O argumentista e realizador Carlos Saboga viveu o Maio de 68 entre euforia e receio de ser expulso para Portugal, depois de ter participado na ocupação da Casa de Portugal e de ter sido “soldado raso” nas barricadas. O homem que viria, mais tarde, a trabalhar com os realizadores António-Pedro Vasconcelos, Mário Barroso e Raúl Ruiz, também participou num comité de ação português de trabalhadores-estudantes, e foi obrigado a fugir para Itália, em junho de 68, face a um rumor de expulsão de portugueses.

Carlos Saboga tinha saído de Portugal com uma equipa de cinema francesa, em 1965, e atravessou os Pirenéus a pé, porque a sua família tinha “uma longa história de oposição ao regime de Salazar”: o pai passou 15 anos preso e ele próprio esteve atrás das grades.

Em maio de 68, quando era assistente na estação de televisão pública de televisão ORTF, “toda a gente estava em greve” e ele teve “toda a disponibilidade” para participar no movimento de contestação, tendo entrado num comité de trabalhadores-estudantes de língua portuguesa, ao lado, por exemplo, do artista Vasco de Castro.

Fazia-se pouca coisa, falava-se muito. A circulação da palavra era intensiva, mas, de resto, não havia grandes ações, à parte as manifestações, barricadas, etc.. Aquilo de que se falava muito era da revolução, de coisas teóricas, ideológicas. Falava-se do perigo iminente do ataque do Ocidente, dos grupos neofascistas que ameaçavam vir libertar a Sorbonne”, recordou à Lusa o argumentista de 81 anos.

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Carlos Saboga andava sempre “de um lado para o outro”, porque “queria ver tudo”, mas acabou “por estar metido no comité da ocupação” da Casa de Portugal na Cidade Universitária de Paris, onde “assistia às reuniões, discutia, falava evidentemente”.

“Havia grandes assembleias em que se falava de revolução, em que uns se tomavam por Lenine, outros por Trotsky, outros por isto e aquilo, mas não me recordo assim de nada, à parte ajudar os brasileiros a ocupar a Casa do Brasil, porque eles eram poucos e vieram pedir-nos uma aliança para ir ocupar a Casa do Brasil, de resto, sem violência”, recordou.

O episódio não escapou à PIDE, a polícia política da ditadura portuguesa que, a 1 de abril de 1969, colocou Carlos Alberto Saboga entre os “nomes de alguns dos principais responsáveis pelos distúrbios verificados na Casa dos Estudantes Portugueses na Cidade Universitária de Paris”, assim como o cantor José Mário Branco e Armando Ribeiro, um dos fundadores da Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR). O documento está guardado na Torre do Tombo, em Lisboa.

O realizador de “Photo” e “A Uma Hora Incerta” também participou na “noite das barricadas”, a 10 de maio, em que esteve essencialmente na rua Gay-Lussac. “Participei até de manhã, mas era soldado raso, não tomei nenhuma decisão de comando. Ajudei a construir as barricadas. Quando se chegava lá, estavam filas a arrancar paralelepípedos e a dar uns aos outros e a amontoar coisas e eu ajudei”, lembrou, sublinhando, com um sorriso, que não lançou pedras às autoridades.

Foi uma “noite impressionante”: os polícias, “todos de preto à espera do momento de atacar”, avançaram e houve “os que se bateram até ao último minuto e foram mesmo presos” e outros — como Saboga — que “escaparam”, entre fumo, gás lacrimogéneo e portas abertas pela população que também “atirava água das janelas” para ajudar “a dissipar a fumarada”.

A “enorme greve operária” é outra das recordações marcantes de Carlos Saboga, que chegou a ir a manifestações à Renault, onde milhares de trabalhadores pararam de trabalhar e ocuparam as instalações. “Aí intervim pouco, porque a CGT [Confederção Geral de Trabalhadores] não deixava contactar com operários. Fui a manifestações à Renault, mas não se entrava e, às vezes, pediam-nos para traduzir aos operários portugueses o que estava a acontecer, porque eles não percebiam que havia uma greve. Quer dizer, levaram tempo a perceber”, contou.

Grande parte dos portugueses, que emigraram para França para trabalhar, “não tinham a cultura da greve e das lutas operárias”, algo que Carlos Saboga constatou nos bairros de lata, onde chegou a ir “para tentar convencer os trabalhadores portugueses a fazer greve”.

“Recordo-me de termos ido a um ‘bidonville’ e, na paragem de autocarro, estavam imensos portugueses à espera. Ora, não havia autocarros, mas eles estavam à espera para ir trabalhar. Eles perceberam o que se passava, mas não sabiam muito bem qual a atitude a tomar”, continuou.

Ainda que tenha participado “em coisas estritamente portuguesas”, Carlos Saboga também assistiu a debates no anfiteatro Richelieu da Sorbonne e no Théâtre de l’Odéon, e “pensava que o que se estava a passar aqui não tinha nada a ver com Portugal”, mesmo que imaginasse que “uma revolução seria internacional”.

A dada altura, começou a circular o rumor de que as autoridades estavam a expulsar portugueses e, como os serviços de informações franceses “tinham fotografado os ocupantes da Casa de Portugal”, Carlos Saboga decidiu partir para Itália, em finais do mês de junho. Regressou para Paris sete anos depois, uma cidade onde vive até hoje e de onde recordou à Lusa “o acontecimento histórico mais importante” a que assistiu: o Maio de 68.