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Os seis polícias que abriram fogo contra um carro, e cujos disparos provocaram a morte a uma cidadã brasileira, continuam ao serviço da Esquadra de Intervenção Rápida de Loures a fazer exatamente o mesmo trabalho. Menos de 24 horas depois do tiroteio registado no bairro da Encarnação, em Lisboa, a Direção Nacional da PSP deu-lhes armas novas e ordens para voltarem ao serviço de origem.

A informação foi avançada ao Observador pelo Sindicato Independente de Agentes de Polícia (SIAP), que representa cinco destes polícias, e confirmada por fonte oficial da Direção Nacional da PSP. Apesar de, normalmente, os polícias envolvidos em tiroteios serem afastados do serviço que desempenhavam e serem colocados em serviço administrativo, por exemplo, até correr o inquérito, o caso registado na última quinta-feira no bairro da Encarnação teve, para já, um desfecho diferente.

Os sete agentes da Esquadra de Intervenção Rápida de Loures estavam a ouvir nas comunicações que um Seat Leon preto teria no seu interior, pelo menos, dois suspeitos de um assalto a um multibanco em Almada, com recurso a explosivos. A dupla ter-se-ia envolvido numa troca de tiros com elementos da PSP que os perseguiram desde a Segunda Circular até à zona do Terminal 2 do aeroporto de Lisboa. Com esta informação, quando a equipa da PSP viu um carro preto, de marca Renault, deu ordem de paragem. Mas o condutor desobedeceu, fazendo aumentar as suspeitas. Mais, ainda tentou atropelar um dos elementos da equipa — o motorista da carrinha de Intervenção Rápida que não estava armado e que não foi, por isso, constituído arguido pela Polícia Judiciária.

Perante as suspeitas e a desobediência do condutor, os polícias abriram fogo para tentar imobilizar a viatura. No local foram recolhidos, mais tarde, pela PJ cerca de 30 cartuchos. Ainda assim o carro só seria imobilizado depois. E foi neste momento que a PSP percebeu que lá dentro estava uma mulher já morta, atingida pelas balas. Ao volante um homem sem carta de condução. Os dois são brasileiros.

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O caso aconteceu pouco depois das 3h00 da última quarta-feira. Ainda nesse dia, e tal como o regulamento obriga, os polícias preencheram a ocorrência e explicaram porque tinham disparado. Nessa tarde foram ouvidos pela Polícia Judiciária, que investiga o caso de homicídio. Seis dos polícias foram constituídos arguidos e entregaram as armas para serem alvo de perícias no Laboratório de Polícia Científica. Objetivo: saber qual delas disparou, depois de comparadas com os projéteis recolhidos do corpo da vítima. Já na quinta-feira, pouco mais de 24 horas depois do ocorrido, os polícias foram chamados à Direção Nacional da PSP para uma consulta psicológica.

“Nenhum polícia fica bem depois de uma situação destas. Um deles falou comigo a chorar”, disse, na altura, ao Observador, o presidente do SIAP, Carlos Torres, que afirmou ser natural que os polícias fossem colocados noutro serviço. “Pelo menos até que decorra o inquérito e até para não sujeitar o polícia a um episódio semelhante”, justificou.

No entanto, depois das consultas com os psicólogos da PSP, a Direção Nacional decidiu dar novas armas aos polícias e mandá-los de volta ao serviço da Esquadra de Intervenção Rápida de Loures. Ainda assim, afirma Carlos Torres, os elementos da PSP continuam a receber apoio psicológico.

A PJ continua a analisar as armas e os elementos recolhidos no local.

Mulher baleada. Agentes da PSP dispararam 30 vezes