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Pintura apelidada de “Mona Lisa Africana” vendida por mais de 1.3 milhões de euros

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"Tutu", de Ben Enwonwu, esteve perdido durante mais de 40 anos e foi encontrado recentemente num apartamento "modesto" em Londres. Os donos não sabiam que o quadro valia mais de um milhão de libras.

Um retrato conhecido como “Mona Lisa Africana”, e que esteve perdido durante mais de 40 anos, foi vendido na quarta-feira por 1.2 milhões de libras, o equivalente a quase 1.4 milhões de euros. “Tutu”, de Ben Enwonwu, foi encontrado recentemente num apartamento no norte de Londres, onde esteve “perdido” durante 30 anos. Os donos nem sabiam o que tinham em mãos.

O valor do quadro, que esteve à venda no leilão “Africa Now”, da Bonhams, estava estimado entre 200 mil e 300 mil libras, menos de um quarto da oferta final. As 1.208.750 milhões de libras por que foi vendido são um novo recorde para obras do pintor nigeriano.

O retrato é apenas um de três que Ben Enwonwu fez da princesa Adetutu Ademiluyi, neta do antigo Ooni (isto é, rei) de Ife. Todos eles foram intitulados “Tutu”, sendo este o segundo a ter sido pintado. O paradeiro do primeiro e do terceiro retratos permanece o mistério — sabe-se apenas que o primeiro “Tutu” esteve na residência de Enwonwu até à sua morte, em 1994, e desapareceu passado pouco tempo.

A pintura agora vendida perdeu-se misteriosamente pouco depois de o artista nigeriano a ter pintado, em 1974. Foram precisos quarenta anos para voltar a encontrá-la, tendo isto sido conseguido muito por culpa de Giles Peppiatt, director de arte africana moderna na Bonhams, que assumiu esta missão de achar as obras de Ben Enwonwu.

Chegar até à obra acabou por ser um feliz acaso: segundo o The Guardian, Peppiatt foi contactado por uma família após uma onda de vendas de obras nigerianas lucrativas. O director de arte africana moderna visitou essa família no seu apartamento no norte de Londres — que descreveu como sendo “modesto” — e deparou-se com um dos três “Tutus” perdidos. A família, explicou, tinha-o em casa há 30 anos e não fazia ideia da sua importância ou do seu valor actual.

A descoberta de “Tutu” é amplificada pela sua significância histórica. Ben Enwonwu e Adetutu Ademiluyi pertenciam a diferentes etnias que se opunham na Guerra Civil Nigeriana, que durou de 1967 a 1970. Adetutu era a filha de um líder Yoruba e Enwonwu era Igbo, povo que fez a secessão do governo nigeriano e constituiu o estado de Biafra no sul do país.

Em 1974, as diferenças entre os Igbo e a restante Nigéria ainda se sentiam no país, pelo que não foi fácil para Enwonwu pintar a princesa Adetutu. O pintor decidiu que o queria fazer depois de a encontrar numa das suas frequentes viagens ao campo em torno de Ife, explica a Bonhams. Impressionado com a sua beleza e traços, pediu permissão aos seus pais para a pintar, aprovação que também lhe daria alguma protecção quanto a possíveis problemas que pudessem surgir em virtude da sua etnicidade. Apesar de uma relutância inicial, o artista conseguiu a a aprovação da família real de Ife e pintou os três retratos.

“Tutu” serviu como uma espécie de símbolo de reconciliação entre o governo e os separatistas de Biafra, tendo, por isso, elevada importância para o país, que o apelida de “Mona Lisa Africana”. Ben Okri, escritor vencedor de um prémio Booker nascido na Nigéria, considera que a descoberta é a “mais significativa da arte contemporânea africana em mais de 50 anos” e equipara-a a “uma descoberta arqueológica rara”. “É uma causa para celebração, um momento potencialmente transformador no mundo da arte”, disse.

As identidades da família vendedora e do comprador permanecem desconhecidas. Nesse mesmo leilão, foram vendidas outras duas pinturas de Enwonwu: “Negritude”, por 100 mil libras, e “The Female Form”, por 110 mil libras.

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