Ainda se recorda daqueles longos debates em França, na primeira e na segunda volta das presidenciais, que colocaram Emmanuel Macron como presidente do país? Em Inglaterra não tem nada a ver. Zero, mesmo. Não há cronómetros à mostra de todos, não existem escolhas ou sorteios de posicionamentos, não são os jornalistas os únicos com questões. Aliás, no limite, os dois candidatos, Theresa May e Jeremy Corbyn, nem se cruzaram. E é melhor? De longe, mesmo. Até pela variedade de “barreiras” que têm de superar.

Se olharmos, por exemplo, para a intervenção de Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, vemos que as duas partes tiveram perguntas e temas muito semelhantes: terrorismo, segurança, questões relacionadas com impostos, educação e saúde e, de forma inevitável, o Brexit. Mas o que é isso das duas partes? Aí é que está o problema: na primeira, conduzida pelo Faisal Islam, era o público – que juntava diferentes tendências partidárias – a expor os seus casos e a deixar questões, complementadas depois pelo jornalista; na segunda, era “um para um” com Jeremy Paxman, uma das personagens mais temidas pelos políticos.

E para balizarmos este debate em termos contextuais, nada melhor do que recorrer à sondagem feita pela consultora Britain Thinks com um focus group (grupo de estudo) após o atentado de Manchester. Conclusões? Não deve ter grande influência nos indecisos mas Theresa May saiu por cima, não só pela compaixão revelada mas também pelo reforço da segurança nacional no discurso e pela forma como atacou as fugas de informação vindas dos Estados Unidos.

A defesa do manifesto e o problema dos emigrantes, em cinco parágrafos

O líder do Partido Trabalhista começou por abordar, de forma inevitável, a questão do terrorismo. E com uma mensagem que não se cansou de repetir: não se trata de aligeirar a política externa, como alguns acusaram Corbyn de defender, mas sim de criar em todo o mundo uma política que consiga resolver vazios como o que existe na Líbia, abrindo o espaço para serem “terreno fértil para os terroristas”.

“Não devemos permitir que o que se passou em Manchester se torne um ataque à nossa sociedade multicultural ou na fé no Islamismo”, referiu. “Na Líbia, existem pessoas desesperadas que só querem ter um pouco de fé de que um dia voltarão a ter estabilidade nas suas vidas”, completou.

O enfoque do discurso, tentando criar um contraponto com Theresa May, acabou por entroncar na emigração. “É boa para o país e para a economia mas um governo liderado por mim não permitirá que se cortem empregos para os britânicos para que entre mão de obra mais barata de fora. O número de imigrantes vai provavelmente descer”, garantiu, ao mesmo tempo que prometeu ser “alguém que ouve as pessoas e quer aprender com elas”.

Jeremy Paxman começou por puxar pelo manifesto. À bruta. “Não se sente frustrado por ter um manifesto onde não estão os seus principais ideais?”, disparou. Corbyn falou do orgulho que tem no programa, no positivo que é atender de forma democrática às ideias de todos para construir o manifesto (“não sou um ditador”, clamou), mas começou a mostrar-se impaciente com tantas interrupções. “Vá lá, dê-me uma oportunidade”. E o público riu-se.

“Não vamos abolir a monarquia, não está no nosso manifesto porque não vamos fazer isso. E até posso dizer que tive uma conversa muito boa com a rainha. A rainha não deve ser trazida para a discussão política, essa deve ficar centrada na justiça social”, disse, antes de garantir que “será alcançado um acordo com a União Europeia”.

O Brexit e o não acordo que é melhor do que um mau acordo, em cinco parágrafos

“Boa noite. E já agora, parabéns!”. Foi assim que Theresa May entrou no estúdio. Com uma imagem forte, confiante, a recordar os 40 anos que Faisal Islam comemorava hoje. “O crime está a mudar, a polícia também está a mudar. É por isso que investimos mais, olhando para essas mudanças como o cibercrime, por exemplo. E aprovámos legislações para irmos colocando o foco em quem de direito a nível de lideranças para podermos enfrentar a ameaça terrorista. Os desafios são diferentes”, destacou nas primeiras questões dedicadas à segurança nacional.

A primeira-ministra e líder do Partido Conservador enfrentou depois as perguntas sobre aquilo a que já se chama de “imposto da demência”, que em resumo pretende que os bens dos próprios idosos consigam pagar a “dívida” que deixam ao Estado depois de morrer. “Muitas pessoas têm de vender as suas casas ao longo da vida e este novo plano remove esse risco”, assegurou. O enfoque recaiu também num tema paralelo ligado – a necessidade de assegurar que o sistema de saúde não corre o risco de colapsar. “Quero que todas as crianças tenham uma boa escola para garantir que conseguem o melhor início de vida possível”, salientou a propósito do tema da educação. Ainda assim, foi neste tema que se ouviu a audiência atirar para o ar algumas bocas. “Falhou”, ouviu-se.

O porquê de considerarem a atual primeira-ministra “uma mulher difícil” acabou por ser um passe para golo no que diz respeito ao alívio da tensão que andava ali no ar. “Por vezes é preciso ser difícil para defender os interesses do país. Se é preciso ser difícil, sou. Porque sou determinada naquilo que considero ser importante fazer”, atirou.

Com maiores ou menos dificuldades, a primeira parte estava despachada. O segundo tempo, esse, traria Jeremy Paxtan. E o jogo mudou, e muito, de figura. “Quando é que percebeu que teve a resposta errada à maior pergunta política dos nossos tempos?”, perguntou. May até ficou sem jeito. “Está a falar do Brexit?”, disse. “Pois claro!”, ouviu. “Estou a fazer aquilo que as pessoas querem que o governo faça”, atirou. Mas Paxtan continuou, recordando as frases que a primeira-ministra dizia quando defendia a permanência no Reino Unido. E Theresa May continuou, defendendo que só estava interessada em fazer a melhor saída possível da União Europeia. Mas nunca foi capaz de dizer que era a favor do Brexit, como destacaram vários jornais ingleses.

A bola mudou para a questão do “imposto da demência”, que não está no manifesto dos Conservadores, foi recusado pelo secretário da saúde e de repente tornou-se realidade. “Queremos ouvir pontos de vista, queremos saber as opiniões, queremos fazer uma consulta para saber o que as pessoas desejam”, referiu, antes de falar do tempo como ministra do Interior de David Cameron, com a pasta fulcral da imigração. “É verdade, não conseguimos atingir os números que queríamos. Começaram a descer, depois subiram de novo, agora estão de novo a descer”, admitiu. E voltou a saída da União Europeia: “Um não acordo é melhor do que um mau acordo. E por aí se percebe que vou à procura de um bom acordo para o Reino Unido. E estou otimista sobre isso. Se dizem que sou uma mulher difícil, é porque sou difícil também a negociar”.

O que disseram os analistas em relação ao debate?

A seguir às intervenções, seguimos com atenção o rescaldo feito pela Sky News. Falou com dezenas e dezenas de pessoas, ligadas aos partidos, a jornais ou à própria campanha. E por aí obtivemos um empate técnico entre conservadores e trabalhistas. Mas calma, tem uma explicação: como falavam por norma aos pares, o primeiro defendia um, o segundo defendia o outro. “Corbyn foi melhor durante 45 minutos do que May, mas as pessoas saíram a preferir ter a primeira-ministra a negociar a saída da União Europeia”, defendeu-se mais do que uma vez.

Já o The Guardian tentou fazer algo menos “convencional” – explicando que não existiu um resultado consensual, e que Corbyn e May tiveram performances sólidas enfrentando perguntas difíceis, defendeu que o líder do Partido Trabalhista tinha saído por cima em termos de expetativas. Afinal, e se atentarmos a esta luta como um combate de boxe, espera-se sempre mais de quem tem o título do que do desafiante.