Frances Griffiths vivia com os pais na África do Sul onde nascera. Nos idos da I Guerra Mundial, quando Frances tinha nove anos e o pai foi combater para a frente, mudar-se-ia com a mãe para a casa tios e da prima Elsie Wright, então com dezasseis anos, na pacata aldeia de Cottingley, perto de Leeds, em Inglaterra. No verão de 1917, Frances e a primeira Elsie afirmavam ter conseguido fotografar fadas num riacho em Cottingley. Ninguém acreditaria na história então. Mas a família guardaria as fotografias.

Hazel Gaynor é autora do livro “The Cottingley Secret”, que conta precisamente a história de Elsie e Frances. Falou à BBC sobre o caso. “As crianças passavam os dias no jardim a brincar. Quando regressavam, traziam a roupa e os sapatos todos enlameados. A mãe de Frances proibiu-as de voltarem a brincar no jardim. Certo dia, para convencer a mãe, Frances afirmou que queria ir brincar para o jardim porque encontrara fadas”, conta a escritora. A mãe manter-se-ia irredutível na decisão. Foi então que as crianças resolveram levar a máquina fotográfica do pai de Elsie e fizeram as famosas fotografias em que surgiam rodeadas de fadas.

Elsie Wright no jardim da casa dos pais, em Cottingley, no ano de 1917 (Créditos: Granger Collection/Alamy)

Três anos após o fim da guerra, a mãe Elsie Wright começou a interessar-se por misticismo e exoterismo. Ela e muitos britânicos no pós-guerra. “Interessava-se pela espiritualidade e considerava a possibilidade de que fadas e seres místicos existiriam realmente”, explica Hazel Gaynor. E acrescentou à BBC: “As pessoas estavam [após o fim da guerra] em desespero e agarravam-se a qualquer coisa que lhes trouxesse respostas, respostas para a razão a qual Deus permitiu todos os horrores que se viveram nas trincheiras”. Entre britânicos, e terminada a guerra, haviam morrido quase 960 mil pessoas; mais de dois milhões ficaram feridas.

A mãe de Elsie, acompanhada da filha e da sobrinha, começou a frequentar em 1920 reuniões da Sociedade de Teosofia — fundada em 1875 nos Estados Unidos, e baseada numa doutrina secular que prega a fraternidade universal, a origem espiritual das formas e dos seres, e a unidade de toda a vida. As várias fotografias das crianças ladeadas por fadas seriam apresentadas numa das reuniões. Presente estava o escritor Arthur Conan Doyle, o famoso autor das histórias de Sherlock Holmes.

“Quando teve [Conan Doyle] conhecimento das fotografias, encontrava-se a escrever um artigo para a revista Strand precisamente sobre o mundo das fadas. Imediatamente solicitou a especialistas em fotografia que analisassem as imagens e atestassem se seriam ou não genuínas. As fotografias foram declaradas autênticas”, explicou Hazel Gaynor à BBC. E acrescentou: “Segundo os especialistas, não havia qualquer indício de falsificação. Conan Doyle utilizou as fotografias para sustentar no seu artigo que o mundo das fadas não era ficção, era real. Se alguém duvidasse, aquela seria a evidência fotográfica.”

Arthur Conan Doyle no jardim da sua casa em Bignell Wood, New Forest, em 1927 (Créditos: Hulton Archive/Getty Images)

“Até ao dia em que morreu, Frances contava aquela história, a de que realmente tinha avistado fadas em Cottingley”, explicou Hazel Gaynor. Frances Griffiths morreria em 1986. Anos antes, em 1983, a prima Elsie negaria tudo, afirmando que afinal tudo se tratava de uma montagem — e que fora a própria a recortar fadas e a sobrepô-las às fotografias. “Tenho três netas e não quero que esta história perdure para sempre. Acho melhor clarificar isto de uma vez por todas”, disse Elsie Wright à BBC.

As fotografias das crianças percorreram todo o Reino Unido e chegaram mesmo a ser exibidas nos Estados Unidos. Muitos acreditavam na teoria de Conan Doyle, falecido em 1930. Hazel Gaynor tenta explicar o que terá levado o escritor britânico a acreditar na história das primas Elsie e Frances. “O pai de Conan Doyle também se interessava por histórias de fadas. Mais tarde, [o escritor] perdeu o filho na I Guerra Mundial e sentia um grande remorso por causa disso: foi ele que o incentivou a ir. Ele também esteve envolvido na propaganda bélica que recrutava soldados, sentindo-se responsável e culpado pela morte de muitos deles.”

A Sociedade de Teosofia continua a existir.