O dia já ia longo na cimeira da National Geographic. O palco da manhã tinha recebido o astronauta Terry Virts, a jornalista Mariana van Zeller e a ativista norte-american Heynsoeo Lee. Os atrasos obrigaram a uma hora de almoço mais curta para as centenas de pessoas que encheram o Coliseu de Recreio, mas havia de valer a pena: Charlie Hamilton James, fotojornalista, iria contar como comprou um terreno com uma plantação de cocaína ilegal sem querer. Adjany Costa desvendaria as maravilhas perdidas de uma Angola isolada pela guerra. E Sylvia Earle provaria, uma vez mais, porque é a principal guardiã dos oceanos.

Vida, morte e o que está no meio: testemunhos de uma manhã na National Geographic

Charlie Hamilton James, o homem que gosta de pessoas porque ama os animais

Quando era criança, Charlie Hamilton James só pensava em tornar-se explorador da National Geographic para, à boleia da profissão, visitar África. Aos treze anos recebeu a primeira câmara. Havia de esperar 20 anos até fotografar matins-pescadores, pássaros azuis que mergulham na água para apanhar peixes, mas com grande capacidade de fugir às lentes. Só depois dessa experiência é que começou a ficar realmente obcecado pelos animais. E precisou disso para gostar das pessoas.

Uma das histórias mais impressionantes partilhadas por este fotojornalista britânico na National Geographic Summit foi a ocasião em que comprou uma plantação ilegal de cocaína por engano. A história vai ser contada num livro publicado dentro de cinco meses e que, confidencia Charlie, começa com a ameaça de morte que recebeu dos donos dessa plantação: “Recebi a chamada de um amigo deu. Ele contou-me que havia um grande terreno, à beira de uma estrada onde as pessoas atravessavam para entrar num parque nacional e cortar árvores que estavam protegidas”. A ideia do amigo de Charlie era que ele se juntasse a um grupo em que cada uma das pessoas compraria um pedaço de terra para proteger o parque e o próprio terreno. Estavam todos longe de saber que se estavam a meter com um cartel de cocaína. E estava ainda mais longe de imaginar que se viria apaixonar por humanos.

É que as primeiras paixões de Charlie Hamilton James foram as lontras que encontrou no Algarve: “Tudo começou quando tinha 16 anos numa ilha a 100 milhas a norte da Escócia. Queria nadar com as lontras e ser a primeiro pessoa a fotografar debaixo de água”, recorda. Isso só veio a acontecer aos 35 anos junto a casa, quando montou 200 metros de cabos, infravermelhos e 27 luzes para as apanhar a nada no escuro. “Mais tarde fui ao Algarve com a minha mulher. Ela queria levar as crianças à praia e eu fui à procura de lontras. Encontrei pegadas em quase todas as praias do Algarve. Mas nunca as vi: são tímidas, por isso só saem à noite”, conta.

Charlie Hamilton James nem sempre esteve interessado na beleza da natureza: “Houve uma altura que decidi contar histórias sobre abutres. Queria tirá-los da morte e dos cadáveres e das entranhas em que os imaginamos sempre. Eles são os pássaros que voam mais alto no mundo, até já foram vistos a 33 mil pés de altitude. Têm hemoglobina especial para se aguentarem com ar rarefeito”, explica o fotojornalista. Mas há um motivo para Charlie nutrir este interesse: os abutres são a espécie com o declínio mais rápido da História. As pessoas estão a matá-los porque se querem ver livres deles e porque, em algumas culturas, acreditam que se lhes comerem os cérebros podem ver o futuro: “Mas se vissem o futuro, não viriam abutres”.

Foi ao conhecer o destino de vários animais pelo mundo que Charlie Hamilton James se desencantou com a espécie humana: viu elefantes envenenados por destruírem as colheitas, pessoas a espalharem uma droga cor de rosa nas plantas para matarem leões, viu homens a desmatarem florestas para a encherem de mercúrio e chumbo em busca de meras gramas de ouro. “Eu só me perguntava porque é que as pessoas fazem isso, por isso fui conhecer as pessoas. Fui desmatar florestas com elas e matar animais com elas para entender o que as levava a fazer isso”, recorda Charlie. Foi assim que se apaixonou pelas pessoas.

Charlie Hamilton James descobriu pessoas que chamam Jesus à floresta, mas que a precisam de matar porque querem mandar os filhos para a universidade. E jovens que ficaram presos em redes de exploração florestal ilegal porque queriam dinheiro para continuar a estudar. “Essas pessoas são boas. Não deixei de fazer amizade com estes homens pelo que fazem às florestas, embora nunca concorde. Eu simplesmente não entendia o problema deles”, conta. Foi por isso que resolveu revolucionar a vida de uma família com a qual se cruzou nessas aventuras.

Tudo aconteceu depois de Charlie ter comprado o terreno a 800 metros altitude, algo que garantia à folha de coca que se plantava ali uma grande quantidade de alcalóides. Movido pela missão de proteger aquele pedaço de terra, que tem 13 mil espécies de borboletas e 10% de todas as espécies de aves no mundo, Charlie Hamilton James decidiu ir falar com a família que lá vivia: “Diziam-me que eram más pessoas, por isso decidi ir falar com ele. Disse-lhes que tinham de sair, que aquele terreno tinha sido comprado para proteção ambiental. O homem explicou que não podia sair porque não poderia alimentar a família nem ajudar a filha incapacitada. Eu achava que ele estava a mentir”, recorda o fotojornalista. Mas não estava: no dia seguinte, Charlie visitou a família e percebeu que aquele homem, a quem tinham chamado má pessoa, tinha uma filha de cinco anos que tinha sofrido um acidente e que estava completamente dependente dos pais. Isso mudou a vida de Charlie: “Agora tenho novos problemas com que me preocupar”.

Charlie está numa verdadeira missão por “equilibrar um mundo” onde homens e animais possam coexistir da forma mais saudável possível. “Eu pensava que os animais sofriam por causa das pessoas. Esqueci-me que elas também sofrem”, confessa. “Precisamos de ser sensíveis, sair de nós próprios. Queremos viver num mundo de elitismo ou num mundo inclusivo? Queremos e devemos, pelo futuro do planeta, escolher a segunda opção”.

Adjany Costa dentro da “sala de estar de África”

O pai de Adjany Costa, a bióloga marinha que é diretora do projeto para a Vida Selvagem no Okavango, conhecia bem a região para onde a equipa enraizada na África do Sul queria que a filha explorasse. “O meu pai chamava-lhe Terra de Fome e eu estava cheia de medo. Era um lugar fantasma, isolada pela guerra e cheia de minas à conta da guerra que durou 27 anos. Ele insistia para eu não ir para lá”, contou Adjany Costa na cimeira da National Geographic. Mas a angolana foi e encontrou “aquilo que toda a gente dizia que Angola era: a sala de estar de África”.

Adjany Costa explica que o Okavango é uma bacia tão grande que pode ser vista do espaço, mas ninguém sabia muito bem o que lá existia porque a região estava isolada. Por isso, juntou-se a mais 15 homens “para diluir um pouco testosterona” e para encontrar novos planos de gestão que agradassem a ambientalistas e a políticos. O que viu por lá é possivelmente “o último lugar completamente selvagem do mundo”: no Okavango vive a maior população de elegantes selvagens do planeta e a maior população de búfalos do mundo. Mais do que isso: encontrou a lagoa de um rio em que 95% da água tem origem em Angola. Mas nem sempre este sítio paradisíaco foi fácil de enfrentar para Adjany Costa e a equipa.

Todos os membros da equipa estavam cientes de que estavam a entrar na parte esquecida de Angola. Ao chegar à região do Okavango, perceberam que o rio Cuito, que atravessa o sítio, se tornaria “uma mãe que nos dá lições de vida”: “Nunca nos passa a mão na cabeça. A mãe Cuito dá-nos lições de vida duras a partir da experiência”, concretiza. A primeira chegou logo nos primeiros dias de acampamento: assim que encontraram o lago, Adjany e os colegas puseram as canoas na água para entrar no rio: “Mas não havia ligação entre a lagoa e o rio. Passámos duas semanas a fazer 12 quilómetros e a um ritmo cardíacos de 192 batimentos por minuto para empurrar as canoas do lago até ao curso da água. E até o rio era difícil de navegar porque tem muitas curvas e contracurvas. Tal como a vida. É preciso respeitar os donos da terra: nós ali não somos donos de nada. Temos de nos adaptar ao que existe e não o contrário”, conta.

Ser diretora de um projeto com esta ambição foi também uma forma de testar a vida: Adjany Costa enfrentou dois elefantes e quatro hipopótamos em batalhas que a poderiam ter morto. É que “os hipopótamos em Angola são mal humorados, ficaram traumatizados pela guerra. Vê-se a diferença de comportamentos para os da Namíbia. Um deles empurrou a nossa canoa, depois fugiu assustado por nos ver de um lado para o outro”, recorda.  Foi nessa ocasião que Adjany percebeu que “não devemos olhar a natureza a partir de cima, porque somos parte dela”.

Em quatro meses na selva, Adjany admitiu que as atitudes dela e a dos animais, se alterou: “Eles deixam de nos ver como humanos, mas sim como animais como os outros. A selva muda-nos para sempre e são as ameaças que sofremos que nos ensinam isso. O objetivo não é tão importante como a viagem”, explica a angola natural do Huambo na cimeira.

São esses os conselhos que Adjany Costa deixa ao público: “Sejam mais humanos: não os humanos modernos, mas sim os originais. Compreendam o sítio onde pertencem. A primeira vez que percebi que pertencia ao Okavango até chorei. Senti hienas ao meu lado e leões á distância. Passei a fazer parte do sistema. Percebi que a vida é barulhenta. No meio do mato aprendi a ser pessoa”.

Sylvia Earle: remar contra quem “muda a natureza da natureza”

Sylvia Earle lembra-de ser criança e de toda a gente lhe dizer que a ideia de ir para o espaço e pisar a Lua era “apenas um sonho”. Deixou de ser, não muito tempo depois, quando “descobrimos a capacidade de ir para além da nossa atmosfera e de olharmos para a Terra como nunca antes: como um planeta azul”, descreve ela. O que Sylvia Earle fez a seguir foi inspirado nesse momento: é ela que conhece como a palma da mão as profundezas do oceano. E é considerada a maior guardiã na água, “o elemento que nos une a todos”.

A aventura de Sylvia Earle começou em 1950 quando iniciou a exploração do oceano em cima de barcos e ao lado de outros cientistas. Não chegava: queria descobrir e testar técnicas de mergulho para o explorar o oceano “por dentro” e foi das primeiras mulheres a fazer parte dos navios de investigação dos Estados Unidos. “Estava no Quénia e íamos para o meio do mar descobrir umas coisas. Os jornalistas estavam lá para noticiar o que íamos explorar. No dia seguinte, a manchete falava da mulher que se ia meter no barco com 70 homens. Talvez a próxima manchete fale do único homem entre 70 mulheres, embora isso também não fosse muito correto”, graceja.

Foi nessa ocasião que Sylvia Earle conheceu os peixes “a nadar no seu próprio meio e não em molho de limão e manteiga”. Percebeu que os equipamentos que os astronautas utilizavam no espaço podiam, se fossem adaptados, ser usados para mergulhar em profundidade e passar muito mais tempo dentro de água do que a ciência permitia naquela época: “Se podemos estar no espaço, porque é que não podemos estar no oceano? A diferença é que no oceano temos vida à nossa volta”, questiona Sylvia Earle.

E temos mesmo muita vida. Em 1980, Sylvia Earle viu um colega entrar num submarino que desceu até ao ponto mais profundo do oceano — as Fossas das Marianas — e a regressar. “Ele viu vida até lá ao fundo, onde está frio e escuro e há muita pressão por causa do peso da água. Havia vida mesmo lá no fundo”, descreve a bióloga.

Tudo isso está ameaçado agora: os recifes, que são as florestas amazónicas dos oceanos e onde a diversidade de seres vivos é maior do que em qualquer outro sítio em terra seca, estão transformados em cinzas: “O que é triste é o impacto humano no oceano. Perdeu riqueza e a culpa é do aquecimento global. Afeta até os seres microscópicos, aqueles graças aos quais respiramos porque são responsáveis por 25% do oxigénio na atmosfera. Metade dos recifes desapareceram. E temos de resolver isso agora”, explica.

Há culpas que Sylvia Earle prefere não apontar: diz que já esgotou o tempo de culpar as gerações anteriores porque “antes nós não sabíamos do impacto que as nossas ações tinham, mas agora sabemos”: “Os humanos também são criaturas do mar. E como todos os animais gostam de usar a natureza para atingir prosperidade. O problema é que fazemos isso mais rápido do que qualquer outra espécie. Agora mais do que nunca podemos medir as consequências dessa prosperidade. E encontrar o equilíbrio de tirar tanto da natureza como lhe damos”, afirma Sylvia.