Futsal

A fratura da tíbia como lição, a finta AK-3000 como apresentação: o que faz Ricardinho ser o Mágico

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No futebol, chumbou nos testes do FC Porto e esteve para treinar no Benfica; no futsal, foi cinco vezes eleito melhor do mundo. A história de Ricardinho, do incêndio em Fânzeres ao terramoto no Japão.

Ricardinho procura o primeiro grande título com a Seleção Nacional após ganhar tudo a nível de clubes

AFP/Getty Images

Arranca esta terça-feira mais um Campeonato da Europa de futsal, arranca esta terça-feira mais uma tentativa de Portugal conseguir uma grande vitória na oitava participação consecutiva em nove no total.

É na Eslovénia que todas as atenções estarão centradas nos próximos dias, com a Seleção Nacional a defrontar na fase de grupos a Roménia (quarta-feira, 17h) e a Ucrânia (domingo, 17h) antes de cruzar nos quartos de final, em caso de passagem, com um primeiro ou um segundo classificado de peso entre Espanha, Azerbaijão e França (Eslovénia, Sérvia, Itália, Rússia, Polónia e Cazaquistão são as outras participantes).

“Toda a gente sabe a cor da medalha que queremos. Claro que temos o sonho de sermos campeões da Europa, nunca fomos. Havendo uma pequena melhoria, por que não poderemos ambicionar isso? Não vamos lá apenas para participar ou para ficar outra vez nos quatro melhores. Queremos mais e assumimos”, comentou na antecâmara da prova Jorge Braz, selecionador nacional, à agência Lusa. “Temos qualidade, mas, às vezes, sentimos um pouco a pressão em campo. Parece que temos medo de fazer história. Com os jogadores jovens que estão a entrar, com a mente limpa, que não vêm de uma rotina de perder sempre nestas fases, sinto uma energia positiva e acho que podemos fazer algo muito bonito”, acrescentou o capitão de equipa Ricardinho.

Aos 32 anos, é no esquerdino do Inter Movistar que todas as atenções recaem, ainda mais depois de ter conquistado o troféu de Melhor Jogador do Mundo pela quinta vez (2010, 2014, 2015, 2016 e 2017). E estas são dez curiosidades do Mágico que continua a fazer as delícias dos fãs mas que quer quebrar o jejum de títulos pela Seleção.

Vender cerveja nas Antas antes de ser recusado nos testes

O pai de Ricardinho, que chegou a jogar futebol nas camadas jovens do FC Porto, passava a semana a trabalhar no Mercado Abastecedor e, quando os dragões jogavam em casa, tinha o filho a ajudar na venda de cervejas (antes de conseguir entrar no estádio para ver o jogo). Quando jogava no Cerco, teve a possibilidade de ir à experiência aos azuis e brancos: elogiaram-lhe a técnica e a velocidade, torceram o nariz à altura. E aquele a quem chamavam Maradona por ser baixinho e fintar meio mundo, e que passava horas a tentar ser melhor em casa com laranjas, acabou por ver frustrada a hipótese de dar o passo que ambicionava. Esteve depois meio ano sem ligar à bola.

O incêndio, um bairro problemático, os 50 contos por golo e o futsal

Por insistência de uma treinadora, acabou por experimentar o futsal e foi para o Gramidense, clube que tinha sido derrotado por um clube de bairro onde Ricardinho se destacava. Desde miúdo que o esquerdino sempre foi muito agarrado à família e mais ficou quando, aos dez anos, teve de mudar de casa por causa de um incêndio que começou numa loja ao lado do seu prédio e que consumiu todos os pertences. Mudou-se de Fânzeres para um bairro social problemático em Valbom, mas foi trilhando o seu caminho longe dos problemas e… com algumas receitas extra: um dia, quando ainda jogava futebol, defrontou o Alunos de Meirim e o padrinho prometeu pagar-lhe cinco contos por golo. Só nesse jogo, foram dez. No futsal, começou a destacar-se depois no Miramar, embora tivessem sempre algum receio de colocá-lo a jogar no escalão acima porque poderia sofrer alguma entrada mais dura.

Uma mudança que rendeu 2.250 euros por mês (dos quais ficava com 250)

Ricardinho começou a jogar futsal no Gramidense, passando mais tarde para os iniciados do Miramar. Em 2003, com 17 anos, o Benfica tentou tudo pela sua contratação e ofereceu-lhe um contrato de 2.250 euros. Pensou, pensou, chorou com a possibilidade de sair debaixo da asa dos pais, de deixar a namorada e mudar-se para uma cidade nova (como o próprio brincava, nunca tinha ido a um shopping ou andado de metro) mas acabou mesmo por aceitar, apesar da tentativa tardia do Freixieiro. A viver na mesma casa de André Lima e Arnaldo, lá se foi adaptando à vida em Lisboa com outra curiosidade: só ficava com 250 euros do que recebia por mês, enviando o resto para os pais.

A fratura na tíbia e como dar espetáculo a fugir das lesões

Quando meteu na cabeça que era no futsal que ia tentar destacar-se, foi estudando a melhor forma de brilhar mas nem sempre aquilo que para si fazia parte do espetáculo foi interpretado da mesma maneira pelos adversários e, num particular quando estava já no Benfica, acabou por fraturar a tíbia após uma entrada mais dura (curiosamente quando estava pré-convocado para um Europeu antes dos 18 anos). Em entrevista à Veja, contou um conselho que o brasileiro Marquinhos lhe deu e que nunca mais esqueceu: “Joga assim sempre a ganhar ou a perder porque dessa forma as pessoas vão respeitar-te”. O tempo mostrou que tinha razão e começou mesmo a ser respeitado.

O treino na equipa de futebol do Benfica que nunca aconteceu

Em 2007, Ricardinho teve uma das melhores temporadas na Luz, tendo ganho todas as provas nacionais em disputa com exibições de sonho na quadra. Mas será que conseguiria ter o mesmo rendimento se jogasse futebol de 11? Os responsáveis encarnados tiveram a mesma dúvida e, mantendo sempre grande segredo sobre a operação, pensaram levar o jogador aos treinos de pré-temporada quando Fernando Santos era treinador do Benfica. E já se sabia que iria atuar ou como camisola 10 ou numa das alas, para poder potenciar a qualidade técnica e a capacidade de finta. No entanto, o assunto acabou por tornar-se público e nunca chegou a passar à prática.

O terramoto no Japão, a saída da Rússia e a consagração em Espanha

Ricardinho teve a primeira aventura no estrangeiro no Japão, ao serviço do Nagoya Oceans. E a experiência correu bem: gostava da cidade, da arquitetura, das pessoas, da tecnologia. E gostavam dele, tanto que passou a haver uma rubrica na televisão inspirada nas suas habilidades. No entanto, acabou por não durar muito por causa dos terramotos, em específico um que sentiu em 2011 quando viajava de táxi para um jogo e que provocou danos assinaláveis em várias infraestruturas. Pensou que o dinheiro não era tudo (e ganhava aí dez vezes mais do que o Benfica), foi por empréstimo para a Rússia. Aí, no CSKA Moscovo, ficou impressionado com a imponência da Praça Vermelha, mas não se adaptou ao resto. Pensou que o dinheiro não era tudo, voltou ao Japão e esteve cedido ao Benfica. Em 2013, assinou pelo Inter Movistar, equipa de Madrid, e por lá continua, sendo uma estrela quase ao nível dos jogadores de futebol a nível de reconhecimento do público pelas suas capacidades.

Do Jardel e do Drulovic ao André Lima e ao Falcão

Como nasceu numa família de portistas e tinha como grande sonho jogar futebol de 11, as primeiras referências de Ricardinho nada tinham a ver com o futsal e eram Jardel, Drulovic, Zahovic ou Capucho, todos futebolistas dos dragões. No futsal, André Lima, o ex-internacional que já no Miramar o ia buscar e levar para os treinos antes de serem companheiros no Benfica (primeiro como jogador, depois como treinador), e o brasileiro Falcão, que ganhou por quatro vezes a distinção de melhor do mundo, foram os grandes exemplos, sem esquecer outros companheiros (Arnaldo, Pedro Costa ou Zé Maria) e adversários (Manoel Tobias, Marquinhos ou Schumacher).

Uma finta chamada AK-3000 que resultou num dos melhores golos

Desde que meteu na cabeça que era no futsal que tentaria fazer carreira que Ricardinho passou horas e horas a fio a estudar jogadas, movimentações e fintas que melhorassem a sua qualidade de jogo. E essa inspiração foi retirada não só na “sua” modalidade mas também no futebol ou no hóquei (assumiu em entrevistas que tentou “imitar” fintas dos hoquistas Marinho e Pedro Gil… mas ia correndo mal). A que funcionou mesmo foi a AK-3000, ensinada pelo freestyler holandês Issy Hitman Hamdaoui quando passou por um treino do Inter Movistar: diziam-lhe que não daria para fazer num jogo, mas o esquerdino arriscou e marcou um dos seus melhores golos (Europeu de 2014).

Em busca do primeiro grande título por Portugal

No último Campeonato da Europa, Ricardinho foi a grande figura nacional mas os seus seis golos (três no 6-2 com a Eslovénia, um no 1-3 com a Sérvia e dois no 2-6 com a Espanha) acabaram por não evitar a eliminação nos quartos de final da prova realizada em território sérvio. Também em 2016, os 12 golos apontados no Campeonato do Mundo, na Tailândia (seis no 9-0 com o Panamá, três no 5-1 com o Usbequistão, dois no 4-0 com a Costa Rica e um no 3-2 com o Azerbaijão), não foram suficientes para passar da quarta posição. Esse é o grande título que falta ao melhor jogador do mundo: um Europeu ou um Mundial. No caso da prova que arranca agora na Eslovénia, o melhor que Portugal já conseguiu foi um segundo lugar em 2010… sem Ricardinho, que estava lesionado.

Entre 28 títulos, há um que será para sempre recordado

Ricardinho passou por Miramar, Benfica, Nagoya Oceans, CSKA Moscovo e Inter Movistar e apenas na Rússia não conseguiu ganhar nenhum título. Mas entre os 28 troféus, há um que ficará para sempre marcado: a UEFA Futsal Cup de 2010 pelos encarnados no Pavilhão Atlântico, naquele que é ainda hoje o único título europeu de um clube português na principal competição da modalidade (os encarnados foram a outra final, tal como o Sporting já esteve em duas e procura agora a terceira). Além disso, soma ainda cinco Campeonatos (2005, 2007, 2008, 2009 e 2012), quatro Taças (2005, 2007, 2009 e 2012) e três Supertaças (2006, 2007 e 2009) em Portugal; dois Campeonatos (2011 e 2013) e duas Arena’s Cup (2010 e 2012) no Japão; quatro Campeonatos (2014, 2015, 2016 e 2017), quatro Taças (2014, 2015, 2016 e 2017), duas Supertaças (2015 e 2017) e uma UEFA Futsal Cup (2017) em Espanha.

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