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A Volvo, que anunciou em 2017 estar a desenvolver um camião com propulsão híbrida, para que o seu enorme motor diesel fosse mais comedido nos consumos e nas emissões, revelou agora que está a trabalhar num veículo pesado 100% movido a electricidade. E pretende tê-lo à venda antes do Semi da Tesla. Como será esse modelo, qual a capacidade de bateria, autonomia, potência, capacidade de carga, potência de carregamento de que necessita para ser viável e o preço estimado é que ainda não disse. Como se tudo isto, que é a “essência” do camião eléctrico, fosse de somenos importância. Certo, para a Volvo Trucks, apenas a vontade de chegar ao mercado antes da Tesla.

Tradicionalmente atacam-se os automóveis ligeiros sempre que se fala das enormes quantidades de CO2 que o transporte rodoviário de pessoas e bens emite para a atmosfera, além de NOx e de partículas. Porém, não é de descurar o contributo igualmente importante, para não dizer esmagador, dos veículos pesados, cujas emissões são brutais, especialmente em CO2 e partículas, mesmo as não visíveis.

Talvez por isso, juntamente com os reduzidos custos de utilização – especialistas do sector acreditam numa redução de 70% face aos camiões diesel – e a boa imagem que criam junto das empresas que os utilizam, os camiões eléctricos se tornaram repentinamente tão interessantes. Para o que também terá contribuído, certamente, o facto de a Tesla ter revelado o Semi e as suas impressionantes especificações técnicas, com as encomendas a surgirem a um ritmo que ninguém julgava possível, especialmente os detractores da marca americana. Perante este quadro, os grandes fabricantes de camiões convencionais a gasóleo não querem nem ficar fora do negócio dos eléctricos, e muito menos permitir que só a Tesla arrecade a imagem de ser quem mais se preocupa com o ambiente. Vai daí, o mercado começou a agitar-se e as propostas a surgir. E, desta vez, foi a Volvo que não quis perder o comboio.

Volvo eléctrico e urbano

“A electromobilidade está em perfeita sintonia com o nosso compromisso a longo prazo com a sustentabilidade urbana e as emissões zero”, declarou o presidente da Volvo Trucks, Claes Nilsson. Para depois concluir: “Contudo, isto será apenas um primeiro passo, pois estamos igualmente a trabalhar na electrificação de outras formas de transporte.” Aparentemente, a Volvo Trucks – empresa independente da Volvo Cars, pertença da Geely desde 2010, apesar dos chineses deterem igualmente uma fatia (8,2%) do negócio dos pesados – vai começar por apostar nos camiões de médio porte.

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A aposta dos suecos nesta classe de veículos pesados, em tudo similar à da Mercedes neste domínio – em que os alemães já investiram 1.4 mil milhões de euros –, faz todo o sentido, uma vez que há dois problemas a combater. Por um lado, as emissões brutais dos transportes rodoviários pesados em estrada, de muito maior expressão pela quantidade tremenda de quilómetros que os camiões percorrem anualmente e, por outro, as emissões em zonas urbanas, de menor monta, mas mais importantes para a saúde pública de quem habita nas grandes urbes. Contudo, a verdade é que é bem mais complexo – e dispendioso, devido à necessidade de conceber maiores packs de baterias e sistemas ultra rápidos de carga – enfrentar as primeiras do que as segundas.

Quem é que está a “mexer” nos camiões eléctricos?

Se a Tesla lidera o conceito e rapidamente estabeleceu um standard nos pesados eléctricos, bastante elevado por sinal, há outros players no mercado a movimentar-se, visando propor camiões movidos a electricidade. O primeiro, que já está à venda, é o Mitsubishi Fuso eCanter, construtor que hoje pertence à Mercedes e que produz em Portugal, nas instalações que possui no Tramagal. Com um motor de 251 cv, alimentado por uma bateria (pequena para um camião) de apenas 70 kWh, o eCanter anuncia uma autonomia de somente 100 km, algo limitado para uma utilização normal, mesmo se exclusiva dos centros das grandes cidades.

A Mercedes (mais precisamente a Daimler Trucks, a “mãe” da divisão de camiões da Mercedes e Mitsubishi) tem outros projectos, mais ambiciosos e com outro potencial, mas ainda longe de passar à produção em série. Trata-se do Mercedes Urban eTruck, de que pouco se sabe, além de que aponta para uma autonomia de 200 km, e do Mitsubishi E-Fuso Vision One, que ainda está mais longe de circular pela via pública, anunciando possuir as características de um tractor semi-reboque, com um peso bruto de 23 toneladas e capacidade de transportar 11 mil quilos. O protótipo E-Fuso foi recentemente apresentado no Salão de Tóquio, revelando que irá estar equipado com uma bateria de 300 kWh, o que lhe deverá garantir uma autonomia de 350 km.

Da Volvo pouco ou nada se sabe, além que pretende produzir um camião urbano. Mas a Cummins, mais conhecida por produzir enormes motores a gasóleo para camiões, avançou já para um protótipo de um tractor semi-reboque movido a electricidade. Denominado AEOS, o Cummins deverá ser capaz de transportar 20 toneladas durante 160 km, tudo isto com uma bateria bastante pequena, de apenas 140 kWh. Há ainda os projectos da Nikola e da Thor, mas não é ainda evidente que tenham pés para andar.

Face a todos estes rivais, o Semi da Tesla está num outro patamar. Puxa 36 toneladas durante 482 km ou 804 km (valores calculados segundo o método EPA), consoante a esteja equipado com a bateria normal, ou a de maior capacidade, que deverá rondar 1.000 kWh. A tudo isto é necessário somar a capacidade de recarregar as baterias, garantindo uma autonomia extra de 644 km em apenas 30 minutos, bem como uma potência que a marca promete impressionar, de forma a assegurar a manutenção da velocidade máxima (105 km/h nos EUA) permitida a um pesado com estas características numa subida com 5% de inclinação, ou seja, 33 km/h acima da média da classe, equipada com motor diesel.