lá atrás, o Germano, que transpirava classe, e o Mário João. É esse o nome do lateral-direito? Era pior que sei lá o quê! Ia à bola, às pernas, a tudo. [risos] Não davam hipótese. Nós perdíamos dois jogos, mas eles só perdiam um. Assim era extremamente difícil. Ainda por cima, o treinador era o Bela Guttmann, um estratega por excelência.

E o do Sporting, quem era?
Fernando Vaz, um gentleman da cabeça aos pés. Que categoria. Poderia muito bem passar por inglês pela forma de estar, de comunicar, de treinar. Gostava dele, muito. Tinha detalhes sensacionais, como dar uma bronca com o ar mais limpo deste mundo, sem ficar vermelho nem levantar a voz.

Falámos do Benfica. E o FC Porto?
Quando cheguei eram os campeões nacionais, mas nunca foram uma verdadeira ameaça para o Benfica nem para nós. Lembro-me que lhes marquei um golo nos 6-1 em Alvalade, na minha estreia com eles. Difícil era jogar lá, no campo deles. Diferente de Lisboa.

Porquê?
Só a aventura de ir para fora de Lisboa era cá uma história.

Então?
Guimarães, Porto, Évora, Braga, Covilhã. Íamos sempre de autocarros que tinham camas. Adivinha quem se deitava lá?

O Seminario?
Pois claro [risos].

E as viagens mais curtas?
Era mais tranquilo e menos demorado, mas também com camas. Como se chama aquela equipa da cidade dos universitários?

Académica?
Hummmmm.

Coimbra?
Ah, sim, sim. Académica de Coimbra. Lembro-me perfeitamente de ter marcado um dos meus melhores golos da carreira à Académica, em Coimbra. Um livre de muito longe e eu rematei com a parte de fora do pé. A bola entrou como uma flecha. Grande momento [1-0 aos 85 minutos, a 6 Novembro 1960].

E mais, e mais?
Perguntou-me por Benfica e Porto, faltou falar do Belenenses. Que equipazo. Aquele Matateu era fora de série.

Toda a gente diz isso.
É porque é a mais pura das verdades. O Matateu é daqueles jogadores de estátua.

Como?
Tem de ter uma estátua. O homem era extraordinário, resolvia jogos, jogos, jogos e mais jogos. Sabes como?

Não.
Bastava-lhe jogar dentro da área. Fosse com o pé, direito ou esquerdo, tanto fazia, ou com a cabeça, o Matateu era o homem para meter a bola lá dentro. Olha, a mim, tirou-me uma Taça de Portugal.

Então?
A final de 1960 é entre Belenenses e Sporting. Marcámos primeiro, pelo argentino Diego. O Belenenses empata e o Matateu desempata, 2-1 para eles.

E saiu do Sporting porquê?
Mira, houve uma confusão enorme. Um empresário, Benítez, acho eu, negociou-me para o Saragoça quase a custo zero e isso motivou um grande aparato na Baixa de Lisboa, com não sei quantos carros junto à sede do Sporting a protestar com o presidente e a restante direção por causa da minha saída, ainda por cima a um preço baixíssimo. Não sei como é que isso aconteceu, mas, de repente, estava em Saragoça.

Lembra-se do seu último jogo?
Foi tudo muito estranho. Uma loucura mesmo, mas eram assim aqueles tempos. Repara – vê lá tu bem –, fomos jogar o Torneio Teresa Herrera à Corunha em junho, a meio das meias-finais da Taça de Portugal [no dia 23 junho, o Sporting ganhou 2-1 ao FC Porto na primeira mão, depois levantou o Teresa Herrera a 29 junho com 3-2 ao Stade Reims, com um golo de Seminario, e foi eliminado pelo FC Porto nas Antas no dia 3 Julho]. Nesse jogo com o FC Porto nem joguei. No ano seguinte, em 1962, o Sporting foi campeão português.

E o Seminario?
Fui o melhor marcador.

Do Saragoça?
Sim. E da liga espanhola.

A sério?
Sí señor. Até agora sou o único jogador do Saragoça a cometer tal feito. Foram 25 golos em 30 jogos. Joguei sempre, sem parar. Nem um minuto de descanso. Mas foi uma época fantástica, um êxito estrondoso. Fiquei à frente de nomes estratosféricos, como Puskas [20] e Di Stéfano [12]. Naquela altura era muito difícil marcar golos porque não havia cartões e os defesas matavam-te. Agora os avançados estão mais protegidos.

Isso é o ano do Mundial-62. O Peru foi lá, não foi?
Foi, pois.

E o Seminario?
Não me chamaram. Como jogava no estrangeiro, algumas federações optavam por chamar só aqueles do campeonato nacional. Claro que aí também há história.

Então, diga lá.
Os clubes recebiam dinheiro por presença dos jogadores. Por isso, os clubes inundavam a seleção de jogadores das suas equipas. Um Saragoça ou um Barcelona não entravam nessas contas. Nem queriam. Para falar verdade, nem eu queria.

O quê, o Seminario não queria o quê?
Não queria ir ao Mundial desta forma. Claro que ir ao Mundial é um sonho de criança, mas sem envolver dinheiro nem nada disso. Fui o melhor marcador do melhor campeonato do mundo e fiquei de fora. Os peruanos são assim: peruanos contra peruanos e perdem os peruanos.

O Seminario não recebeu um convite para jogar o Mundial-70?
Sí señor, recebi. Só que aí estava ‘puteado’: então não me convocam em 1962, no auge da minha forma, e chamam-me oito anos depois, quando já estou de regresso ao Peru para estar mais tempo com a minha família?! Foi o Didi quem me telefonou.

O da folha seca?
Esse mesmo, o internacional brasileiro. Ele telefonou-me e perguntou-me se estaria interessado em ir ao Mundial-70. Mandei-o à merda. Com jeitinho.

Ah sim?
Sim, disse-lhe tudo de forma educada.

E depois?
Arrependi-me, claro está. Quinze dias depois, estava mais que arrependido. Foi o maior erro da minha carreira. Às vezes, é assim mesmo: dizemos uma coisa e já não dá quando queremos voltar atrás. Ainda por cima, tinha ido à televisão dizer que não ao convite do Didi.

Uisch, deve ter doído.
Foi duro.

A nível de clubes, ao Saragoça seguiu-se a Fiorentina, não foi?
Sim, mas ainda joguei no Saragoça em 1962-63. Acreditas que marquei oito golos nas primeiras oito jornadas!? É verdade, oito em oito. Lembro-me perfeitamente do meu último jogo pelo Saragoça, já com os dirigentes da Fiorentina no estádio para me levarem para Itália. Foi com o Maiorca e ganhámos 6-1. Marquei quatro golos. Na verdade foram seis, mas o árbitro anulou-me dois com a desculpa de que quatro já era uma boa conta [risos]. O descaramento dele, já viste?! Depois fui-me embora para a Fiorentina. A minha transferência foi caríssima para a época, qualquer coisa como 25 milhões de pesetas. Pagaram por mim como se eu fosse o Ronaldo.

E da Fiorentina para o Barcelona.
Em Florença, deu-se um caso inédito: o clube deu-me um cheque em branco para as mãos e disse-me ‘mete aí o teu preço’. Só que queria voltar a Espanha.

Ainda hoje, não é?
Eheheheheh, pois é. Passo muito tempo em Palma de Maiorca.

Desde quando?
1964. Vou em abril e passo lá a primavera mais o verão e ainda parte do outono. É uma maravilha. Durante anos, tive um hotel e tudo.

Ah, boa vida.
Muito boa.

E o que faz para se manter em forma?
Jogo ténis, muito ténis.

Ainda corre?
De um lado para o outro, sempre. Às vezes, só às vezes, vou à rede.

O Rafael Nadal é de Palma, conhece-o?
Se o conheço? Essa é boa. Ele joga comigo desde os 11 anos.

Quêêêêêê?
Conheço muito bem a família Nadal. Primeiro o tio, depois o pai, a seguir Rafa.

Não.
A sério. Somos amigos há mais de 40 anos. Rafa é meu sobrinho por afinidade. Conto-te mais uma coisa: uma altura houve em que ele estava indeciso entre ténis e futebol e fui eu a insistir no futebol. Garanti ao pai que lhe dava aulas, se fosse preciso.

E isso era o suficiente?
Amigo, eu ensinei o tio Miguel Ángel a jogar futebol e ele foi parar ao Barcelona. Com o Rafa, seria a mesma coisa. Só que entretanto tive de me dedicar dia e noite ao hotel. O assunto foi arrumado e é vê-lo aí a jogar ténis ao mais alto nível. Digo-te, ele seria um fenómeno como jogador de futebol. Garanto-te.

A jogar em que posição?
A 6 ou a 8. Ele sempre teve jeito para a coisa e tinha cá um coração para ir às bolas todas.

Como no ténis?
Exatamente, não dá uma por perdida. Imagina-o no campo, a morder os calcanhares dos outros. Seria fenomenal. Paciência, é um tenista de classe mundial e isso é um feito extraordinário.

Em Barcelona, o Seminario ganha mais títulos.
Ganhei a Taça das Cidades com Feira pelo Barcelona, numa final com o Saragoça. Mas não joguei a final. Depois ainda fui para o Sabadell, na Catalunha, e terminei no Peru. Tinha uma oferta do Maiorca mas não queria que as pessoas se recordassem de mim como um jogador que se arrastou na Europa, mas sim como aquele que brilhou em quatro equipas europeias de enorme qualidade e calibre.

Com o Sporting à cabeça?
Siiiiiim, antes de barcelonista e zaragocista, sou sportinguista. Sin duda, hã?! Sobretudo porque o meu irmão também jogou lá e até foi campeão português. Vê lá bem nos vossos arquivos. Chama-se Rodolfo. Foi campeão em 1966 [é verdade sim senhor; Rodolfo Seminario é campeão português, como extremo-direito, com dois jogos no campeonato – 4-0 ao FC Porto e 2-1 na Póvoa de Varzim – e outro na Taça de Portugal – 2-0 ao FCP no desempate dos quartos-de-final, em Coimbra, onde o irmão mais velho, Juan, marcara um dos golos da sua vida].


Sabes outra?

Conta.
Em Alvalade, joguei com o Brasil. Perdemos [Sporting] 4-0, em 1960, e dividi o campo com Pelé, mais Garrincha, mais Djalma Santos, mais Nilton Santos. Nem imaginas a cabeça do Djalma a tentar parar-me. Ele simplesmente não conseguia. Provoquei-lhe tantas dores de cabeça que veio dizer para os jornais que eu tinha sido o único jogador a tirá-lo do sério. Aí está outro título da minha carreira [e despede-se do telefonema a rir largamente].