— Olhe que não pode passar por aqui, respeite a família e o protocolo.

— Não posso? Mas eu vou por ali, furo o protocolo. Quero dizer adeus ao bochechas. Sabe quem é o bochechas?

— Então não sei?! Mas esteja lá sossegado, que é a hora da família.

A conversa entre dois cidadãos, ele com 80 anos feitos, mais arisco, ela, a caminhar para lá, mas mais cautelosa, ouvia-se no cemitério dos Prazeres junto ao jazigo 3820. No momento silencioso em que estava a ser depositada a urna de Mário Soares, lado a lado com os restos mortais de Maria de Jesus Barroso, vários eram os populares que queriam passar as barreiras de segurança para presenciar o último adeus. Mas a família tinha pedido privacidade naquele momento e, embora não pudesse impedir ninguém de avançar, havia quem zelasse pelo pedido. Era o caso daquela mulher, de rosa amarela na mão, que falava alto para tentar travar as investidas de quem queria contornar o cemitério para chegar mais perto do jazigo.

— Quero ir lá porque quero agradecer-lhe pelas coisas boas que fez pelo país. Tirando uma ou duas… que ele também não fez tudo bem! Mas isso não posso dizer alto que ainda sou preso pela PIDE!

— Ora aí é que se engana. Por causa dele é que agora pode dizer alto sem ser preso pelos pides.

Os pides, esses, à frente dos quais não se chora. Foi isso que João e Isabel, filhos de Mário Soares, contaram num funeral que foi um “Pai Nosso” laico. Nas intervenções no Mosteiro dos Jerónimos, disseram muitas vezes “pai”, mesmo assumindo que não foi só deles. Foi também um dos pais da democracia e da liberdade.

O primeiro a falar foi João Soares, que, com voz embargada, de cravo ao peito, contou como o pai passou o Natal de 1967 e o Ano Novo de 1968 na prisão de Caxias, após ser mais uma vez detido pela PIDE. “Habituámo-nos a vê-lo, minha irmã e eu, num sórdido parlatório da cadeia de Lisboa, separados por grades”, contou emocionado. Soares foi libertado em fevereiro e chegou a casa, de táxi, com um “largo sorriso nos lábios”, mas acabaria por voltar a ser detido. E pior: decidiram deportá-lo para S.Tomé.

A história da família confunde-se com a história de Portugal no século XX. Voltemos a ela. Na tarde em que seguiu para África, a família encontrou-se com Mário Soares no terceiro andar da sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, para se despedir: “A minha irmã e eu tínhamos aprendido, há muito, com o meu pai e a minha mãe, que não se chorava à frente dos pides. Dessa vez, apesar do esforço, não fomos capazes de aguentar. Foi ele que nos deu ânimo a todos. Firme. Digno. Corajoso, como sempre”, disse João Soares na cerimónia nos Jerónimos.

É tempo de os desmentir, aos pides. João não deixou escapar o episódio que costuma ser associado ao pai, de ter pisado a bandeira nacional:

Honrou sempre a sua pátria, Portugal e a sua bandeira, que, ao contrário do que a PIDE pôs a circular, nunca pisou, pelo contrário. Sempre ergueu bem alto”.

João também lembrou a mãe, Maria de Jesus Barroso, a metade do céu do pai Mário Soares. Foram, aliás, muitas as rosas amarelas pelas ruas, pelos locais de homenagem por toda a Lisboa fora. E nas mãos da neta mais nova de Mário, Lilah, que horas mais tarde entrou com uma rosa amarela na mão no cemitério dos Prazeres, tal como tinha feito no funeral da avó.

Agora ali, nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos — onde Soares assinou o Tratado de Adesão à CEE, a 12 de junho de 1985 — seria também a voz da mãe, a emocionar. Ouviu-se nas colunas Maria Barroso a declamar Os Dois Sonetos de Amor da Hora Triste, de António Feijó:

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro”

Prosseguiu assim o “Pai Nosso” laico e que dispensou a Igreja dos Jerónimos, depois nas palavras da filha Isabel. “O olhar de uma filha é sempre um olhar embaciado pela emoção e pela ternura. O pai era, para o João e para mim, o nosso herói. Quando o pai estava, tudo parecia seguro e tranquilo”. Recordou também quando os dois visitavam o pai no parlatório do Aljube ou em Caxias, “cheios de raiva contida”, era ele que “nos dava alento, consolo e ânimo”. Foram tempos difíceis, diz Isabel, mas que serviram sobretudo para unir a família “para sempre”. “Nunca durante esse tempo lhe ouvi um queixume, era sempre ele a consolar-nos”, disse.

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Isabel lembrou, depois, todas as campanhas eleitorais que fizeram juntos — no velho Renault 16 — e todos os dias do pós-25 de abril em que andaram “sempre juntos, para todo o lado”. Contou ainda que a mãe, Maria de Jesus, dizia que ela e o pai Mário eram “iguais de feitio”, ambos “apaixonados e coléricos”. Isabel acabou por deixar “as campanhas e a vida partidária” para se “dedicar à profissão”, mas era ao pai que a filha “voltava sempre quando tinha uma dúvida ou precisava de um conselho”.

Também o pai a procurava para um conselho. “Queria saber a minha opinião, mesmo que depois fizesse o que quisesse, como na última campanha de 2006“, confidenciou Isabel Soares, sugerindo que teria desaconselhado o pai a concorrer. E aí Soares, que lidava como ninguém com a derrota eleitoral, perdeu para Cavaco Silva, que estava na assistência, apesar de ser o único dos ex-Presidentes da República que não visitou o corpo quando estava em câmara ardente na Sala dos Azulejos. Isabel terminou dizendo que “o pai partiu como viveu, a lutar até ao fim”.

“Soares é fixe”. E Costa é que o disse

Faltava uma outra filha, a Democracia, agradecer. Com as três primeiras figuras do Estado a lembrarem, à vez, o que Mário Soares fez pela democracia. António Costa enviou um vídeo para a cerimónia onde atribuiu a Soares uma característica que também a si é apontada: “otimista”. Além de o designar como “génio político”.

O primeiro-ministro destacou que a “capacidade humana de comunicar era a outra face da sua aptidão política de [Soares] convencer”, lembrando a seguir — numa parte diferente da que estava na versão escrita do discurso –, o famoso slogan: “Soares é fixe!” A frase foi, aliás, ouvida várias vezes durante o percurso dos Jerónimos aos Prazeres, em que a urna percorreu em marcha lenta as ruas de Lisboa.

Costa faltou à cerimónia por estar em visita oficial na Índia, mas o PS estava representado em peso. Da bancada parlamentar eram tantos que chegaram de autocarro. Socialistas, como a segunda figura do Estado, Ferro Rodrigues, que afirmou que, “da direita à esquerda, esta dor é partilhada.” É que Mário Soares, “mais do que militante número 1 do PS, foi o militante número um da nossa democracia”.

Para falar em nome dos portugueses, tomou a palavra Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente da República definiu Soares como “um homem que fez história sabendo que a fazia mesmo quando tantos de nós se recusaram a reconhecê-lo”. Marcelo apontou ainda um poema de Ricardo Reis (Fernando Pessoa), como o “lema de vida” de Soares: “Para ser grande, sê inteiro: nada/ Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/ No mínimo que fazes.”

“Adeus, querido pai”. O banho de multidão no Largo Rato

A cerimónia familiar, laica e emotiva, teve lugar nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos. Era o local mais político, mais emblemático, com mais figuras de Estado presentes, nacionais e estrangeiras, mas foi ali que o ambiente ficou mais quente — apesar do frio. A voz de Soares, a primeira a sair das colunas, gravada ali mesmo 30 anos antes durante assinatura do Tratado de Adesão à CEE, deu o conforto que o momento pedia. Lisboa, com o país às costas, estava à espera do último percurso de Soares nas ruas.

Terminada a sessão solene nos claustros dos Jerónimos, o cortejo fúnebre seguiu durante quase duas horas por alguns dos locais mais emblemáticos da vida de Mário Soares. Primeiro, o Palácio de Belém, onde esteve durante os dez anos de Presidência, embora tenha sido o primeiro Presidente eleito a optar não morar lá. Depois, a Assembleia da República, onde esteve antes e depois de ser primeiro-ministro. A verdade é que Mário Soares foi o único primeiro-ministro, antes de Passos Coelho, a regressar à bancada parlamentar e o único até hoje a conseguir reconquistar o poder e a liderança do Governo.

Passava pouco das 15 horas quando o silêncio se abateu sobre São Bento. Ao cimo da Rua D. Carlos I surgia o cortejo fúnebre de Mário Soares e as palmas só romperam quando quem por ali esperava viu aparecer o armão militar que transportava a urna do antigo Presidente. O aplauso foi alastrando à passagem do cortejo, numa escadaria (da porta principal do Parlamento) cheia de deputados das várias bancadas parlamentares, funcionários, a secretária de Estado dos Assuntos Europeus e o presidente e vice-presidentes da Assembleia da República. O ambiente de maior formalismo só quebrou quando a charrete desceu para a rua de São Bento, cruzando-se com a Fundação Mário Soares — onde o socialista mantinha um gabinete — e começaram a ouvir-se os gritos dos populares que aí esperavam: “Soares é fixe, Soares é fixe!”. O slogan da campanha de 1986 foi o grito da despedida.

Muitos socialistas que estavam frente ao Parlamento seguiram rua acima, em passo mais apressado do que o do cortejo, para chegarem a tempo da nova homenagem na paragem que se seguia: o Largo do Rato.

“Viva o socialismo, viva a liberdade”, ouve-se Soares pela segunda vez

E se os Jerónimos tinham sido, surpreendentemente, o momento da família de sangue, foi sem surpresa que o Largo do Rato se transformou rapidamente no momento da família socialista. Tinham vindo os fundadores, convocados pelo partido. Deviam estar na primeira linha, junto à estrada, encabeçados por Carlos César, o presidente, e Ana Catarina Mendes, a secretária-geral adjunta do PS. Todos juntos para homenagear o seu camarada número um. Mas acabaram por ser engolidos pela multidão.

Houve rosas amarelas no ar. Houve cravos vermelhos ao alto. E quando o corpo de Soares parou, durante um minuto, frente à casa socialista, as flores choveram para cobrir a urna, protegida pela bandeira nacional. E das colunas que estavam viradas para a rua, um grito interrompeu os aplausos. Era a voz de Mário Soares: “Viva o socialismo, viva a liberdade”, a máxima do discurso do 1º de maio de 1974, na então Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (hoje, estádio 1º de maio) que o PS recuperou para se despedir do seu antigo líder que na década de 80 sacrificou o socialismo para “salvar a democracia”.

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Foi o momento da mobilização popular, ou melhor, da mobilização partidária. Até ali, a homenagem dos portugueses ao seu antigo Presidente da República tinha sido tímida. Quando esta terça-feira, pelas 8h30, as portas da Sala dos Azulejos se abriram para dar continuidade às homenagens ao corpo em câmara ardente, foram centenas as pessoas que ainda se deslocaram aos Jerónimos. Não tantas como na véspera, não com as filas da véspera, mas ainda havia quem sentisse o chamamento.

Foi o caso de Conceição Sousa, de 57 anos, que, quando se preparava para entrar no autocarro para ir ao mercado, sentiu “o dever” de dar meia volta e inverter a marcha. “Não consegui não vir”, disse ao Observador. “É por ele que somos um país livre”. Também Isabel Ferreira usou a manhã desta terça-feira de trabalho para ir “agradecer o amor de Mário Soares ao meu país”. Diamantino, por sua vez, não foi aos Jerónimos, preferiu ir cedo para o cemitério dos Prazeres para ficar na primeira fila, junto às grades, com um poster de Mário Soares que o seu pai guardava em casa há 40 anos — também ele outrora preso pela PIDE. Havia gente em todos os pontos do trajeto, gente para encher a moldura, mas, ainda assim, não seria tanta gente quanto se esperava. Foi o que disse ao Observador Teresa Barros Pinto, ex-mulher de um dos sobrinhos de Soares e Maria Barroso, que não esconde que gostava de ter visto mais gente mobilizada.

A maior energia sentiu-se, mesmo, no Largo do Rato, onde se registou o último adeus de centenas de militantes e simpatizantes a uma figura maior do PS. Houve lágrimas sentidas. O punho esquerdo erguido. Os gritos de ordem: “Soares é fixe, Soares é fixe” e “PS, PS, PS”. Foram cerca de dez minutos de homenagem dos socialistas, num cortejo sempre acompanhado pela guarda a cavalo da GNR. Dali, o cortejo fúnebre seguiu direto para o cemitério dos Prazeres.

Um cravo para ele, uma rosa amarela para ela

Primeiro ouviram-se tiros — três salvas de G3 (60 tiros) — depois só silêncio. Quando o corpo de Mário Soares chegou à sua morada final, o Cemitério dos Prazeres, o momento voltou a ser solene. Com a urna colocada no centro da praça principal do cemitério, procedeu-se à devolução das insígnias e condecorações que acompanharam o corpo durante todo o cortejo. Depois, foi retirada a bandeira que cobria o caixão. Passou para as mãos do Presidente da República que, por sua vez, a passou para as mãos dos filhos. Para a posteridade fica a imagem de Isabel Soares a beijar o emblema nacional. O silêncio só era interrompido pelos disparos das dezenas de máquinas fotográficas dispostas ao redor e, ao longe, pelo burburinho dos jornalistas da rádio e da televisão, que relatavam os momentos finais do dia em que o país se despediu do antigo Presidente da República.

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Antes, tinha-se ouvido, pela terceira vez, a voz de Mário Soares. Desta vez era a gravação de um tempo de antena da campanha eleitoral de 1986, que ecoava nas colunas por toda a zona central do cemitério. Na mensagem, Soares falava do “país ignorante e pobre” em que nascera, dos pescadores e trabalhadores, das pessoas que viviam “sofrendo em silêncio e morrendo em silêncio”. “Há coisas que não se esquecem”, dizia.

Terminados os procedimentos, o caixão seguiu finalmente para o jazigo da família Barroso Soares, onde já se encontram os restos mortais de Maria de Jesus Barroso, companheira de 66 anos. Era o número 3820. O desejo da família era que, a partir daí, o momento fosse privado, mas não foi fácil cumprir o desejo. Foram muitos os políticos, amigos da família, populares até, que quiseram acompanhar o momento final. Na mão, quase todos levavam duas flores: um cravo vermelho, para ele, uma rosa amarela, para ela. “Eram as suas flores preferidas”, diz Teresa Barros Pinto, sobrinha por afinidade de Maria Barroso e Mário Soares, que lamentava não ter conseguido comprar a rosa amarela, em vez da branca que trazia na mão.

Foi assim que os filhos se quiseram despedir: João com o cravo vermelho, em nome do pai, Isabel com a rosa amarela, em representação da mãe, e, ambos, pelo país.