No final de abril de 2016, Carlos Inácio Pinto foi detido em Vigo, Espanha, por ter alegadamente tentado matar a mulher, uma ex-modelo romena. O milionário português, natural de Viseu, mantinha uma relação com Eliza há seis anos e tinham casado seis meses antes. Agora, dois anos de prisão preventiva depois, foi formalmente acusado de tentativa de homicídio e vai ser processado pelo Ministério Público espanhol.

Em março, quando foi ouvido pela primeira vez, Carlos Pinto alegou que agrediu a mulher em legítima defesa, depois desta o ter atacado, e em momento algum premeditou a morte da ex-modelo. O auto do Tribunal de Vigo, tornado público na semana passada, revela agora que o motivo pode ter sido financeiro. Carlos, de 57 anos, e Eliza, de 28, viviam no luxuoso condomínio de S. Félix da Marinha, em Vila Nova de Gaia. O português é um engenheiro reformado que enriqueceu com o aluguer de apartamentos e o casal conheceu-se enquanto Eliza ainda trabalhava como modelo. A romena, vinda de uma família abastada, abandonou as passerelles para viver uma vida de luxo com o empresário. Duas semanas antes do crime, os dois assinaram um seguro de vida de 1.500 euros cujo beneficiário, em caso de morte, era o cônjuge sobrevivente.

O Tribunal de Vigo atribui o crime a motivos financeiros devido, exatamente, ao prémio do seguro de vida, já que Carlos Pinto estaria em dificuldades económicas: em fevereiro de 2016, tinha sido condenado a quatro anos de pena efetiva por dois delitos de fraude fiscal pelo Tribunal de Viseu.

Naquela última semana de abril de 2016, Carlos Pinto disse à mulher que tinham de se deslocar a Vigo por motivos profissionais, já que o empresário tinha uma reunião marcada com o seu gestor de conta no Banco Santander. Viajaram de carro, no BMW pessoal do empresário, e quando chegaram à cidade espanhola ainda pararam numa esplanada para tomar uma bebida. Em seguida, deslocaram-se para o hotel onde tinham feito uma reserva: mas não lhes agradou. Mudaram-se para o NH Palacio de Vigo e dormiram cerca de hora e meia antes de Carlos Pinto, sob o pretexto de não encontrar o telemóvel, foi até ao carro, que estava estacionado no parque do hotel. De acordo com o documento redigido pela instrutora do Tribunal de Vigo, terá sido neste momento que o milionário português foi buscar a arma do crime. 

No dia seguinte, por volta das sete e meia da manhã, o despertador tocou e tanto Carlos como Eliza se levantaram. A romena tomou um banho e, quando estava a sair do duche, Carlos ter-lhe-à acertado com uma maçaneta de calceteiro na parte lateral da cabeça, causando perda de visão temporária à mulher. Numa tentativa de efetuar um segundo golpe, o empresário acabou por cair e arrastou a romena consigo. Foi neste momento que a mulher identificou o agressor: o antigo engenheiro voltou a agredir Eliza, empurrando-lhe a cabeça várias vezes contra o chão e tentando depois asfixiá-la com as duas mãos no pescoço da mulher. A romena acabou por conseguir escapar, agarrou na arma e fogiu, sendo depois auxiliada por uma camareira do hotel.

A empregada, que estava no quarto ao lado, ouviu gritos e avisou a direção do hotel, deslocando-se depois para o corredor. Quando lá chegou, encontrou Eliza nua e apoiada na parede, com as mãos na cabeça, enquanto sangrava abundantemente, conta o El País. Entretanto, Carlos Pinto estava debruçado na banheira: o empresário português sofreu um enfarte enquanto agredia a mulher. Foi transportado para o Hospital Álvaro Cunqueiro e ficou numa ala para reclusos durante oito dias. Eliza ficou exatamente no mesmo hospital durante 15 dias devido a feridas profundas na cabeça, cortes na face e hematomas no pescoço e no esterno, tendo sido suturada com 25 pontos.

Agora, o milionário português vai ser acusado e julgado pelo crime de tentativa de homicídio da mulher.

Sete milhões em faturas falsas

O caso que provocou a condenação de Carlos Pinto a quatro anos de prisão efetiva diz respeito à emissão de 500 faturas falsas que totalizaram cerca de sete milhões de euros. De acordo com o Jornal de Notícias, o empresário natural de Viseu terá retirado uma vantagem patrimonial de 1,5 milhões de euros em deduções com IVA e em sede de IRC.

Os crimes foram praticados durante um período de três anos, de 2008 a 2010. Em 2008, Carlos Inácio Pinto fundou a empresa Metaresults, que partilhava a sede com a Iso FC – Isolamentos Técnicos Lda, em Viseu: ambas as empresas se dedicavam à comercialização, instalação e manutenção de materiais isotérmicos e isolamentos técnicos, construção civil e comércio de grosso. O acórdão do Tribunal de Viseu explica que ficou provado que o arguido emitiu faturas em nome da Harionville SA, uma empresa do Cartaxo, com a qual Carlos Pinto nunca teve qualquer relação profissional.

As mercadorias alegadamente compradas e que apareciam nas faturas eram sempre materiais de grandes dimensões mas nunca foi contratado qualquer transporte. Quando foi ouvido, o empresário decidiu permanecer em silêncio mas as provas documentais não deixaram dúvidas aos juízes, que consideraram que Carlos Pinto “agiu com um plano, lesando o interesse fiscal do Estado”.