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Escultura sacra, armas com mais de 100 anos, tesouros de família, arte contemporânea e design da segunda metade do século XX — à primeira, parece difícil colar todas as peças e apresentá-las num único evento. Difícil, não impossível. Até dia 22 de abril, a Feira de Arte e Antiguidades de Lisboa ocupa a Cordoaria Nacional com 21 galeristas e antiquários nacionais, aos quais se juntam cinco expositores internacionais que chegam de França e Espanha. À 23ª edição, o evento mais importante do país no setor da comercialização de peças antigas, está mais diversificado do que nunca. “Os próprios galeristas estrangeiros demonstraram interesse em participar no nosso evento”, afirma José Sanina, presidente da Associação Portuguesa dos Antiquários — APA, entidade que organiza esta feira anual.

Aumenta a oferta, mas também o rigor. Sanina destaca a peritagem a que todas as peças são submetidas, embora alguns dos intervenientes sejam já velhos conhecidos. “São pintores, conservadores de museus e críticos de arte”, explica o presidente da associação, ao falar da equipa que, em vésperas da abertura ao público, marcada para este sábado, passaram cada expositor a pente fino. Miguel Arruda é um dos tais habitués. Há 34 anos, abriu um antiquário na Rua de São Bento, em Lisboa. Hoje, aproveita a feira para expor os seus tesouros mais preciosos, muitos deles portugueses. “Infelizmente, e ao contrário do que acontecia noutros países europeus, os portugueses não tinham o hábito de assinar as peças”, exclama, enquanto pega num relevo do século XVII, assinado na parte de trás. Apresenta-se como um antiquário generalista — vende pintura, peças de mobiliário, arte sacra, porcelanas e pratas. E por falar em pratas, outra preciosidade: um samovar russo, tão raro como qualquer outra peça com a mesma proveniência. Obviamente, existem exceções, mas regra geral o que é feito na Rússia fica na Rússia.

Óleo sobre tela de José Girão (1901), Rota do Tempo – João Ramada © João Porfírio/Observador

Bem mais específico é o ramo de negócio de Manuel D’Orey Capucho. O gosto pelos azulejos é coisa de família, mas só há dez anos, quando se reformou, é que deixou de ser apenas colecionador para assumir também o papel de antiquário. Os dois leões italianos (em pedra, entenda-se) são das poucas exceções nesta visão azul e branca. São mais pequenos do que os da Assembleia da República, ainda assim imponentes o suficiente para interromper a marcha pelos corredores da cordoaria. Manuel chama a atenção para um painel do século XVII. “Há muitos deste estilo no Palácio dos Marqueses da Fronteira”, conta. É uma cena de caça em África, claramente encomendada a quem nunca havia posto um pé naquele continente. Porquê? Porque o elefante representado sobre os azulejos tem metade do tamanho dos cavalos. “Acontecia muito”, conclui.

Os antiquários não mordem

Mais à frente, encontramos Álvaro Roquette e Pedro Aguiar-Branco, antiquários de uma nova geração que fizeram da arte colonial a sua especialidade. “Um antiquário tem três funções: descobrir, informar e restaurar o património”, afirma Álvaro, evocando uma espécie de serviço público. A busca por novas peças nunca cessa, tal como o exercício de documentá-las. À Mesa do Príncipe é o último livro da AR-PAB (sigla que junta o nome dos dois antiquários), galeria discretamente posicionada no Príncipe Real. É a arte de trabalhar a prata, a madrepérola, o cristal de rocha e a porcelana ao serviço da mesa, durante os séculos XVI e XVII. Ao mesmo tempo que investe em publicações de luxo, a dupla parece querer romper com o estigma em torno dos espaços onde estes objetos são comercializados. “Não somos uma mercearia de coisas bonitas. Queremos que as pessoas entrem, independentemente se irem comprar ou não”, acrescenta.

Na véspera da abertura ao público, a Feira de Arte e Antiguidades de Lisboa, na Cordoaria Nacional © João Porfírio/Observador

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José Sanina toca no mesmo ponto. “Sou de uma geração em que se olhava da rua para dentro do antiquário com medo de entrar. Sempre lutei pela democratização do acesso às peças. Os antiquários têm de ter esta proximidade, o tempo e a disponibilidade para transmitir conhecimento. Acho que as pessoas já se aperceberam disso e que ficam agradavelmente surpreendidas quando vêem que a peça que julgavam ser inacessível está, afinal, ao nível da que viram numa loja de design”, partilha.

Mas o presidente da Associação Portuguesa dos Antiquários fala também numa num novo público. Está nas casas dos 30 e dos 40 anos e, mais do que colecionar, quer harmonizar peças especiais e com história com os ambientes mais ou menos descontraídos e ecléticos das suas salas. Será que as antiguidades estão na moda? Pode dizer-se que sim. “Existe um público habitual que já conhece a feira e que vem sempre. Houve uma mudança no gosto e acho que, neste momento, o ciclo está a mudar outra vez. As pessoas querem peças antigas e de design em casa”, refere. “Aquele espírito colecionista quase escravizante já não se coaduna com a nossa forma de estar na vida. As pessoas querem ter algo que lhes diga algo e querem conhecer a peça em profundidade, mais do que às vezes se conhece quando se coleciona em série”, continua.

Portugal é um bom país para colecionar? Tem dias

“Há colecionadores e decoradores”, resume Faria e Silva, o homem que dá a cara pelo antiquário Manuela Gil. É especialista em armas antigas e, além de colecionador também assume a peritagem, não das suas próprias armas, claro. Em casa tem uma sala só para elas, são à volta de 600. Assim que falamos em “peças especiais”, abre uma gaveta e tira um sabre português de finais do século XVIII. O punho é em osso, a guarda em prata e com as armas de D. Maria I. “Já está vendido”, comenta, sem revelar números. Mas há mais um, do reinado de D. José I, posterior, portanto. Os exemplares são raros e o colecionador diz mesmo que aparece um a cada dez anos. Em maior quantidade estão a pistolas do século XIX, operacionais, embora a utilização para fins bélicos não seja de todo recomendável por ser meio imprevisível de que lado sairia o tiro. As mais caras chegam a custar 2000€.

Faria e Silva, especialista em armas antigas, abre a gaveta onde guarda os sabres portugueses © João Porfírio/Observador

“Estamos a recuperar paulatinamente, isto é, o poder aquisitivo das pessoas está a melhorar devagar. As pessoas já conseguem adquirir o que há quatro anos não conseguia. Além disso, o mercado está mais exigente”, afirma novamente José Sanina. Ao mesmo tempo que vê a recupração do setor como “lenta e consistente”, reconhece o aumento do público estrangeiro. Compram casa em Portugal, decoram-na e trazem já um conhecimento considerável sobre este tipo de peças. Sanina destaca ainda a crescente procura de clientes asiáticos, em especial chineses, que curiosamente procuram sobretudo peças de arte provenientes ou inspiradas no seu próprio país. “Portugal tem por tradição apresentar peças de qualidade e é conhecido lá fora por isso, mas há uma inadaptabilidade da legislação à realidade histórica do país. Tem a ver, essencialmente, com as licenças necessárias para comercializar determinado tipo peças e com e a morosidade na resposta quando queremos expor no estrangeiro. Quando um inglês quer ir fazer uma feira tem um quinto ou um décimo do trabalho que nós temos.”, remata.

Século XX: as histórias que as peças contam

No meio de painéis de azulejos, imagens de arte sacra, armas e arcas do tesouro, a Feira de Arte e Antiguidades de Lisboa também tem espaço para o design do século XX, joalharia (muita joalharia) incluída. Isabel Lopes da Silva trouxe várias peças de David Webb, icónico joalheiro norte-americano, que nos anos 40 e 50, criou joias cheias de cor e exuberância.

Mais à frente, praticamente no fim do percurso da feira, Carlos Bessa Pereira, da Galeria Bessa Pereira, em Lisboa, rompe com o sacro e com o barroco predominantes até então. “Quem compra estas peças, compra para ter histórias para contar”, admite. O próprio galerista, no seu affair temporário com as peças que comercializa (sobretudo mobiliário dos anos 50 e 60) já tem uma história para contar sobre a cadeira Zig-Zag, desenhada por Gerrit Rietveld nos anos 30. É um exemplar especial, produzido três décadas depois pelo carpinteiro do designer holandês. Com a cadeira dentro do carro, Bessa Pereira estacionou durante instantes num parque público. Achou por bem alertar o vigilante de que lá dentro ficava uma cadeira avaliada em 12 000€. Várias perguntas depois, o que começou por ser uma simples chamada de atenção ao estilo “dê aí um olhinho”, acabou por ser uma aula de design.

A Cadeira Zig-Zag, de Gerrit Rietveld, Galeria Bessa Pereira © João Porfírio/Observador

Para a feira, Carlos Bessa Pereira trouxe apenas três peças portuguesas, duas delas também cadeiras. Desenhadas por José Espinho, acabaram por ser produzidas pela Sousa Braga, em pau-rosa. O galerista veio então a constatar que, apesar da sua extensa colaboração com a Olaio, o designer português tinha preferência pelo primeiro fabricante sempre que as pelas exigiam madeiras mais nobres. A maioria das peças chegou de França, também elas com as suas histórias. Fiquemo-nos por duas banquetas, uma desenhada por Charlotte Perriand, a outra por Jean Prouvé, ambas parte de um projeto megalómano que passou pela construção de um complexo mineira na Mauritânia. Designers e arquitetos trabalharam na construção e no mobiliário de um bairro inteiro, das habitações dos mineiros às acomodações dos altos quadros. Adivinhe de onde estas banquetas eram.

A Feira de Arte e Antiguidades de Lisboa decorre na Cordoaria Nacional, em Lisboa, de 14 a 22 de abril, das 16h às 23h, de segunda-feira a sábado, e das 12h às 20h, ao domingo. Bilhetes diários: 12€ e 20€ (duplo).